Nos primeiros meses de 2022, um fenômeno chamou a atenção do mercado de trabalho brasileiro: mulheres com ensino superior foram o grupo que mais pediu demissão de empregos formais no país.
O movimento, que ecoa a chamada Great Resignation observada nos Estados Unidos desde 2021, ganhou contornos específicos por aqui. E revela mais do que insatisfação com o modelo tradicional de trabalho, fala de valores, cansaço, propósito e desigualdade.
De acordo com levantamento da Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro), baseado em dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), uma em cada três demissões entre janeiro e maio de 2022 foi voluntária. Embora os números absolutos indiquem mais saídas entre homens (57%) do que mulheres (43%), a análise proporcional mostra que elas deixaram os empregos em ritmo superior: 38% das mulheres empregadas formalmente pediram demissão, frente a 31% dos homens.

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Por que as mulheres estão saindo?
A economista Camila Bandeira da Rocha, da Firjan, observa que no Brasil, ao contrário dos Estados Unidos, esse movimento se concentra em profissionais qualificados. “As saídas voluntárias ocorrem principalmente entre pessoas com nível superior, especialmente em áreas como tecnologia da informação”, afirma. E entre essas profissionais, o gênero importa. “Embora homens com ensino superior também peçam demissão, as mulheres têm saído proporcionalmente mais nos demais níveis de escolaridade.”
Entre os motivos possíveis, Camila aponta um padrão: mulheres com menor escolaridade muitas vezes assumem sozinhas responsabilidades domésticas e de cuidado, o que pode torná-las mais vulneráveis à sobrecarga. Já entre as diplomadas, há maior chance de estrutura familiar e rede de apoio, o que abre espaço para repensar a vida profissional com mais liberdade.
Salário não é mais o bastante
Para muitas dessas mulheres, a decisão de sair não está vinculada exclusivamente ao salário ou às condições materiais. É o caso da jornalista Luíza Marques, que deixou um emprego em um conglomerado de mídia para voltar à vida de freelancer. O motivo? A perda de autonomia e a perspectiva de voltar ao trabalho presencial integral. “A rotina afetaria minha criatividade. Saí porque queria uma vida que fizesse mais sentido para mim”, explica.
A especialista em diversidade Liliane Rocha, da consultoria Gestão Kairós, relata que mulheres negras, LGBTQIA+ e pessoas com deficiência também estão saindo do mercado corporativo por fadiga e frustração. Ela conta que viu três mulheres negras, com perfis diferentes, recusarem novas vagas e abandonarem o meio empresarial mesmo sem uma fonte segura de renda. Uma delas vendia brigadeiros no sinal. “O que elas têm em comum é o cansaço de ambientes que não acolhem suas vivências”, aponta Liliane.
O conflito entre capital e propósito
Essa mudança de mentalidade traz um desafio ao mercado. “Ainda é difícil para o empresariado entender que alguém que precisa do emprego pode preferir não trabalhar. A lógica de que o salário resolve tudo não se sustenta mais”, diz Liliane.
Segundo dados do IBGE, o desemprego no Brasil estava em 9,3% no segundo trimestre de 2022, com mais de 10 milhões de pessoas fora do mercado de trabalho. Mesmo assim, mais de 2,2 milhões de pedidos de demissão voluntária foram registrados naquele período. Entre mulheres com ensino superior, isso representa uma ruptura importante com o script tradicional de sucesso profissional.
Uma escolha, nem sempre voluntária
A consultora Marcela Ávila, formada em Políticas Públicas, trocou um cargo na prefeitura por uma vaga na iniciativa privada. Durante a pandemia, viveu o que descreve como um ambiente tóxico, marcado por microgerenciamento e excesso de cobrança por produtividade. Pediu demissão em 2020 e, desde então, atua como empreendedora em consultoria. Em 2023, mudou-se para Berlim. “Foi preciso ressignificar o papel do trabalho na minha vida. Hoje, ele é uma parte do que eu sou, não o todo.”
Por outro lado, a especialista em gênero Adalgisa Bozi Soares alerta que muitas saídas não são exatamente escolhas. “Muitas mulheres dizem que saem para manter a saúde mental, mas é uma escolha forçada. Faltam alternativas reais de permanência no mercado com qualidade de vida.”
Um movimento com impacto profundo
As consequências da Grande Renúncia feminina vão além do desligamento de um emprego. Elas sinalizam um desejo por novos arranjos, mais flexibilidade e sentido no trabalho. Também escancaram desigualdades históricas, especialmente quando o peso do cuidado e das expectativas sociais recai sobre as mulheres.
A escritora Leila de Souza Teixeira, que deixou a Petrobras em 2016 para se dedicar à literatura, percebe o movimento em sua própria trajetória. Sua personagem Geórgia, do livro Se Eu Não Posso Ser Quem Sou, larga um cargo público em busca de si mesma. “Achei que ninguém fosse se identificar, por medo da crise. Mas recebo mensagens de mulheres dizendo que vivem o mesmo dilema”, conclui.
*Entrevista concedida a Marie Clare.


