O Brasil foi oficialmente retirado do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU), conforme relatório divulgado nesta segunda-feira, 28 de julho, pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), agência focada em alimentação e agricultura.
O resultado foi apresentado durante a 2ª Cúpula de Sistemas Alimentares da ONU, realizada em Adis Abeba, na Etiópia.

A avaliação leva em conta uma média de três anos, de 2022 a 2024, justamente para evitar que oscilações pontuais afetem a análise. Segundo a FAO, o indicador utilizado, chamado Prevalência de Subnutrição, calcula o percentual de pessoas que, de forma habitual, consomem menos calorias e nutrientes do que o necessário para uma vida saudável.
A presença de um país no Mapa da Fome indica insegurança alimentar grave e contínua entre a população. Embora o dado oficial mostre melhora, o próprio relatório da ONU reforça que a saída da lista não significa o fim dos problemas alimentares, mas sim que o índice grave caiu abaixo do patamar considerado crítico.
Pandemia e insegurança alimentar
O Brasil já havia deixado o Mapa da Fome em 2014, após uma década de políticas voltadas à redução da pobreza e ampliação da segurança alimentar. No entanto, em 2021, voltou a figurar na relação, após os impactos sociais e econômicos causados pela pandemia de covid-19, somados à alta dos preços, cortes em programas sociais e aumento do desemprego.
Dados nacionais daquele período indicavam que cerca de 33 milhões de brasileiros conviviam com a fome. A crise sanitária agravou desigualdades já existentes, dificultou o acesso à renda e interrompeu o funcionamento de redes de apoio, como escolas públicas, onde milhões de crianças faziam sua principal refeição do dia.
Além disso, entre 2018 e 2020, indicadores de pobreza e insegurança alimentar vinham registrando piora contínua, o que contribuiu para o retorno ao mapa. A ausência de uma rede robusta de proteção social durante a emergência sanitária acentuou o problema em várias regiões do país.
Ações que contribuíram para a saída do mapa
Conforme o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, a atual exclusão do Brasil do Mapa da Fome foi resultado de um conjunto de medidas voltadas à retomada da segurança alimentar. Entre as ações destacadas está a reestruturação do programa Bolsa Família, que ampliou a cobertura de famílias em situação de pobreza extrema e instituiu benefícios adicionais por filhos e adolescentes.
Também foram reativadas políticas de incentivo à agricultura familiar, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que compra diretamente de pequenos produtores e destina os produtos a escolas, abrigos e instituições sociais. Essa estratégia garantiu escoamento da produção local e acesso a alimentos frescos e variados para populações em situações de fragilidade.
O retorno dos investimentos em merenda escolar teve papel central, especialmente em regiões com altos índices de pobreza infantil. A oferta de refeições balanceadas nas escolas públicas ajudou a garantir pelo menos uma alimentação diária para milhões de estudantes.
Dados oficiais apontam que o desemprego recuou entre 2022 e 2024, o que também contribuiu para a melhora nos indicadores. O aumento do salário mínimo acima da inflação e a recuperação parcial da renda média das famílias influenciaram no poder de compra de alimentos, mesmo em contextos de alta de preços.
Apesar do avanço registrado, a ONU alerta que a segurança alimentar continua sendo um desafio no país. Milhões de brasileiros ainda vivem em situação de insegurança alimentar moderada, que, embora não se enquadre nos critérios da fome grave, representa dificuldade contínua no acesso regular e suficiente à alimentação.
Segundo a metodologia da FAO, a exclusão do mapa não é definitiva e depende da manutenção dos indicadores nos próximos anos. Qualquer mudança nas políticas públicas, na economia ou no mercado de trabalho pode refletir rapidamente nos dados.


