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Obesidade infantil: a saúde das crianças em risco

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Saí para dar uma volta e decidi sentar no banquinho da praça para observar o movimento urbano. Tinha lido uma reportagem recentemente e os números ficaram na minha cabeça. Transformei as estatísticas em foco e percebi a presença de muitas crianças aparentemente acima do peso correndo de um lado para o outro. Algumas tomavam sorvete, outras comiam pipoca ou biscoitinhos, mas poucas se exercitavam de fato.

A ficha caiu: os dados que havia lido — assustadores — pareciam fazer sentido. Um em cada quatro adolescentes terá obesidade ou sobrepeso até 2030. Em todo o mundo, isso significa quase meio bilhão de jovens nessa faixa etária. A previsão foi feita pela Comissão sobre Saúde e Bem-Estar de Adolescentes da revista The Lancet, uma das mais renomadas no meio científico.

Memória recuperada, voltei para casa para consultar minhas fontes. Estava intimamente preocupada com o que ouviria a respeito desse panorama. Afinal, obesidade é uma doença.

Memória recuperada, voltei para casa para consultar minhas fontes. Estava intimamente preocupada com o que ouviria a respeito desse panorama. Afinal, obesidade é uma doença.
Até 2030 teremos um exército de crianças e adolescentes com obesidade | Foto: Reprodução/Freepik

Ambientes obesogênicos

A obesidade infantil é definida como o acúmulo excessivo de gordura corporal em crianças e adolescentes, em níveis que podem comprometer a saúde, explica a Dra. Thaisa Trujilho, diretora da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e membro da Comissão Científica da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica.

A endocrinologista desenha um cenário sombrio para os próximos anos: “O período entre 2025 e 2030 será decisivo para que os responsáveis por políticas públicas combatam a epidemia de obesidade. Caso medidas concretas não sejam adotadas, é provável que países de baixa e média renda enfrentem graves crises de saúde pública, devido ao crescimento da obesidade em populações numerosas e com recursos limitados”.

Ela sugere a implementação de sistemas nacionais de monitoramento da obesidade em crianças e adolescentes, que permitam direcionar melhor os recursos públicos e estruturar respostas eficazes — especialmente aquelas voltadas aos fatores estruturais que contribuem para o excesso de peso, como os chamados ambientes obesogênicos. Esses ambientes promovem ou facilitam o consumo de alimentos processados e ultraprocessados e comportamentos sedentários, dificultando a adoção e a manutenção de hábitos alimentares saudáveis e a prática regular de atividade física.

O mapa da obesidade infantil

No Brasil, cerca de 15,5 milhões de pessoas entre 5 e 19 anos convivem com o excesso de peso. A pesquisa aponta que o sobrepeso entre jovens de 10 a 24 anos vem crescendo nos últimos anos e atinge especialmente países da América Latina — como o Brasil —, Caribe, Norte da África e Oriente Médio.

Dra. Thaisa Trujilho afirma que o problema está ligado a diversos fatores, como mudanças globais que afetam a forma como vivemos e nos alimentamos: “O crescimento das cidades, a globalização e o desenvolvimento econômico trouxeram mudanças nos sistemas de transporte, na indústria, na mídia e no acesso aos alimentos — e muitas dessas mudanças incentivaram hábitos que favorecem o ganho de peso.

Essas transformações também contribuíram para o aumento das desigualdades sociais, da insegurança alimentar e da poluição, além de terem levado à substituição de alimentos tradicionais por dietas industrializadas no estilo ocidental”, conclui.

“O brasileiro costuma fechar a porta depois que é roubado”

O ditado pode ser aplicado em várias situações. Mas, nesse caso, será que quando doer no bolso as pessoas vão acordar?

Para quem está acostumada a lidar com a rotina de famílias em consultório, a médica explica que o custo do tratamento da obesidade infantil é substancial. Inclui gastos diretos — consultas, intervenções comportamentais, medicamentos, hospitalizações — e indiretos, como perda de produtividade dos pais e impacto futuro na saúde.

Uma meta-análise internacional estimou que o aumento anual dos custos médicos diretos atribuíveis ao excesso de peso e obesidade infantil é de aproximadamente US$ 237,55 por criança (cerca de R$ 1.320,77).

Os custos de hospitalização chegam a US$ 1.975,06 per capita (R$ 10.981,39), medicamentos a US$ 46,38 (R$ 257,87), atendimentos ambulatoriais a US$ 14,27 (R$ 79,34) e outros cuidados não hospitalares a US$ 56,52 (R$ 314,25). Por que gastar essa dinheirama com tratamento se a doença pode ser prevenida?

Prevenir é sempre melhor que remediar

Gente, o neném gordinho é chamado de fofinho. O bebê cresce, vira adolescente com sobrepeso, enfrenta gordofobia na escola, o famoso bullying. É apontado como “gordo” pela sociedade preconceituosa e, então, surgem a baixa autoestima, ansiedade, depressão e isolamento social.

A especialista afirma que esse adolescente provavelmente vai acabar desenvolvendo outros problemas de saúde, como diabetes tipo 2, pressão alta, colesterol elevado, acúmulo de gordura no fígado, dificuldades respiratórias, distúrbios hormonais e complicações ortopédicas.

Mais do que isso: crianças com obesidade também têm maior chance de manter o excesso de peso na vida adulta, com risco elevado de desenvolver doenças crônicas.

Por que não tratar enquanto há tempo? Mudar o estilo de vida, adotando alimentação saudável, reduzindo alimentos ultraprocessados, incentivando o consumo de frutas, verduras e alimentos naturais, além da prática regular de atividade física? Pergunta Dra. Thaisa. Coloca na ponta do lápis e veremos que essa planilha é bem mais vantajosa.

De olho na tela

Os tempos mudaram e a galerinha passa mais tempo diante de uma tela do que se exercitando. Por isso, o papel dos pais, dos cuidadores e da escola é essencial para incentivar mudanças de hábito.

Dra. Thaisa vai além: “Políticas públicas que garantam acesso a alimentos nutritivos, espaços seguros para brincar e regulamentação da publicidade de produtos ultraprocessados voltados ao público infantil também são cruciais para prevenir o desenvolvimento da obesidade desde a infância”.

Novas regras para cirurgia bariátrica

O uso de medicamentos é reservado para adolescentes com obesidade grave e comorbidades, quando as mudanças de estilo de vida isoladamente não foram eficazes. Deve ser feito sob orientação médica especializada — o que não é disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde. Ou seja, tem que pagar.

O que o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece é acompanhamento em unidades de saúde, com uma abordagem multiprofissional que inclui orientação nutricional, estímulo à atividade física e apoio psicológico para a criança e a família. Os casos mais graves são encaminhados a especialistas.

Vislumbrando um horizonte nada animador, o Conselho Federal de Medicina (CFM) ampliou as regras para a cirurgia bariátrica — focada na redução de peso —, diminuindo a idade mínima para 14 anos. Mas essa é apenas a ponta do iceberg. “O procedimento não vai resolver o problema da obesidade infantil e deve ser reservado para os casos de maior gravidade”, opina a médica.

E a fome?

Quando estava concluindo este texto, várias perguntas vieram à minha cabeça: como um país com um número elevado de obesos pode estar também no mapa da fome? O Brasil é um grande produtor de alimentos, mas por que falta comida na mesa do povo, especialmente dos mais pobres?

Bom, acho que já tenho uma próxima pauta em vista. Por enquanto, fico satisfeita se a sociedade unir forças no combate à obesidade infantil.

Sobre o autor Livia Calmon

Jornalista com passagens pelas redações da TV Globo — São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Minas Gerais e Bahia —, da TV Record SP, Band SP e revista IstoÉ Gente. Produtora de Conteúdo de Campanhas Políticas e estudiosa da área da saúde

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