Mais que futuro, o esporte feminino é o presente, com dados, audiência e bilhões em jogo
Ninguém falava no placar. No bar, no aeroporto, nas redes, o assunto era outro. A forma como elas jogavam. A postura. A entrega. O jeito como uma competição feminina, até pouco tempo ignorada, virou pauta, palco e produto. Sem marketing forçado, sem viral pronto. Só a constatação silenciosa: o esporte feminino não está pedindo passagem. Já passou.
Final da Copa América Feminina 2025
Brasil 4 (5) x 4 (4) Colômbia
O jogo já virou: esporte feminino é negócio
Durante muito tempo, o esporte feminino foi tratado como apêndice, quase um “plus” social de clubes, marcas e ligas. Mas 2025 marca um novo momento: a profissionalização do esporte entre mulheres deixou de ser exceção ou ativismo. É economia. É audiência. É estratégia.
Segundo a Deloitte, o esporte feminino deverá movimentar US$ 2,35 bilhões em receitas globais em 2025. O salto é vertiginoso: eram US$ 692 milhões em 2022. Estamos falando de um setor que triplicou de valor em apenas três anos e que começa a disputar atenção, engajamento e investimento no mesmo plano que as principais ligas masculinas. A diferença? A curva de crescimento do esporte entre mulheres é muito mais acelerada.

Dados e audiência: os bilhões que movimentam o feminino
Investidores que antes viam o segmento como “aspiracional” agora tratam o esporte feminino como ativo de portfólio. O bilionário indiano Mukesh Ambani, por meio de sua empresa Reliance Industries, adquiriu os direitos da franquia Mumbai Indians na Women’s Premier League (WPL) por cerca de US$ 112 milhões (aproximadamente 901 crores de rúpias indianas).
Essa foi a oferta mais alta entre as cinco equipes fundadoras da liga. Michele Kang e Whoopi Goldberg lançaram juntas a AWSN, uma rede internacional de transmissão 100% dedicada a esportes femininos, com distribuição própria e foco em atletas de elite.
E o retorno não é apenas financeiro: é reputacional. Um estudo recente mostra que campanhas de marcas associadas a atletas mulheres geram o dobro da intenção de compra quando comparadas às mesmas campanhas com atletas homens. A força do impacto simbólico, somada à performance esportiva, cria uma conexão afetiva, de pertencimento e de futuro.
Brasil acelera investimentos no futebol feminino
No Brasil, o movimento também começa a mostrar força estratégica: a CBF investiu R$ 25 milhões no Brasileirão Feminino 2024, com cotas de participação, logística e VAR. Em 2023, a Seleção Feminina recebeu R$ 58,3 milhões — um aumento de 22% em comparação ao ano anterior. Para 2025, as cotas foram reajustadas em cerca de 20%, com R$ 6 milhões distribuídos entre clubes, o que reforça a visão de profissionalização.
São números que mostram que o esporte feminino brasileiro deixou há muito o estágio simbólico — e agora está na agenda da gestão, da infraestrutura e da sustentabilidade.
O poder das atletas como marcas e influenciadoras
Entre 2019 e 2023, o futebol feminino no Brasil registrou expansão em número de clubes, transmissões e público. Segundo a Outfield, quase 200 clubes estavam em atividade em 2022, mantendo o ritmo dos anos anteriores. Já o Brasileirão Feminino A1 teve audiência acumulada de 56,5 milhões de pessoas nas transmissões da Globo e Sportv em 2024 — um crescimento consistente em relação a anos anteriores.
E os investimentos começam a refletir esse novo interesse:
- O Itaú se tornou patrocinador máster da seleção feminina até 2026, com contratos próprios e ativações focadas em identidade e diversidade.
- A Nike renovou por dez anos com a CBF, pela primeira vez com cláusulas específicas para uniformes femininos.
- Em 2025, a Betano firmou acordo de patrocínio com a Conmebol para a Copa América 2025.
- A Globo assumiu, em 2024, a transmissão integral do Brasileirão Feminino na TV aberta e por streaming.
Na Europa, a resposta do público também confirma o novo momento: a edição de 2025 da Eurocopa vendeu mais de 600 mil ingressos e quebrou o recorde de público. É um número que fala por si e coloca o futebol feminino como protagonista não apenas de transmissões, mas também de arenas lotadas, agendas familiares e experiências de alto valor para marcas e organizadores.
Nos bastidores, marcas que antes hesitavam em apostar no segmento agora criam campanhas lideradas por jogadoras como Marta, Ary Borges, Bia Zaneratto, Cristiane e Gabi Portilho.
Mais que visibilidade: elas geram vendas, criam narrativas e movimentam cultura.
Marcas e mídia: o esporte feminino como estratégia
O avanço do esporte feminino não está apenas nas arquibancadas ou nos recordes de audiência — ele já chegou aos departamentos de marketing e às mesas de tomada de decisão. Marcas e plataformas de mídia começam a olhar o feminino como um ativo estratégico, com potencial real de retorno e conexão com públicos diversos. Já não se trata apenas de “dar visibilidade” ou cumprir metas institucionais: investir no feminino passou a ser, também, uma decisão de negócio.
Em entrevista exclusiva ao Super Finanças, Nina Brandão, head comercial de futebol feminino na LiveMode, aponta que o mercado está mudando a forma como vê o feminino:
“O futebol feminino, e o esporte feminino como um todo, está diretamente relacionado a valores como igualdade de gênero e representatividade, o que o torna altamente relevante para as novas gerações e, portanto, para as marcas.”
Nina destaca que marcas como Centauro, Mercado Livre, TikTok, Gerdau e Mastercard têm apostado não apenas em cotas de patrocínio, mas também na construção de narrativas, transmissões proprietárias e experiências de marca alinhadas ao propósito.
“É um território de construção sólida e retorno comprovado. A Centauro, por exemplo, aumentou em quatro pontos percentuais a associação da marca ao esporte feminino após transmitir o Paulistão Feminino em seus canais digitais.”
Essa mudança de mentalidade também é reforçada por Anderson Santos, do Observatório das Transmissões de Futebol:
“As marcas estão entendendo que estar no esporte feminino não é caridade, é visão de futuro, posicionamento e inteligência de negócio.”
Quem ainda chama de nicho pode estar fora da final
A virada do esporte feminino é um caso raro na indústria: é simultaneamente movimento social, revolução econômica e redefinição cultural. Quando uma atleta brasileira tem mais de 20 vezes os seguidores do clube onde atua, não é só sobre popularidade. É sobre protagonismo, autoridade, influência e valor de marca.
Quem continuar tratando o esporte feminino como projeto de “inclusão” — e não como potência econômica e midiática — pode descobrir, em breve, que ficou fora da final.


