O mês de julho de 2025 marcou mais um capítulo importante na disputa comercial envolvendo Estados Unidos, China e Brasil. Dados divulgados pela Administração Geral de Alfândega da China mostraram que as exportações de soja brasileira cresceram 13,9% em relação a julho do ano passado.

Esse número impressiona ainda mais quando se observa a fatia ocupada pelo Brasil no mercado chinês: cerca de 89% da soja importada pela China em julho saiu dos portos brasileiros. No total, o gigante asiático comprou 11,67 milhões de toneladas do grão, recorde para o mês.
Enquanto o Brasil viu seus números dispararem, os Estados Unidos tiveram queda. Os embarques americanos para a China recuaram 11,5%, aprofundando a preocupação dos produtores rurais do país, que já enfrentam dificuldades desde o aumento das tarifas comerciais imposto pelo governo Trump.
Semestre positivo para o Brasil
Os dados acumulados dos primeiros seis meses de 2025 reforçam a força brasileira nesse mercado. Nesse período, a China importou 42,26 milhões de toneladas de soja do Brasil. Em comparação, os embarques norte-americanos somaram 16,57 milhões de toneladas.
Esse domínio brasileiro sobre o mercado chinês está diretamente ligado ao ambiente de tarifas criado pelos Estados Unidos. Como resposta às medidas de Washington, Pequim elevou as taxas sobre produtos agrícolas vindos dos EUA, tornando-os menos competitivos. A soja brasileira, por outro lado, ganhou espaço e se consolidou como principal alternativa para os chineses.
Produtores americanos pedem socorro
A perda de espaço deixou agricultores dos Estados Unidos em alerta. No dia 19 de agosto, a American Soybean Association, entidade que representa os produtores de soja do país, enviou uma carta ao presidente Donald Trump. No texto, os agricultores pedem que o governo feche rapidamente um acordo comercial com a China.
O documento afirma que os produtores não conseguem sobreviver a uma disputa longa com o seu maior cliente. A preocupação é justificada: na campanha 2023-2024, a China comprou 54% de toda a soja exportada pelos Estados Unidos, o equivalente a US$ 13,2 bilhões (o equivalente a cerca de R$ 72 bilhões).
Esse pedido de socorro mostra a dependência dos agricultores americanos em relação ao mercado chinês. Sem o país asiático, as contas não fecham, e a sobrevivência financeira das fazendas fica em risco.
O presidente Donald Trump, que voltou a assumir o cargo no início de 2025, tem feito da política tarifária uma de suas principais bandeiras. No começo de agosto, ele publicou mensagem em sua rede social pedindo que a China quadruplicasse as compras de soja americana. Segundo Trump, esse aumento ajudaria a reduzir o déficit comercial dos Estados Unidos e mostraria boa vontade de Pequim em meio à guerra tarifária.
A fala, no entanto, foi recebida com desconfiança no mercado. Analistas apontam que é improvável que a China aumente de forma tão abrupta as compras de soja americana, principalmente enquanto houver tarifas em vigor e uma oferta estável vinda do Brasil.
Impacto global das tarifas
Desde que o novo tarifaço foi anunciado, em abril deste ano, as medidas atingiram produtos equivalentes a US$ 1,4 trilhão (cerca de R$ 7,66 trilhões) em importações. O setor agrícola americano, que antes era beneficiado pela forte demanda chinesa, agora sente os efeitos da perda de competitividade.
Com os custos maiores, os chineses optaram por intensificar as importações da América do Sul. O Brasil, segundo maior produtor mundial de soja, acabou ocupando esse espaço. Mesmo que em alguns casos a soja americana seja vendida a preços até US$ 40 (aproximadamente R$ 219) mais baratos por tonelada, os impostos cobrados pela China fazem com que o grão brasileiro seja a opção mais vantajosa.
O crescimento nas exportações de soja para a China também revela desafios internos para o Brasil. Embora o país esteja aproveitando a demanda, há limitações logísticas que podem frear o ritmo. A capacidade de armazenagem nacional cobre apenas 60% a 70% da produção. Isso faz com que, em momentos de safra cheia, caminhões funcionem como armazéns improvisados, sobrecarregando estradas e portos.
Ainda assim, o desempenho do Brasil no mercado internacional impressiona. Em 2024, o país enviou aproximadamente 69 milhões de toneladas de soja para a China, gerando cerca de US$ 30 bilhões (aproximadamente R$ 164,24 bilhões) em receita.