O Mercado Livre, marketplace líder em comércio eletrônico na América Latina, deu um passo inédito no Brasil. Pela primeira vez desde que chegou ao país, em 1999, a companhia comprou um ativo físico: a farmácia Cuidamos Farma, localizada no bairro do Jabaquara, na zona sul de São Paulo.

A negociação foi feita com a Memed, plataforma de prescrição digital de receitas médicas, e ainda depende da aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), órgão responsável por analisar concorrência e evitar monopólios no mercado.
O tamanho do mercado em disputa
O setor farmacêutico brasileiro movimentou R$ 103,1 bilhões em 2024, de acordo com dados da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma). A entidade reúne 29 grandes redes, como RD Saúde (Raia e Drogasil), Grupo DPSP (Drogaria São Paulo e Drogaria Pacheco) e Pague Menos, que juntas representam quase metade do varejo farmacêutico nacional.
A entrada do Mercado Livre nesse setor pode mudar a dinâmica da concorrência. O negócio abre espaço para que a empresa, conhecida pela eficiência em logística, amplie seus serviços para medicamentos e produtos de saúde, atraindo consumidores que já utilizam a plataforma para compras diversas.
Por que a compra é estratégica
A aquisição permite atender exigências da legislação, já que apenas estabelecimentos farmacêuticos registrados podem vender e entregar remédios controlados ou com prescrição médica. Até então, a empresa só podia atuar com produtos de higiene, cosméticos e medicamentos isentos de prescrição.
Ter uma farmácia própria também pode ser útil para explorar novos modelos de entrega. Em vez de despachar pedidos apenas de centros de distribuição, a empresa poderá enviar diretamente de uma unidade licenciada. Isso pode acelerar o tempo de entrega, o que é fundamental em um setor no qual muitas redes já oferecem prazos curtos, às vezes de menos de uma hora.
Desafios e mudanças em discussão
O movimento do Mercado Livre acontece em meio a debates no Congresso Nacional. O Projeto de Lei 2.158/2023, de autoria do senador Efraim Filho (União-PB), propõe autorizar supermercados e atacadistas a venderem medicamentos sem prescrição médica, como analgésicos, antitérmicos, antigripais e antiácidos.
Se aprovado, o texto exigirá que esses estabelecimentos contem com um farmacêutico presente durante todo o horário de funcionamento. A medida pode ampliar a concorrência no setor, reduzir preços e facilitar o acesso da população a medicamentos básicos.
Enquanto isso, o passo do Mercado Livre é visto como um projeto-piloto. Especialistas avaliam que, se a experiência com a Cuidamos Farma funcionar, a companhia pode adquirir outras drogarias em locais estratégicos e formar uma rede com presença nacional. Isso colocaria o marketplace em disputa direta com grandes redes já consolidadas, que oferecem atendimento presencial, farmácias de bairro e entregas ultrarrápidas.
Reações do mercado
A possível expansão do Mercado Livre gera incertezas entre investidores e concorrentes. Apesar de ainda ser cedo para medir os impactos, analistas destacam que farmácias menores podem sentir mais pressão, enquanto grandes redes como a RD Saúde mantêm vantagens importantes, como capilaridade e força de marca.
Na bolsa de valores, o setor apresentou oscilações após o anúncio. As ações da RD Saúde fecharam em alta de 0,57%, a R$ 17,65, enquanto Pague Menos caiu 2,21%, para R$ 3,54, e Panvel recuou 2,93%, a R$ 9,95.
O futuro da iniciativa dependerá de como o Mercado Livre vai estruturar sua operação e da aprovação dos órgãos reguladores. Caso avance, a novidade poderá alterar de forma significativa a concorrência e a forma como os brasileiros compram medicamentos.


