O Brasil conquistou um novo posto de destaque no cenário internacional ao se tornar o terceiro maior destino de investimentos da China no mundo e o primeiro fora da Europa. Segundo um estudo divulgado pelo Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), as empresas chinesas destinaram US$ 4,2 bilhões (cerca de R$ 21 bilhões) ao país em 2024, mais que o dobro do valor registrado em 2023.

Além das áreas tradicionais, como energia e petróleo, os investimentos também chegam a setores inovadores, incluindo veículos elétricos e serviços digitais.
Crescimento acelerado
Durante o período de 2015 a 2019, os investimentos da China no Brasil se concentraram em projetos de grande porte, especialmente em petróleo, gás e linhas de transmissão elétrica. Naquela época, a média anual era de US$ 6,6 bilhões (aproximadamente R$ 33 bilhões), mas em iniciativas pontuais. Agora, a estratégia mudou: em 2024, foram anunciados 39 novos projetos, um número recorde, distribuídos em diferentes segmentos da economia.
Entre os exemplos mais recentes, estão a entrada das empresas de tecnologia Meituan e Didi no setor de entregas de alimentos. A chegada dessas companhias demonstra que a China não busca apenas negócios ligados à infraestrutura, mas também está de olho em setores que dialogam diretamente com o consumidor brasileiro.
Impactos econômicos
A presença chinesa traz ganhos importantes. A maior competição no mercado nacional tende a impulsionar a produtividade das empresas já instaladas e pode gerar avanços tecnológicos. No entanto, especialistas lembram que nem todos os efeitos são imediatos.
Grande parte das fábricas chinesas instaladas no Brasil ainda importa peças produzidas na própria China e realiza apenas a montagem final no território brasileiro. Esse tipo de operação, embora relevante, cria menos empregos e não estimula a formação de novas cadeias de fornecedores locais, essenciais para um crescimento econômico mais amplo.
Outro desafio é o ambiente de negócios no Brasil. O país ainda possui um sistema tributário complexo, leis trabalhistas rigorosas e custos de produção elevados, fatores que podem limitar a expansão de novas fábricas. Apesar dessas dificuldades, os números mostram que a China continua disposta a aumentar sua participação.
Relações diplomáticas
O avanço dos investimentos chineses está diretamente ligado ao fortalecimento das relações políticas entre os dois países. Em 2024, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se encontrou duas vezes com o presidente Xi Jinping. Nessas ocasiões, foram firmados acordos em áreas variadas, reforçando o papel estratégico da parceria.
Esse movimento ocorre em um momento de tensão entre a China e os Estados Unidos. O governo americano, liderado por Donald Trump, intensificou a guerra comercial e impôs tarifas mais altas sobre produtos chineses. Como consequência, muitas empresas passaram a reduzir investimentos nos EUA — que somaram apenas US$ 2,2 bilhões (cerca de R$ 11 bilhões) no último ano — e buscar alternativas em países emergentes, como o Brasil.
Mesmo assim, os Estados Unidos continuam sendo a maior fonte de investimento estrangeiro direto no Brasil, com US$ 8,5 bilhões (aproximadamente R$ 42,5 bilhões) em 2024, de acordo com dados oficiais.
Desafios e polêmicas
Apesar da força dos números, nem tudo é positivo. Neste ano, a montadora chinesa BYD enfrentou um processo judicial após o resgate de 163 trabalhadores em condições degradantes durante a construção de uma de suas fábricas. A empresa negou as acusações, mas o episódio reforçou a importância da fiscalização e do cumprimento rigoroso da legislação trabalhista brasileira, que é bastante diferente das normas aplicadas na China.
Além disso, ainda existe a preocupação de que a dependência de importações de peças e componentes limite os benefícios que poderiam ser gerados por cadeias produtivas mais robustas dentro do país. Para muitos especialistas, a chave está em equilibrar a entrada de capital estrangeiro com políticas que incentivem a produção local e o desenvolvimento de fornecedores nacionais.
Futuro da parceria
O fato de o Brasil ter subido da nona para a terceira posição no ranking global de investimentos chineses em apenas um ano mostra que o país se consolidou como destino estratégico. O desafio agora é aproveitar essa oportunidade para estimular setores inovadores, gerar empregos de qualidade e reduzir a dependência de importações.


