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Outubro Rosa: o custo de não olhar para nós mesmas

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Em 2013, recebi o diagnóstico de câncer de mama triplo negativo. Hoje, 13 anos depois, celebro ter ultrapassado aquela marca de dez anos que, no meu acompanhamento, significava poder falar em cura com mais segurança. Voltar a esse tema a cada outubro não é simples e talvez por isso eu traga uma reflexão: por trás de cada estatística existe uma mulher tentando seguir vivendo, trabalhando e cuidando de quem ama.

De lá para cá, a medicina avançou muito. Imunoterapia, testes genéticos e inteligência artificial (IA) ampliaram as possibilidades de diagnóstico e tratamento. O MASAI, ensaio clínico sueco sobre rastreamento mamográfico, mostrou redução de cerca de 44% na carga de leitura dos radiologistas.

Há, sim, debates técnicos sobre a precisão e os limites dessas tecnologias, embora exista amplo consenso sobre a importância de ferramentas disruptivas como aliadas da prevenção, do rastreamento e do diagnóstico. Ainda assim, nenhuma inovação substitui informação, olhar médico, acesso e rapidez para investigar e tratar.

O outubro rosa mostra a importancia do diagnóstico precoce do câncer de mama
O diagnóstico precoce do câncer de mama é fundamental para aumentar as chances de cura e reduzir os impactos da doença na saúde, na renda e na qualidade de vida das mulheres | Foto: Reprodução/Canva

Monitorar as estatísticas também é fundamental. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 78.610 novos casos de câncer de mama por ano no Brasil entre 2026 e 2028. Já o Panorama da Atenção ao Câncer de Mama 2026, elaborado a partir de dados públicos do Instituto Nacional de Câncer (INCA) e de outras bases oficiais, aponta que, no Sistema Único de Saúde (SUS), 51% dos casos analisados foram diagnosticados nos estágios 3 e 4.

O diagnóstico tardio também compromete a renda e a autonomia

Entre mulheres de 20 a 29 anos, 68,3% dos diagnósticos ocorreram tardiamente. Quando a doença atinge uma mulher jovem, o atraso pode roubar muito mais do que saúde: pode interromper formação, carreira, renda, projetos e autonomia.

Num país em que os chamados “nem-nem” ainda expõem desigualdades de gênero, 24,7% das mulheres de 15 a 29 anos não estudavam, não se qualificavam nem estavam ocupadas em 2024, ante 12,5% dos homens. Prevenir e diagnosticar em tempo oportuno também é política de desenvolvimento.

E tempo ainda é gargalo. Entre 2015 e 2025, o intervalo médio entre o diagnóstico e o início do tratamento no SUS foi de 123 dias, mais que o dobro dos 60 dias previstos em lei. Há avanços que devem ser reconhecidos. Tem sido amplamente repercutida a previsão de reserva de R$ 3,9 bilhões no Orçamento de 2027 para ampliar tratamentos oncológicos, valor ainda sujeito à aprovação do Congresso. Ainda assim, descobrir cedo aumenta as chances de cura e é mais racional para o sistema: a doença avançada tende a exigir terapias mais complexas e maior impacto para famílias e Estado.

Saúde e finanças: uma relação que vai além do tratamento

É aqui que o Outubro Rosa conversa diretamente com finanças. Uma mulher em tratamento pode perder renda, reduzir jornada e assumir gastos adicionais, além do desgaste físico e emocional. O medo da doença e dos efeitos colaterais afeta pacientes das redes públicas e privadas.

Reitero nos artigos que escrevo há anos: já vi mulheres tratadas pelo SUS alcançarem a cura e mulheres atendidas nos melhores hospitais privados do país não terem a mesma sorte. Dinheiro amplia acesso, mas não compra garantias diante de uma enfermidade multifatorial. Educação e informação, porém, ampliam a capacidade de reconhecer sinais, buscar uma segunda opinião, procurar atendimento no tempo certo e não abandonar o autocuidado.

Atenção à saúde em meio às urgências do dia a dia

Há ainda outro aspecto: a economia da atenção. Guerras, eleições, redes sociais, trabalho, filhos, família, contas e urgências disputam nosso foco, e aquilo que não grita acaba adiado: o exame, a consulta, a observação dos sinais do corpo. O câncer de mama pode ser um fio condutor para recuperar a atenção sobre a saúde como um todo.

Dinheiro também entra nessa equação. Dívidas e insegurança financeira geram desgaste e podem comprometer sono, alimentação, atividade física e a capacidade de manter cuidados regulares.

Isso não significa que o estresse, isoladamente, cause câncer de mama. Mas qualidade e estilo de vida importam: idade, excesso de peso, inatividade física, consumo de álcool, fatores hormonais, reprodutivos e hereditários estão entre os fatores de risco reconhecidos pelo INCA.

Famílias, amigos, empresas, serviços públicos e sociedade civil precisam ampliar essa rede de conscientização e apoio. Se o Outubro Rosa tiver uma missão, que seja esta: não permitir que nenhuma urgência do mundo nos faça esquecer da própria saúde. E, se ao terminar este texto você lembrar uma amiga, irmã, colega, prima, mãe ou companheira de colocar os exames em dia, terá ajudado a transformar informação em cuidado, e cuidado, muitas vezes, em futuro.

Sobre o autor Giovanna Jardim

Consultora em comunicação estratégica com 28 anos de experiência nos setores público e privado. Atua com reputação institucional, sustentabilidade e relações internacionais, tendo participado de cases premiados nos prêmios Aberje e Jatobá.

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