A resposta mais honesta, neste momento, é que ninguém sabe ao certo. O que existe hoje é um cessar-fogo cercado de cautela e expectativas. As negociações previstas em Genebra representam um passo importante, mas ainda dependem da formalização de um “Memorando de entendimento”, interino, que estabelece compromissos, etapas e condicionantes para ambos os lados. O sucesso desse processo dependerá de fatores políticos, militares e diplomáticos que continuam em aberto. Basta uma ruptura relevante para que as tensões voltem a escalar.

Quem viveu os últimos meses no Oriente Médio acompanhou uma rotina marcada por alertas de segurança, fechamento de espaços aéreos e a expectativa permanente de novas retaliações. Mais do que os impactos econômicos, ficou evidente o custo humano da instabilidade: famílias em alerta, viagens interrompidas, incerteza e desgaste emocional.
Ainda assim, uma coisa já pode ser afirmada: independentemente do resultado dessas negociações, o conflito já deixou marcas profundas na economia global — e também no bolso dos brasileiros.
No Brasil, a guerra parecia distante. Mas não era
Bastou o conflito ameaçar uma das regiões mais estratégicas do planeta para que o preço do barril de petróleo disparasse. Em seu momento mais crítico, o barril ultrapassou os US$ 110. Agora, com a perspectiva de uma trégua, voltou para a faixa de US$ 80. A diferença parece apenas um número de mercado. Na prática, ela influencia o preço dos combustíveis, do frete, dos fertilizantes, dos alimentos e, consequentemente, da inflação.
Não por acaso, o governo brasileiro passou a projetar um cenário mais favorável para inflação e juros caso o petróleo permaneça próximo desse patamar. Mas existe uma pergunta mais simples e talvez mais importante: o que muda na vida dos brasileiros?
A resposta começa pelos combustíveis. O petróleo mais caro encarece o transporte, pressiona os custos de produção e aumenta o valor do frete. Em um país que depende fortemente do transporte rodoviário, isso acaba chegando ao supermercado, às passagens e a diversos produtos consumidos diariamente. Mas não para por aí.
O Brasil também é um dos maiores importadores mundiais de fertilizantes, muitos deles provenientes de regiões direta ou indiretamente afetadas por conflitos geopolíticos. Quando energia, logística e insumos agrícolas ficam mais caros, a conta aparece na produção de alimentos.
E justamente quando a guerra dá sinais de arrefecimento, surge outra preocupação relevante: o clima.
A confirmação de um novo episódio de El Niño acendeu um alerta para a safra brasileira de 2026/2027. Especialistas já projetam riscos de secas, queimadas, enchentes e perdas agrícolas em diferentes regiões do país. Produtos básicos da mesa do brasileiro, como arroz, feijão, leite, carnes, frutas e hortaliças — podem sentir os efeitos de uma eventual redução da oferta nos próximos meses.
E aqui está um ponto importante: nem toda inflação futura virá da guerra. Parte dela poderá vir do clima. Outra parte poderá vir da política monetária internacional. Nesta mesma semana, por exemplo, o dólar voltou a subir impulsionado pelas expectativas em torno dos juros americanos, enquanto o Banco Central brasileiro seguiu sua trajetória de redução da Selic (a taxa básica de juros da economia, que influencia desde financiamentos imobiliários até empréstimos, investimentos e o custo do crédito para famílias e empresas).
Mas talvez a principal reflexão não esteja nos efeitos imediatos da guerra. Está nas lições que ela deixa. Nenhum país escolhe as crises que enfrentará. O que diferencia as nações é a forma como se preparam para elas.
Nos últimos anos, diversas economias passaram a olhar com mais atenção para temas como segurança alimentar, segurança energética, logística e autonomia produtiva. A China é um dos exemplos mais frequentemente citados. Após a pandemia, as rupturas nas cadeias globais de suprimentos e os sucessivos conflitos internacionais, o país acelerou estratégias para reduzir vulnerabilidades consideradas críticas, diversificar fornecedores e fortalecer setores estratégicos.