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China anuncia novas taxas portuárias sobre navios ligados aos EUA e amplia disputa comercial marítima

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A China começará a aplicar taxas portuárias especiais a embarcações ligadas aos Estados Unidos a partir da próxima terça-feira, 14 de outubro. A medida, aprovada pelo Conselho de Estado e divulgada pelo Ministério dos Transportes chinês, amplia a disputa comercial entre as duas maiores economias do mundo e responde às tarifas impostas por Washington (nos EUA) a navios de origem ou operação chinesa.

O plano prevê um aumento gradual anual, o que significa que, ao longo dos próximos três anos, as embarcações americanas (e as controladas por elas), enfrentarão custos progressivamente maiores para operar em portos chineses | Foto: Reprodução / Canva

As novas taxas atingem embarcações pertencentes, operadas ou com mais de 25% de participação americana, além de navios com bandeira dos Estados Unidos ou construídos em estaleiros (local apropriado para a construção ou reparo de navios) norte-americanos. Segundo o governo chinês, a decisão tem caráter recíproco e busca reagir às medidas anunciadas em abril pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), que havia determinado tarifas sobre embarcações chinesas e sobre navios construídos na China.

Escalonamento das tarifas chinesas

As taxas portuárias da China serão aplicadas em quatro etapas, começando em 400 yuans (moeda chinesa) por tonelada líquida, o equivalente à cerca de R$ 315, e chegando a 1.120 yuans (aproximadamente R$ 880) até abril de 2028. A cobrança será feita uma vez por viagem, no primeiro porto chinês de escala, com limite máximo de cinco viagens por navio por ano.

Embora o governo chinês tenha descrito a decisão como uma resposta proporcional às ações dos Estados Unidos, fontes do setor afirmam que o impacto imediato deve ser limitado, já que os navios de fabricação ou operação norte-americana representam uma parcela muito pequena da frota mundial — menos de 1%, segundo estimativas do mercado.

Retaliação às tarifas dos EUA

A medida chinesa foi anunciada poucos dias antes da entrada em vigor das tarifas portuárias do USTR, também programadas para o dia 14 de outubro. O plano norte-americano estabelece uma cobrança inicial de US$ 50 por tonelada líquida (cerca de R$ 285) sobre navios pertencentes a empresas chinesas, com aumento gradual até US$ 140 (em torno de R$ 800).

Empresas estrangeiras que utilizem navios construídos na China também serão afetadas, embora com tarifas menores, iniciando em US$ 18 por tonelada líquida (cerca de R$ 103) e chegando a US$ 33 (aproximadamente R$ 188) em 2028.

Em comunicado, o Ministério dos Transportes da China afirmou que as ações dos Estados Unidos violam princípios do comércio internacional e o acordo marítimo entre os dois países, além de provocar “graves danos ao comércio marítimo”.

Matson é o principal alvo das novas taxas

Especialistas apontam que o principal impacto da medida chinesa deve recair sobre a Matson, a maior empresa de transporte marítimo dos Estados Unidos e a 29ª no ranking mundial em capacidade de contêineres, de acordo com dados da Alphaliner, uma plataforma de consultoria e inteligência de dados para o setor de transporte marítimo de contêineres. A companhia opera 29 navios e tem forte presença nas rotas transpacíficas, especialmente entre a costa oeste dos EUA e portos asiáticos.

O navio Daniel K. Inouye, principal embarcação da Matson, tem 18.478 toneladas líquidas e, segundo cálculos do setor, poderá pagar cerca de 7,4 milhões de yuans por viagem (cerca de R$ 5,8 milhões, considerando o câmbio médio de R$ 1,45 por yuan), valor que deve subir para mais de 20 milhões de yuans (em torno de R$ 16 milhões) até 2028.

Se mantiver a atual frequência de viagens, a empresa poderá acumular mais de 100 milhões de yuans por ano, o que equivale a aproximadamente R$ 80 milhões em taxas portuárias.

Desde o anúncio das medidas norte-americanas e da retaliação chinesa, as ações da Matson recuaram quase 7% entre os dias 6 e 9 de outubro na Bolsa de Nova York, refletindo a preocupação dos investidores com o aumento dos custos operacionais e a possibilidade de um prolongamento da disputa comercial.

Participação limitada de empresas americanas no transporte global

Segundo análises do setor, nenhuma das dez maiores companhias marítimas do mundo tem participação americana igual ou superior a 25%. Isso significa que as novas taxas chinesas devem atingir um número reduzido de operadores diretamente ligados aos Estados Unidos.

Ainda assim, graneleiros e proprietários de navios-tanque de petróleo e gás listados em bolsas norte-americanas podem ser afetados, especialmente se fundos de investimento dos EUA possuírem participações significativas nas empresas.

Fontes do setor afirmam que a contrataxa chinesa é “ligeiramente maior” do que a tarifa aplicada pelos Estados Unidos, considerando a diferença cambial, mas destacam que o valor é “geralmente equivalente” em termos de peso financeiro.

Escalada comercial no setor marítimo

A nova rodada de tarifas marca um avanço da disputa comercial sino-americana (de pessoas com origem chinesa que vivem nos EUA) para o setor marítimo, um segmento que até agora havia sido relativamente poupado nas tensões anteriores entre os dois países. Nos últimos anos, os conflitos se concentraram em tecnologia, semicondutores e energia, mas agora se expandem para a cadeia de transporte e logística global.

Especialistas avaliam que, mesmo com impacto econômico limitado no curto prazo, a decisão tem forte peso simbólico e político, pois sinaliza que Pequim (capital da China) está disposta a responder de forma direta a medidas que considere discriminatórias.

Ao mesmo tempo, empresas de transporte marítimo e exportadores de ambos os países observam com cautela os próximos passos. O aumento de custos operacionais pode afetar a competitividade em algumas rotas e elevar preços logísticos internacionais, ainda que de forma moderada.

Com as novas tarifas entrando em vigor simultaneamente nos Estados Unidos e na China, o comércio marítimo entre os dois países enfrenta um novo obstáculo, evidenciando que a disputa entre as duas maiores potências econômicas continua longe de uma solução.

Sobre o autor Saara Paiva

Jornalista, exploradora de eventos culturais e entusiasta da prática de esportes. Escreve sobre finanças sem palavras difíceis e com temas relevantes para quem vive a realidade brasileira.

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