O Censo Demográfico de 2022, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira, 24 de outubro, revelou que o Brasil tem 391 etnias indígenas e 295 línguas faladas em todo o território nacional. A pesquisa mostrou também que a população indígena chegou a 1,69 milhão de pessoas, quase o dobro do registrado em 2010.

O levantamento teve novas perguntas e permitiu que cada pessoa declarasse até duas etnias, o que ampliou a identificação de grupos e subgrupos.
Diversidade e distribuição pelo país
Os indígenas vivem em todas as regiões do Brasil, dentro e fora das terras oficialmente reconhecidas como indígenas. O Censo identificou 335 etnias dentro dessas áreas e 373 fora delas, mostrando a presença de povos indígenas em cidades, vilas e comunidades rurais.
O estado de São Paulo registrou o maior número de etnias, com 271 diferentes grupos, seguido por Amazonas (259) e Bahia (233). Todos os estados tiveram aumento em relação ao levantamento anterior, com exceção do Amapá. Os maiores crescimentos foram registrados em Mato Grosso do Sul, Roraima e Tocantins.
Entre os povos mais numerosos estão os Tikúna, com 74 mil pessoas, os Kokama, com 64 mil, e os Makuxi, com 53 mil. O levantamento também registrou grupos pequenos, alguns com poucos integrantes e até casos de apenas uma pessoa declarada, o que reforça a importância de políticas de preservação cultural.
Línguas e transmissão entre gerações
O país tem 474 mil pessoas de dois anos ou mais que falam alguma língua indígena. As mais utilizadas são Tikúna, com 51.978 falantes, Guarani Kaiowá, com 38.658, e Guajajara, com 29.212. A língua Kaingang aparece em seguida, com 27.482.
Em regiões como o Alto Rio Negro, o Norte do Pará e o Parque do Xingu, há grande convivência de diferentes idiomas. A maioria dos falantes é jovem, o que mostra que muitas comunidades continuam ensinando suas línguas tradicionais.
O Censo também mostrou melhora na alfabetização. Entre os indígenas com 15 anos ou mais, 308 mil afirmaram falar uma língua indígena, e 78,5% deles sabem ler e escrever. O analfabetismo caiu de 32% em 2010 para 21% em 2022, o que indica avanço na educação indígena.
Condições de vida e desafios
A pesquisa revelou que 94% das crianças indígenas de até cinco anos têm registro de nascimento, seja em cartório comum ou por meio do RANI (Registro Administrativo de Nascimento Indígena). Mesmo assim, 5% ainda não têm documento, o que representa milhares de crianças sem registro. O número mais alto é o dos Yanomami, com 3.288 crianças sem registro, o equivalente a 65% das crianças dessa etnia.
O levantamento também apontou problemas de saneamento básico. Muitas comunidades vivem sem acesso à água encanada ou coleta de lixo. Entre os Tikúna, 54.897 pessoas estão nessa situação. Entre os Guarani-Kaiowá, são 35 mil, e entre os Kokama, 29 mil. O índice mais alto proporcionalmente é o dos Yanomami, com 93% sem acesso à água encanada.
Esses dados mostram que, apesar do crescimento da população e do reconhecimento das etnias, as condições de vida ainda são desiguais em várias regiões, especialmente nas mais isoladas.
Indígenas nas cidades e retrato da diversidade brasileira
A presença indígena nas cidades também chamou atenção. São Paulo é a capital com maior número de etnias, 194 no total, seguida por Manaus (186) e Rio de Janeiro (176). Outras capitais com grande diversidade são Brasília (167) e Salvador (142). Fora das capitais, Campinas (SP), Santarém (PA) e Iranduba (AM) têm forte presença indígena.
Os dados mostram que há indígenas vivendo em centros urbanos, estudando, trabalhando e preservando tradições. Isso amplia a compreensão sobre o que significa ser indígena no Brasil de hoje.
O Censo de 2022 oferece um retrato mais completo do país. Mostra centenas de povos, quase trezentas línguas e uma população que cresce e se afirma, mesmo diante das dificuldades. Os resultados reforçam a importância de proteger as culturas, garantir direitos e reconhecer os povos indígenas como parte essencial da história e da identidade brasileira.


