Mesmo dizendo que se consideram planejadas financeiramente, muitas famílias brasileiras ainda vivem sem dinheiro guardado. Uma pesquisa Datafolha divulgada nesta terça-feira, 4 de novembro, mostra que 43% dos entrevistados não possuem nenhuma quantia guardada para lidar com imprevistos.
O levantamento foi encomendado pela Planejar, associação que representa profissionais do planejamento financeiro, e ouviu 2.000 pessoas das classes A, B e C, com 18 anos ou mais, em todas as regiões do país.

Brasileiros dizem ser planejados, mas a prática não acompanha
Segundo o Datafolha, 59% afirmam ser razoavelmente, muito ou extremamente planejados. Porém, esse comportamento não se reflete no dia a dia. A pesquisa mostra que 64% dizem planejar os gastos mensais, mas, mesmo assim, quase metade dos brasileiros segue sem dinheiro guardado.
Emergências financeiras atingiram 84% dos entrevistados
O estudo também mostra um cenário de aperto no bolso. Oito em cada dez entrevistados (84%) passaram por algum tipo de emergência financeira nos últimos 12 meses. Isso inclui atraso no pagamento de contas, pedir dinheiro emprestado, recorrer ao cartão de crédito, fazer empréstimo ou até ficar com o nome negativado. Numa situação assim, quem não tem reserva de emergência costuma se endividar ou perder crédito na praça.
- 84% enfrentaram emergências;
- 43% não têm reserva;
- 64% planejam gastos;
- 59% se consideram planejados.
Quando perguntados sobre o próprio orçamento, 39% disseram que conseguem pagar as contas, mas não sobra nada. Outros 19% admitem que nem sempre conseguem quitar todas as despesas mensais. Ou seja, quase 6 em cada 10 brasileiros vivem no limite, sem folga para guardar dinheiro, investir ou se proteger de emergências.
O pesquisador do Datafolha destaca que a falta de sobra faz com que a ideia de planejamento financeiro fique só no papel. Mesmo quem tenta controlar os gastos depende de crédito ou empréstimo quando aparece uma despesa inesperada.
Metade não sabe exatamente quanto gasta por mês
Outro ponto da pesquisa revela a dificuldade de controlar o orçamento. Apesar de 52% afirmarem que têm noção das próprias despesas, eles reconhecem que não sabem exatamente o valor gasto no mês. Isso significa que parte das saídas pode passar despercebida, como pequenas compras no cartão, aplicativos de entrega, juros e tarifas bancárias.
Já entre as pessoas que se dizem satisfeitas com a própria vida financeira, a maioria tem uma rotina de controle: 82% acompanham o que gastam regularmente. Esse número despenca para 55% entre os insatisfeitos.
Planejamento de longo prazo é raro
O estudo também investigou como os brasileiros tratam o futuro. A falta de reserva é só o primeiro sinal de que o planejamento ainda anda curto. Mais da metade (56%) já pensou em como distribuir seus bens, mas apenas 7% têm testamento ou plano formal. Isso mostra que o desejo existe, mas quase ninguém toma a atitude efetiva para fazer isso acontecer.
A situação se repete quando o assunto é ajuda profissional. Quase seis em cada dez entrevistados (57%) não contam com nenhum tipo de auxílio para organizar as finanças. Apenas 2% já contrataram um planejador financeiro, mesmo que 49% considerem essa possibilidade no futuro.
Classe C é a mais afetada pela falta de reserva
Entre os que não possuem dinheiro guardado, a maioria está na classe C, que representa 78% desse grupo. Para especialistas, famílias dessa faixa têm pouco espaço no orçamento para acumular recursos. A renda cobre contas, alimentação, transporte e dívidas. Qualquer mudança, como demissão, doença, conserto do carro, remédio, acaba criando um buraco difícil de fechar.

“Planejo, mas gastei mais do que recebi”: um retrato comum
A pesquisa revela outra contradição importante: 39% reconheceram que gastaram mais do que receberam no último ano, mesmo se considerando planejados. O número sobe para 54% entre quem não se considera organizado e 53% entre quem está insatisfeito com a própria situação financeira.
Em outras palavras: muita gente planeja, mas não consegue cumprir. Erros de cálculo, compras impulsivas, juros, tarifas e atrasos acabam levando ao descontrole. Para especialistas, seguir o planejamento depende também de acompanhamento, revisão de gastos e ajustes ao longo do mês.

Quando o Datafolha perguntou como cada pessoa se sente com a própria vida financeira, 46% disseram estar insatisfeitos, 38% estão neutros e apenas 16% estão satisfeitos. Quem acompanha de perto as despesas, costuma ter melhores resultados, já que, entre os satisfeitos, 82% controlam os gastos regularmente. Já entre os insatisfeitos, apenas 55% fazem esse acompanhamento.

Pesquisa funciona como um “raio-x” da vida financeira
Os números mostram que o brasileiro até tenta se organizar, mas ainda precisa criar o hábito de olhar para o futuro. A pesquisa, apesar de mostrar dificuldades, aponta para um lado positivo: a maioria dos entrevistados já entendeu a importância de planejar os gastos mensais. O próximo passo é transformar esse planejamento em prática e separar uma parte da renda para emergências.


