Ao observar o mercado de criadoras de conteúdo digital na internet no Brasil, fica claro que o glamour nem sempre se traduz em estabilidade. Muitas influenciadoras decidiram retornar ao emprego com carteira assinada (regime CLT) após experimentar a renda exclusivamente online. A paulista Gabrielle Gimenes, de 28 anos, por exemplo, criou conteúdo em redes sociais durante quase um ano, depois decidiu aceitar uma vaga formal e utilizar a produção digital apenas como complemento.
Gabrielle abriu mão da renda exclusiva das redes ao perceber que “era muito difícil não saber como o conteúdo iria performar”. Ela revelou em entrevista a Marie Claire que o maior valor que recebeu em um mês foi R$ 2.500, chegando a ganhar apenas R$ 30 em outros meses. Para ela, a instabilidade financeira, aliada à falta de benefícios como férias remuneradas, 13º salário, plano de saúde ou seguro de vida, pesou na decisão.
A combinação de emprego formal e produção de conteúdo reflete uma escolha consciente: manter a segurança do trabalho CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) e ainda aproveitar a flexibilidade digital. “Tenho estabilidade financeira e, ao mesmo tempo, continuo produzindo conteúdo”, afirmou Gabrielle, que considera seu movimento fora da internet mais como aprendizado do que retrocesso.

Panorama de rendimentos das criadoras
Dados recentes confirmam que a maior parte das pessoas que produzem conteúdo digital no Brasil enfrenta dificuldades para viver apenas dessa atividade. Uma pesquisa da plataforma Influency.me e Opinion Box revelou que em 2024: 27,1% dos influenciadores ganhavam até R$ 500 por mês; 33,2% recebiam entre R$ 500 e R$ 2.000; 17,1% entre R$ 2.000 e R$ 5.000; 12,1% entre R$ 5.000 e R$ 10.000; 5% entre R$ 10.000 e R$ 20.000; 4% entre R$ 20.000 e R$ 50.000; e apenas 1,5% ganhavam acima de R$ 50.000.
Outra investigação da Brunch em parceria com a Youpix apontou que 50,68% das criadoras de conteúdo recebem até R$ 5.000 por mês e somente 6% conseguem faturar mais de R$ 20.000. Essas estatísticas ajudam a explicar por que influenciadoras como Gabrielle preferem retornar ao emprego formal com carteira assinada.
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Motivos da migração da internet para o CLT
Várias razões impulsionam esse movimento de volta ao regime formal:
1. Estabilidade de renda: A renda por produção de conteúdo oscila bastante. Gabrielle descreveu meses em que “não ganhava praticamente nada” ou recebia valores muito baixos. Já o emprego CLT oferece piso salarial, recorrência no pagamento e benefícios garantidos.
2. Benefícios formais: Ferias remuneradas, 13º salário, plano de saúde e seguro de vida pesam na escolha. Para criadoras que chegam perto dos trinta anos, a ausência desses direitos pode causar insegurança para planejamento de vida, como ter filhos, aposentadoria ou adquirir imóvel.
3. Rotina estruturada e saúde emocional: A produção de conteúdo exige desempenho constante, presença diária nas redes, produção, edição, engajamento — o que pode gerar desgaste emocional. Já o emprego formal oferece rotina mais definida, hierarquia clara e divisão entre trabalho e vida pessoal.
4. Mercado saturado e exigente: Profissionalização crescente, maior concorrência, queda no alcance orgânico e mudanças nos algoritmos das plataformas fazem com que a “liberdade digital” torne-se menos rentável. Como apontou a especialista Giulia Braide, sócia fundadora da MESSS, “o esforço nem sempre se traduz em resultado”. O mercado de criadores demanda mais estratégia, gestão e diversificação de renda.
O que isso representa para quem está começando na internet?
Para mulheres e homens das classes C e D que veem nas redes sociais uma oportunidade de renda alternativa ou principal, esse cenário oferece dois aprendizados concretos:
- O rendimento direto da influência raramente corresponde ao estilo de vida ostentado.
- Ter outra fonte de renda — emprego formal, freelance fixo ou negócio paralelo — ajuda a mitigar riscos e garantir base financeira.
Mesmo quem queira construir carreira digital precisa levar em conta: o foco não pode estar unicamente em “viralizar” ou “ficar famoso”, mas em estruturar uma marca pessoal, diversificar canais de monetização, manter consistência e ter reserva financeira para períodos de baixa.
Impactos no mercado e nas finanças pessoais
Quando influenciadoras largam apostar tudo na carreira digital e retornam ao CLT, isso revela um amadurecimento do setor. Empresas de marketing de influência percebem que não basta visibilidade: é necessário entrega, comunidade e resultados mensuráveis.
Para criadoras de conteúdo e trabalhadores das classes C e D isso significa que investir tempo e recursos em aprender métricas, desenvolver habilidades de negociação, ou até complementar com emprego formal pode ser uma estratégia mais segura.
Para finanças pessoais, o retorno ao emprego formal reduz risco de ciclo de gastos baseado em meses bons e maus. Permite planejamento de longo prazo — reserva emergencial, aposentadoria, investimento — e evita que fontes de renda voláteis comprometam contas fixas, como aluguel, alimentação e transporte.