Para muitos brasileiros, o fim do mês deixou de ser apenas a virada do calendário e passou a ser sinônimo de tensão. Prazos vencidos, contas a pagar e prestações acumuladas têm gerado o que o estudo “Acrobacia Financeira”, do banco Inter, descreve como “caos financeiro” em parte da população.
Segundo a pesquisa, o grau médio de ansiedade financeira atingiu 8,6 numa escala de 0 a 10. Apenas menos de 30% dos entrevistados afirmaram que suas finanças “estão em ordem ou equilibradas”.
Em paralelo, levantamento realizado pela Serasa Experian em 2025 indica que aproximadamente 78 milhões de brasileiros têm contas em atraso, o maior número da série histórica.
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Dívidas e juros pressionam orçamento da população
O cenário de juros elevados e alta do custo de vida tem agravado a situação. Com a taxa básica de juros (Selic) em 15% ao ano, o custo do crédito se torna mais caro e parcelas de empréstimos e cartão de crédito pesam no bolso. Isso amplia o risco de inadimplência e torna mais difícil sair da espiral de dívidas, segundo analistas ouvidos pela Forbes Money.
Para driblar a dificuldade de quitar tudo de uma vez, muitos recorrem ao pagamento mínimo de boletos, uso frequente do cartão de crédito ou parcelamento de contas essenciais. A pesquisa do banco Inter mostrou que 39% dos entrevistados usam o cartão para ganhar prazo, e 28% recorrem ao parcelamento via Pix ou meios similares.
Mas essa dependência do crédito tem um preço: ela alimenta o ciclo de dívida e mantém a instabilidade financeira, o que reflete diretamente sobre o bem-estar emocional daqueles que vivem sob essa pressão.
Saúde mental em alerta
A pressão das finanças não afeta apenas o bolso, mas impactam diretamente na ansiedade da população. Estudo recente da Serasa aponta que 84% dos brasileiros relatam ter sofrido algum impacto na saúde mental por causa de problemas financeiros. Problemas como ansiedade, insônia e estresse constante aparecem com frequência nas respostas.
Entre os entrevistados, 70% admitiram já ter perdido o sono por conta de dívidas e 65% confessaram que tentaram esconder a situação por vergonha ou medo do estigma social.
Além disso, 49% disseram ter desistido de buscar ajuda psicológica porque não podiam pagar as consultas ou tratamentos. A saúde, emocional e física, foi apontada como diretamente afetada pela instabilidade econômica, mostrando que a crise financeira e a crise de bem-estar caminham juntas.
Educação financeira: necessária, mas insuficiente
Segundo a pesquisa do banco Inter, 91% dos brasileiros afirmam que deveriam saber mais sobre finanças pessoais. Ainda assim, muitos dizem que as lições de educação financeira parecem distantes da realidade do dia a dia. Quando falta renda adequada ou estabilidade, o planejamento de longo prazo vira um privilégio, inacessível para a maioria.
Para grande parte da população que vive “no limite”, a lógica é imediatista: pagar as contas do mês ou recorrer ao crédito. Poucos conseguem pensar em investimentos, reserva de emergência ou aposentadoria. Por isso, as recomendações tradicionais de educação financeira têm pouco efeito real para quem vive com orçamento apertado.
Alta inadimplência e consumo comprometido
Os mais recentes indicadores divulgados pela Serasa mostram que o número de inadimplentes no país voltou a subir em 2025, após uma leve queda no fim de 2024. Segundo o “Mapa da Inadimplência e Negociação de Dívidas”, em setembro cerca de 78,2 milhões de pessoas tinham dívidas em atraso, um recorde histórico.
O impacto desse endividamento é sentido no consumo. Com parcelas comprometendo parte significativa da renda, muitas famílias deixam de gastar com bens e serviços, o que leva a uma retração no mercado de consumo popular, justamente aquele que movimenta o comércio de bairro, o varejo popular e os serviços essenciais, afetando diretamente a classe C e D.
Particular vulnerabilidade das famílias de renda baixa
Para muitos brasileiros com renda modesta, o pagamento do salário ou de benefícios não é suficiente para cobrir todas as despesas. Em um contexto de alta inflação, custo elevado de vida e juros altos, essa fragilidade aumenta. Especialistas ouvidos pela mídia advertiram que quando a renda mensal está no limite, emergências, como doença, reparos ou desemprego, podem desorganizar o orçamento por meses.
Mesmo com consciência sobre finanças, a ausência de margem para poupar faz com que qualquer imprevisto reverbere com força, ampliando o risco de endividamento e sofrimento financeiro.
Crédito como tábua de salvação e armadilha
Muitos recorrem ao cartão de crédito e parcelamentos como forma de “sobreviver” ao mês. A pesquisa do Inter mostra que esses mecanismos são amplamente usados como forma de ganhar tempo para o pagamento.
Por outro lado, esse uso frequente pode levar a um ciclo de juros altos e aumento progressivo da dívida. Com a Selic elevada, o custo do crédito se torna ainda mais pesado, dificultando a quitação das parcelas e aumentando a sensação de insegurança financeira.
Embora o crédito possa dar um alívio momentâneo, o estudo da Serasa alerta que ele se torna também um dos fatores que alimentam a ansiedade e a inadimplência em massa.


