“Olha, honestamente, para mim, democratizar a cultura nunca foi ativismo”. A frase, dita de forma pragmática, resume a filosofia de Rafaello Ramundo, fundador e diretor de criação da Novo Traço. Para ele, a música não é apenas entretenimento; é um item essencial, “um braço da arte fundamental para a cesta básica de qualquer ser humano”. Mas, acima de tudo, Rafaello prova que essa premissa é um negócio altamente rentável e escalável.
Cria da Tijuca, Zona Norte do Rio, Rafaello transformou sua trajetória pessoal em uma das empresas mais sólidas do mercado de live marketing e entretenimento do país. Com 18 anos de estrada, a Novo Traço opera sob uma lógica que desafia o senso comum do setor: democratizar o acesso não é caridade, é estratégia de mercado.

O modelo B2B2C: resolvendo dores corporativas com emoção
Enquanto muitos produtores buscam patrocínio como uma forma de “ajuda”, Rafaello inverteu a lógica. Ele entende a Novo Traço como uma “máquina de produção de ideias musicais” que opera em um modelo B2B2C (Business to Business to Consumer).
O pulo do gato? Usar a música para resolver problemas de grandes corporações. “A virada de chave (…) foi compreender e me aproximar de empresas que, assim como as pessoas, são pessoas, porém jurídicas”. Na conversa que o Super Finanças teve, ele cita o exemplo de concessionárias de energia, como a Equatorial Energia, que patrocinam seus festivais. Essas empresas, que muitas vezes lidam com consumidores insatisfeitos por questões cotidianas, encontram na música um território de conexão suave.
“Quando uma marca vive essa experiência de que o seu problema do cotidiano é resolvido por conta do estado de espírito mais bem-humorado (…) é muito difícil que ela resista a esse investimento.”
Resultados que tocam a “última linha da planilha”
A estratégia se provou eficaz. Em 2025, a Novo Traço bateu recorde de faturamento, realizou cerca de 100 shows e gerou 3.000 empregos diretos. Rafaello é enfático sobre o impacto econômico de sua operação: “Não adianta a gente discutir distribuição de renda (…) e a gente não colocar a mão na massa para gerar emprego de verdade”.
Essa visão está alinhada com o crescimento robusto do setor no Brasil. Segundo o Mapeamento da Indústria Criativa 2025, da Firjan, a área representou 3,59% do PIB nacional em 2023, movimentando R$ 393,3 bilhões. A Novo Traço surfa essa onda, projetando-se não como uma empresa carioca, mas nacional, produzindo “do Oiapoque ao Chuí”, com sedes no Rio, São Paulo e São Luís.
Democratização na prática: o ingresso a preço popular
O portfólio da empresa reflete essa missão de acesso. Entre os produtos de destaque estão o Festival TIM Music Rio, em Copacabana, e o consolidado Prudential Concerts, que já caminha para o nono ano unindo orquestras a artistas populares.
Mais recentemente, a segunda edição da Casa Light, no Teatro Laura Alvim, exemplifica a tese do realizador: ingressos a R$ 10 para ver nomes como Paulinho Moska e Zé Ibarra. “Me interessa entregar produtos de ticket um pouco mais barato para o consumidor final”. Isso só é possível porque a conta fecha no B2B: as marcas financiam a experiência, garantindo sustentabilidade ao negócio e acesso ao público.
O futuro
Com os pés fincados na realidade financeira — “nós não somos irresponsáveis economicamente (…) somos muito atentos a cada ponto” — e a cabeça na expansão, o próximo passo da Novo Traço é fortalecer a distribuição de conteúdo no digital.
Rafaello Ramundo consolida-se, assim, como um perfil raro no empresariado brasileiro: alguém que entendeu que fazer o bem para a alma das pessoas e gerar lucro para grandes corporações não são objetivos excludentes, mas sim a harmonia perfeita para um negócio de sucesso.


