São Paulo completou 472 anos em 25 de janeiro de 2026 ocupando uma posição central na economia brasileira. O estado concentra hoje o maior Produto Interno Bruto (PIB) do país, indicador que soma todos os bens e serviços produzidos em uma região.
Em 2024, o PIB paulista alcançou R$ 3,5 trilhões, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O valor representa quase o triplo do PIB do estado do Rio de Janeiro, que somou R$ 1,3 trilhão no mesmo período, segundo o mesmo órgão.
Para efeito de comparação internacional, o PIB de São Paulo supera o da Argentina, que em 2024 registrou aproximadamente US$ 640 bilhões. Convertido para reais pela cotação média anual de cerca de R$ 5 por dólar, o valor equivale a cerca de R$ 3,2 trilhões, conforme dados do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Essa posição de destaque contrasta com a realidade do passado. Até meados do século 19, São Paulo tinha pouca relevância econômica, política ou populacional dentro do Brasil Imperial.
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São Paulo no século 19 e o desafio demográfico
O primeiro Censo do Brasil, realizado em 1872, registrou cerca de 30 mil habitantes na capital paulista. No mesmo período, a cidade do Rio de Janeiro, então capital do país, tinha aproximadamente 270 mil moradores, segundo dados do Arquivo Nacional e do IBGE.
Cinco décadas depois, o cenário começou a mudar. O Censo de 1920 mostrou que a população da cidade de São Paulo havia saltado para cerca de 580 mil pessoas, um crescimento de 19 vezes em relação ao levantamento de 1872. A transformação demográfica acompanhou mudanças estruturais na economia e na infraestrutura do estado.
Transporte e infraestrutura como base do crescimento
Um dos principais entraves do desenvolvimento paulista era a dificuldade de transporte entre o interior e o litoral. A Serra do Mar representava um obstáculo físico relevante para o escoamento da produção agrícola até o Porto de Santos.
Até o fim do século 18, o trajeto era feito por trilhas de origem indígena, como o Caminho do Peabiru. A primeira estrada pavimentada, a Calçada do Lorena, foi concluída em 1792. Com cerca de 50 quilômetros e mais de 130 curvas, a via reduzia parcialmente o isolamento, mas mantinha custos elevados de transporte.
Segundo o jornalista e historiador Rafael Cariello, em entrevista à BBC News Brasil, o custo logístico limitava a expansão agrícola, mesmo em uma região com solo fértil. A virada começou com mudanças institucionais no Império, após a abdicação de Dom Pedro 1º em 1831 e a reforma constitucional de 1834, que descentralizou parte do poder político.
Café, arrecadação e mudanças institucionais
A descentralização permitiu que São Paulo criasse assembleias legislativas próprias e estruturasse um sistema de pedágios. Os recursos arrecadados passaram a ser usados na melhoria das estradas, reduzindo o tempo e o custo de transporte.
Em 1846, foi inaugurada a Estrada da Maioridade, mais larga e eficiente que as rotas anteriores. De acordo com pesquisas de Cariello, os pedágios chegaram a representar quase metade da arrecadação provincial.
Essas melhorias viabilizaram a expansão da produção de café para regiões mais distantes do litoral, como Campinas, Limeira, Piracicaba, Rio Claro e Itu. O café se consolidou como principal motor econômico do estado ao longo da segunda metade do século 19.
A chegada da ferrovia em 1867 reforçou esse processo. A São Paulo Railway Company, financiada com capital inglês e recursos de produtores locais, ligou a capital paulista a Jundiaí e ao Porto de Santos, ampliando a competitividade da produção destinada ao mercado externo, especialmente aos Estados Unidos.
Fim da escravidão e imigração em massa
Em 1850, o Brasil proibiu o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, decisão influenciada por pressões políticas da Inglaterra. Para suprir a demanda por mão de obra, São Paulo passou a incentivar a imigração europeia.
Entre meados do século 19 e o final da década de 1970, cerca de 3 milhões de imigrantes passaram pela Hospedaria de Imigrantes do Brás, segundo dados do atual Museu da Imigração. Apenas em 1891, o local recebeu aproximadamente 90 mil pessoas.
Além do trabalho nas lavouras, esses imigrantes contribuíram para a formação de um mercado consumidor e para o surgimento de pequenas indústrias, impulsionando setores como vestuário, calçados e alimentos.
Industrialização e diversificação econômica
A dependência do café começou a ser reduzida a partir da crise de 1929, quando o colapso do comércio internacional dificultou a importação de produtos industrializados. Segundo a professora Elizabeth Balbachevsky, da Universidade de São Paulo (USP), o estado já possuía uma base industrial capaz de atender parte da demanda interna.
A partir de 1930, com as políticas de industrialização do governo de Getúlio Vargas, São Paulo se beneficiou novamente. Nas décadas seguintes, o Estado diversificou sua economia, reduzindo gradualmente o peso do café e ampliando atividades industriais, de serviços e, mais tarde, do setor de energia.
Poder simbólico e disputas de interpretação
Especialistas divergem sobre os fatores centrais do sucesso paulista. Para Balbachevsky, a formação institucional menos marcada pelo patrimonialismo teria favorecido uma iniciativa econômica mais autônoma.
Já o sociólogo Jessé Souza aponta o papel do poder simbólico e da construção de uma narrativa de superioridade paulista, especialmente após a Revolução Constitucionalista de 1932. Segundo ele, a criação de instituições culturais e acadêmicas, como o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP) e a própria USP, ajudou a consolidar esse imaginário.
Essas interpretações fazem parte do debate acadêmico sobre a concentração de poder econômico no Brasil e ajudam a explicar como São Paulo se manteve no centro das decisões políticas e financeiras ao longo do século 20 e início do século 21.
*Entrevistas concedidas ao G1.


