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Brasileiros entram em 2026 mais endividados, apesar do emprego e da renda em alta

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Nem o avanço do emprego, nem o aumento da renda registrados em 2025 foram suficientes para aliviar a situação financeira de muitas famílias brasileiras. Dados oficiais e análises de especialistas indicam que o brasileiro deve entrar em 2026 com alto nível de endividamento, inadimplência crescente e maior comprometimento da renda com o pagamento de dívidas.

De acordo com informações do Banco Central do Brasil (BC), ao final de 2025, o endividamento das pessoas físicas chegou a 49,77% da renda acumulada nos últimos 12 meses. No início do ano, esse percentual era de 48,63%, o que representa um aumento de 1,14 ponto percentual no período. Em termos práticos, isso significa que quase metade da renda anual das famílias está comprometida com dívidas.

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Endividamento elevado segue como parte do cotidiano financeiro das famílias brasileiras | Foto: Reprodução/Canva
Endividamento elevado segue como parte do cotidiano financeiro das famílias brasileiras | Foto: Reprodução/Canva

Inadimplência avança mesmo com renda em alta

A inadimplência também apresentou crescimento ao longo de 2025. No começo do ano, o percentual de brasileiros com dívidas em atraso era de 3,78%. Em dezembro, esse número chegou a 5,05%, um avanço de 1,27 ponto percentual, segundo dados do Banco Central.

O comprometimento da renda com o pagamento de dívidas subiu de 27,57% em janeiro para 29,28% em novembro. Quando são excluídos os financiamentos habitacionais, o percentual da renda destinado ao pagamento de boletos e parcelas passou de 25% para cerca de 27%.

Esse movimento chama atenção porque ocorre em um período marcado por baixo desemprego e renda média em patamar recorde, o que, em tese, poderia favorecer a redução das dívidas.

Crédito caro e crescimento mais lento em 2026

A expectativa para 2026 é de que o cenário continue desafiador. Especialistas ouvidos pelo InfoMoney avaliam que, mesmo com a possibilidade de queda da taxa básica de juros, a Selic, a partir de março, os juros devem encerrar o ano ainda acima de dois dígitos, em torno de 12%.

Com isso, o chamado juro real, que é o juro descontado a inflação, segue elevado. Esse fator tende a frear a atividade econômica, reduzir o ritmo de geração de empregos e limitar o crescimento da renda.

Para Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), o nível de endividamento das famílias está em um patamar histórico. Segundo ela, o crédito não deve apresentar expansão significativa em 2026, o que contribui para a desaceleração do crescimento econômico.

Segundo a economista, o custo do crédito depende não apenas da Selic, mas também das perspectivas econômicas, do risco de inadimplência e das condições do mercado financeiro.

Dificuldade em reduzir dívidas vem do passado

Os dados ajudam a explicar por que o brasileiro segue endividado mesmo com melhora no mercado de trabalho. Parte desse cenário está ligado ao chamado rolamento da dívida, quando uma dívida antiga é substituída por outra, geralmente com juros mais altos.

Flávio Ataliba, pesquisador do FGV Ibre, explica durante a entrevista para o InfoMoney que o país ainda sente os efeitos do período da pandemia da Covid-19. Naquele momento, muitas famílias precisaram consumir suas reservas financeiras e recorrer ao crédito para manter o consumo básico.

Além disso, houve uma ampliação do acesso ao crédito nos últimos anos, especialmente com a atuação de fintechs, empresas de tecnologia financeira que passaram a oferecer cartões e empréstimos para pessoas antes fora do sistema bancário tradicional. Esse movimento aumentou a liquidez, mas também elevou o endividamento, sobretudo entre quem tem menor acesso à educação financeira.

Uso crescente de linhas mais caras de crédito

Em um contexto de pouca reserva de emergência, qualquer gasto inesperado pode levar o consumidor a buscar crédito mais caro. É o caso de despesas médicas, consertos de veículos ou manutenção da casa.

Segundo o Banco Central, o crédito rotativo do cartão de crédito cresceu 8,6% ao longo de 2025. O empréstimo pessoal avançou 14,7% e o uso do cheque especial teve alta de 10,9%.

Um dos destaques foi o crescimento do crédito consignado privado, modalidade em que a parcela da dívida é descontada diretamente da folha de pagamento. Esse tipo de crédito teve expansão de 183,6% no ano, especialmente entre trabalhadores do setor privado e empreendedores.

Juros elevados ampliam o custo das dívidas

Enquanto a taxa Selic encerrou 2025 em torno de 15% ao ano, o juro médio pago pelas pessoas físicas chegou a 60% ao ano em dezembro. Em janeiro, essa taxa era de 54,3%, o que representa um aumento de aproximadamente 7 pontos percentuais no período.

No caso do cartão de crédito, os números são ainda mais expressivos. A taxa máxima anual ultrapassa 1.000%, enquanto a média entre as instituições financeiras ficou em 476%, segundo dados do Banco Central referentes ao período entre 9 e 15 de janeiro.

Cláudio Hamilton Matos dos Santos, técnico de planejamento e pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), explica que, em financiamentos corrigidos por taxas como a Taxa Referencial (TR), o impacto dos juros aparece no tempo necessário para quitar a dívida, e não necessariamente no valor da parcela mensal.

Isso significa que, mesmo mantendo dívidas proporcionais à renda, as famílias precisam destinar uma parcela maior do orçamento para o chamado serviço da dívida, que é o pagamento de juros e amortizações.

Sobre o autor Rafaella Ranulfo

Jornalista especializada em assessoria e gestão da comunicação. Pós-graduanda em psicologia positiva, felicidade e bem-estar. Além de suas contribuções online, é autora de dois livros e criadora de conteúdo

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