IBOV 138.420 +0,82% USD/BRL 5,18 -0,34% EUR/BRL 5,62 +0,11% Bitcoin US$ 61.450 -0,38% Ethereum US$ 1.627 -0,67% Selic 9,75% estável IPCA 12m 3,84% -0,12pp Petróleo Brent US$ 82,40 +1,21%
Ao vivo

O verdadeiro negócio das bets não é o futebol, é a sua atenção

Por

·

Não é exagero dizer que vivemos uma era de forte apelo publicitário no campo das apostas no Brasil. Só nos três primeiros meses de 2026, as casas de apostas esportivas injetaram R$ 327 milhões em publicidade. Os investimentos em mídia do setor cresceram 47%, mais do que qualquer outro segmento da economia brasileira. Isso faz parte de uma estratégia bem orientada, com cifras elevadas investidas para funcionar.

Basta assistir a alguns jogos da Copa do Mundo este ano e reparar: QR Codes aparecendo no meio da transmissão, no calor da partida. Em determinados canais, comentaristas que deveriam estar analisando a tática do jogo estavam, na prática, sugerindo apostas. A linha entre conteúdo esportivo e publicidade ficou tão fina que praticamente desapareceu.

Investimentos milionários em publicidade ampliam a presença das bets nas transmissões esportivas | Foto: Reprodução/Canva

Quando entretenimento e publicidade deixam de ter fronteiras

E aí mora o ponto: o que as bets fazem não é simplesmente “anunciar”, mas gamificar o risco financeiro. Elas pegam os mesmos gatilhos psicológicos usados em jogos de celular, aqueles que fazem você completar uma barrinha de Tamagotchi, subir de nível e voltar todos os dias, e aplicam isso à sua conta bancária.

O cérebro humano não tem como saber que está sendo manipulado por uma barra de progresso sem propósito real. Ele apenas entende que existe uma tarefa e que ela precisa ser concluída. Quando o resultado quase chega lá, mas não chega, o sistema de recompensa do cérebro pede mais, e mais, e mais uma rodada. De aposta em aposta, são mais atenção, mais tempo e, no fim, mais dinheiro.

Foi exatamente esse cenário que, nesta semana, finalmente provocou uma reação mais dura do governo federal. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, anunciou que o Executivo vai editar uma Medida Provisória para limitar a publicidade de bets durante a Copa do Mundo, com novas regras valendo já a partir da segunda fase do torneio. A comparação que o próprio ministro fez não foi por acaso: ele equiparou as apostas ao cigarro, afirmando que “bet faz mal à saúde”. As peças publicitárias deverão trazer avisos de conscientização ao final, no mesmo modelo já utilizado para bebidas alcoólicas.

A resposta do governo e o reconhecimento do problema

Reconhecer publicamente que apostar tem o mesmo potencial de dano social que o tabaco já representa um avanço importante em um país que, até pouco tempo atrás, tratava esse setor como motor de crescimento econômico, sem questionar o custo humano por trás dos números.

É obrigatório discutir limites reais de exposição, horários, frequência, formato e, principalmente, a responsabilização de quem constrói esses produtos para explorar a vulnerabilidade psicológica em escala industrial.

Enquanto isso, quem já está sentindo o problema na pele tem onde buscar ajuda. O transtorno relacionado aos jogos de apostas é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e tem tratamento gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O diagnóstico pode começar por um autoteste no aplicativo Meu SUS Digital, na seção “Problemas com jogos de apostas”. Quem já reconhece o problema e quer dar um passo concreto pode recorrer à autoexclusão das plataformas, pelo serviço disponível no Gov.br.

A decisão que vai definir o futuro das apostas no Brasil

A crise das bets dentro das transmissões esportivas é o momento em que o Brasil vai decidir, na prática, qual será o futuro das apostas no país: se vamos seguir terceirizando para o cidadão comum a tarefa de se proteger de uma indústria bilionária treinada para captar a atenção e o dinheiro alheio ou se vamos, enfim, construir uma política séria de proteção física, mental e econômica da população.

Que Deus e os orixás nos ajudem a fazer a escolha certa, porque, desta vez, essa será a régua que vamos usar por muito tempo.

Sobre o autor Edu Carvalho

Jornalista e apresentador. Com mais de uma década na comunicação, passou pela Globo, CNN, Revista Época. É colunista em Ecoa UOL e Projeto Colabora. Filho da Rocinha, cria do mundo.

Newsletter

As principais notícias de finanças no seu e-mail

Análises de mercado, economia e negócios. Sem spam, cancele quando quiser.

Publicidade