O Brasil foi o país que mais gastou com o pagamento de juros da dívida pública entre as maiores economias do mundo em 2024. Segundo dados do Financial Stability Board (FSB), o país destinou o equivalente a 8,8% do Produto Interno Bruto (PIB) para pagar juros da dívida, o maior percentual entre os integrantes do G20.

Pelo levantamento, o país ocupa a oitava posição em tamanho da dívida pública, com um estoque equivalente a 88% do PIB, mas lidera quando o assunto é o custo para manter esse débito.
Entre 2023 e 2024, a despesa brasileira com juros aumentou de 5,8% para 8,8% do PIB, uma alta de 3 pontos percentuais. Foi o segundo maior crescimento entre os países analisados, atrás apenas do Canadá.
O que significa pagar juros da dívida?
A dívida pública é formada pelo dinheiro que o governo toma emprestado para financiar suas despesas quando a arrecadação de impostos não é suficiente para cobrir todos os gastos. Em troca desse empréstimo, o governo paga juros aos investidores que compram os títulos públicos emitidos pelo Tesouro Nacional.
Quanto maiores forem os juros cobrados pelo mercado, maior será o gasto do governo apenas para manter esse débito, sem reduzir o valor principal que ainda precisa ser pago.
Embora os gastos com juros sejam os maiores do G20, o tamanho da dívida brasileira está longe de ser o maior entre as principais economias. Pela metodologia utilizada pelo FSB, a dívida bruta do Brasil corresponde a 88% do PIB. Pelos dados mais recentes do Banco Central, esse percentual é de 81,1%.
O Japão, por exemplo, possui uma dívida pública equivalente a cerca de 220% do PIB, a maior entre os países analisados. Mesmo assim, o governo japonês gasta aproximadamente 2,5% do PIB com juros para financiar esse débito, um percentual muito inferior ao registrado pelo Brasil.
Por que o Brasil paga juros mais altos?
Segundo as informações apresentadas, uma das principais explicações é que o custo para financiar a dívida depende não apenas do tamanho dela, mas também da confiança dos investidores na economia de cada país.
Economias como Japão e Estados Unidos conseguem manter níveis elevados de endividamento pagando taxas menores porque possuem infraestrutura consolidada, alto nível educacional e maior estabilidade econômica, fatores que aumentam a confiança do mercado.
Já o Brasil ainda enfrenta desafios em áreas como infraestrutura e educação e convive, em diferentes momentos, com instabilidade econômica. Esse cenário faz com que investidores exijam uma remuneração maior para emprestar dinheiro ao governo.
Selic elevada aumenta a conta
Outro fator que ajuda a explicar o aumento das despesas é o nível da taxa Selic, a taxa básica de juros da economia brasileira. Atualmente, a Selic está em 14,25% ao ano. Essa taxa é utilizada pelo Banco Central para tentar controlar a inflação, que permanece acima da meta em diversos períodos.
Quando a Selic sobe, o governo precisa oferecer uma remuneração maior para emitir novos títulos públicos ou renovar aqueles que estão vencendo. Como consequência, o custo da dívida aumenta.
Segundo levantamento da Lev Intelligence em parceria com a MoneYou, o Brasil possui atualmente o maior juro real do mundo. O juro real representa a diferença entre a taxa de juros e a inflação. Ele indica quanto o investidor realmente ganha acima da perda do poder de compra causada pela alta dos preços.
Como a composição da dívida influencia?
Outro aspecto é a forma como parte da dívida pública brasileira está estruturada. Uma parcela importante dos títulos emitidos pelo Tesouro Nacional é indexada à própria Selic ou a índices de inflação.
Na prática, isso significa que, quando os juros ou os índices de preços aumentam, o custo desses títulos também cresce automaticamente, elevando as despesas do governo com o pagamento da dívida.
Déficit também pressiona os juros
O levantamento destaca ainda que outro ponto que influencia esse cenário é o déficit primário, quando as despesas do governo ficam acima da arrecadação, sem considerar o pagamento dos juros da dívida. Quando isso ocorre, o governo precisa emitir novos títulos para financiar suas contas. Com uma dívida maior e uma percepção de risco mais elevada, investidores costumam exigir juros mais altos para continuar emprestando recursos ao país.
Esse movimento acaba criando um ciclo em que o aumento da dívida pode elevar os juros pagos pelo governo, tornando ainda maior o custo de financiar as contas públicas.


