Os Estados Unidos confirmaram nesta quarta-feira, 15 de julho, a aplicação de uma tarifa de 25% sobre parte dos produtos importados do Brasil. A medida entra em vigor no dia 22 de julho e faz parte de uma investigação comercial aberta pelo governo do presidente Donald Trump há cerca de um ano.
Apesar do anúncio, a cobrança não será aplicada a todos os produtos brasileiros. Segundo o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), responsável pela decisão, menos de 20% de tudo o que o Brasil vende ao mercado americano será atingido.

Entre os principais produtos que ficaram de fora da nova tarifa estão café em grãos, carne bovina, aeronaves, petróleo, celulose e suco de laranja, considerados importantes para a economia dos Estados Unidos e que poderiam provocar aumento de preços para consumidores e empresas americanas.
Confira os itens que entraram na taxação:
- Etanol;
- Máquinas agrícolas;
- Vestuário;
- Maquinário elétrico;
- Calçados;
- Ferramentas de jardinagem;
- Equipamentos de mineração;
- Papel;
- Açúcar orgânico;
- Manufaturados em geral;
- Produtos químicos diversos;
- Itens industriais processados.
Produtos poupados da tarifa:
- Carne bovina;
- Café;
- Laranjas e sucos de laranja;
- Petróleo bruto e gás natural;
- Aeronaves civis, motores e componentes aeroespaciais;
- Produtos farmacêuticos e ingredientes químicos para uso farmacêutico;
- Semicondutores e máquinas para sua fabricação;
- Peixes e crustáceos;
- Certos produtos de madeira tropical;
- Mel orgânico;
- Ferro-gusa;
- Castanhas;
- Celulose de madeira;
- Pastas químicas de madeira;
- Helicópteros;
- Motores aeronáuticos e componentes do setor aeronáutico;
- Alguns minérios;
- Determinados produtos metálicos considerados estratégicos para cadeias produtivas americanas.
Pix é um dos motivos para as tarifas
A decisão é resultado de uma investigação baseada na chamada Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, uma regra que permite ao governo americano analisar se outro país estaria adotando medidas consideradas prejudiciais ao comércio.
Durante a investigação, o governo dos Estados Unidos afirmou que algumas políticas brasileiras criariam dificuldades para empresas americanas. Entre os temas citados estão o funcionamento do Pix, o acesso do etanol americano ao mercado brasileiro, decisões envolvendo plataformas digitais, questões relacionadas ao desmatamento ilegal, acordos comerciais firmados pelo Brasil com outros países, além de reclamações sobre pirataria e registro de patentes.
O governo brasileiro afirma que temas como o Pix e a regulação das plataformas digitais não fazem parte de negociações comerciais e considera esses assuntos inegociáveis. Integrantes do governo também avaliam que a decisão dos Estados Unidos tem caráter político.
Segundo o USTR, houve reuniões entre representantes dos dois países ao longo do último ano, mas não foi possível chegar a um acordo antes do encerramento da investigação.
O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, também comentou a decisão e responsabilizou o governo brasileiro pelo aumento da tarifa. Em publicação nas redes sociais, ele afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não negociou com os EUA “de boa-fé” e declarou que as políticas econômicas adotadas pelo Brasil prejudicam tanto os americanos quanto os próprios brasileiros. Rubio disse ainda que Lula teria colocado “o próprio ego à frente de um acordo” e que a tarifa de 25% seria consequência dessa postura. As declarações aumentam o tom político da disputa comercial entre os dois países.
Today, President Trump directed USTR to impose a 25% tariff on most Brazilian imports. Let there be no confusion about why: President Lula and his government have not negotiated with the US in good faith.
— Secretary Marco Rubio (@SecRubio) July 16, 2026
His economic policies are bad for Americans and bad for Brazilians. For…
Quando a nova cobrança começa a valer?
A tarifa passa a valer em 22 de julho. Mercadorias que já tiverem saído do Brasil com destino aos Estados Unidos antes dessa data não serão atingidas pela nova cobrança. O governo americano também informou que a medida poderá ser revista no futuro caso considere que os pontos levantados durante a investigação foram solucionados.
Além da taxa de 25% já confirmada, o Brasil pode enfrentar uma nova tarifa adicional de 12,5%, que ainda está sendo analisada pelo governo americano. Essa possível cobrança faz parte de outra investigação, que envolve mais de 60 países. Segundo os Estados Unidos, esses países não adotariam medidas suficientes para impedir a entrada de produtos fabricados com trabalho forçado.
Caso essa nova tarifa também seja aprovada para o Brasil, parte das exportações brasileiras poderá enfrentar uma cobrança total de 37,5% ao entrar no mercado americano.
Basil reage com Lei de Reciprocidade
Em nota publicada, a Comunicação Oficial do Governo brasileiro reconhece que a decisão dos EUA está sendo usada sem justificativa. “O governo brasileiro repudia a decisão anunciada pelo governo dos Estados Unidos relativa à imposição de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Segundo estatísticas do próprio governo norte-americano, os EUA acumularam nos últimos 15 anos US$ 424,5 bilhões em superávit de bens e serviços com o Brasil”.
A nota trata ainda de que ao longo do último ano, o governo brasileiro atuou ininterruptamente junto ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) pelo encerramento das investigações baseadas na Seção 301, apresentando evidências contra as alegações de supostas práticas desleais de comércio adotadas pelo Brasil sobre o PIX e a regulação das plataformas digitais.
A partir deste momento, o Brasil usará os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional.
O que é a Lei de Reciprocidade?
Aprovada pelo Congresso e sancionada em 2025 pelo presidente Lula, a normativa estabelece critérios e etapas para responder às ações, políticas ou práticas por um país ou bloco econômico que demonstrem impactos negativos à competitividade internacional nacional.
Dentre as ferramentas, a carta de restrições aos países segue princípios, sendo autorizado o Brasil limitar importações de bens e serviços; suspender concessões comerciais e de investimentos, além de restringir obrigações relativas a direitos de propriedade intelectual.
A Lei de Reciprocidade exige a criação de um Conselho Estratégico da Camex (Câmara de Comércio Exterior), atrelada ao Executivo, para decidir quais medidas deverão ser aplicadas, avaliando caso a caso.
O que pode acontecer daqui para frente?
Como vários dos principais produtos brasileiros ficaram fora da medida, o impacto imediato tende a ser concentrado em setores específicos que exportam para os Estados Unidos. Mesmo assim, empresas afetadas podem perder competitividade no mercado americano, já que seus produtos ficarão mais caros em comparação aos de outros países.
O governo dos Estados Unidos afirmou que ainda existe espaço para negociação e que a tarifa poderá ser modificada ou suspensa caso as questões apontadas durante a investigação sejam resolvidas. Enquanto isso, o governo brasileiro estuda quais serão os próximos passos e já sinalizou que poderá analisar medidas previstas na legislação brasileira para responder à decisão, caso considere necessário.


