Brasileiros que usam ferramentas de inteligência artificial (IA) generativa estão compartilhando informações que vão muito além de perguntas sobre trabalho e estudo. Dados da terceira edição da pesquisa Privacidade e proteção de dados pessoais: perspectivas de indivíduos, empresas e organizações públicas no Brasil mostram que sentimentos, informações de saúde, fotos e até dados financeiros estão entre os conteúdos fornecidos às plataformas.
O levantamento foi realizado pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), área do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), ligado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br). A pesquisa ouviu 2,5 mil usuários de internet com 16 anos ou mais, em entrevistas online realizadas em dezembro de 2025.

Quais informações são compartilhadas com a IA?
Entre os usuários entrevistados, 73% disseram fornecer às ferramentas de IA informações sobre trabalho ou estudo, categoria mais citada na pesquisa. Também aparecem dados ligados à vida pessoal. 58% compartilham preferências e gostos, como filmes ou músicas, enquanto 54% fornecem informações sobre sentimentos e emoções.
Os dados de saúde também estão entre os mais citados. 52% dos usuários disseram compartilhar informações como sintomas e exames. Fotos próprias ou de pessoas conhecidas aparecem em 50% das respostas.
Informações financeiras são menos frequentes, mas ainda fazem parte desse uso. 41% dos entrevistados disseram fornecer dados sobre finanças pessoais, como orçamento e investimentos.
Já informações pessoais usadas para identificar alguém, como nome, endereço, data de nascimento ou CPF, foram citadas por 37% dos usuários.
A pesquisa também aponta que as ferramentas não são usadas apenas para atividades profissionais ou acadêmicas. Há relatos de utilização para aconselhamento, suporte emocional e companhia.
Maioria demonstra preocupação com o uso dos dados
Mesmo com o compartilhamento dessas informações, a maior parte dos usuários de IA generativa demonstra preocupação com a forma como seus dados pessoais são utilizados pelas empresas responsáveis pelas ferramentas. Segundo o levantamento, 66% estão preocupados ou muito preocupados com esse uso.
O percentual é ainda maior entre as pessoas com nível mais alto de escolaridade, chegando a 72%. Entre os usuários que utilizam tanto celular quanto computador, a preocupação chega a 68%.
O que a LGPD tem a ver com isso?
A discussão sobre o uso de informações pessoais pelas ferramentas de IA acontece dentro de um cenário mais amplo de proteção de dados no Brasil. A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), criada em 2018, estabelece regras para o tratamento de informações pessoais. A expansão de sistemas baseados em inteligência artificial trouxe novos desafios para as empresas, que precisam considerar as regras de proteção de dados ao utilizar essas tecnologias.
A pesquisa destaca que a IA amplia os desafios relacionados ao uso adequado dessas informações. Ao mesmo tempo, novas regras passaram a complementar ou detalhar aspectos previstos na legislação para situações e públicos específicos.
Para as empresas, acompanhar essas mudanças faz parte de um processo maior de adaptação ao ambiente digital. O estudo aponta que boas práticas de privacidade e proteção de dados podem ajudar a evitar problemas e também contribuir para a reputação das organizações.
Empresas também armazenam dados pessoais
A pesquisa mostra que a preocupação não está apenas nas informações fornecidas diretamente às ferramentas de IA. As empresas brasileiras também armazenam dados de seus clientes e usuários. Entre as companhias que responderam ao levantamento, 69% disseram guardar dados pessoais de clientes ou usuários.
A biometria foi o tipo de informação mais armazenado, citada por 31% das empresas, seguida pelos dados de saúde, com 26%. Entre as empresas que mantêm informações de clientes e usuários, 9% também disseram armazenar dados pessoais de menores de 18 anos.
O levantamento analisou ainda as medidas adotadas para atender às regras de proteção de dados. 40% das empresas realizaram reuniões específicas sobre o tema, 32% contrataram consultorias ou assessorias especializadas e 20% mantêm uma área ou funcionários dedicados à proteção de dados.
Apenas 16% nomearam formalmente um responsável pela proteção dessas informações.
O desafio aumenta com novas tecnologias
A pesquisa coloca a inteligência artificial dentro de um cenário em que empresas e usuários passaram a lidar com diferentes tipos de informações pessoais em atividades como relações com clientes, processos de contratação, comércio eletrônico, marketing digital e uso de sistemas de IA.
Nesse ambiente, cresce a necessidade de adotar regras e cuidados para definir como esses dados podem ser utilizados.
Os números da pesquisa mostram que a discussão já envolve informações bastante variadas. Trabalho, estudos, preferências, emoções, saúde, fotos, finanças e dados pessoais estão entre os conteúdos que os brasileiros relatam compartilhar com ferramentas de inteligência artificial, enquanto a maioria dos usuários também demonstra preocupação com o uso dessas informações.


