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Inteligência artificial deve mudar o trabalho de 9 em cada 10 profissionais da economia criativa

Um levantamento realizado pela consultoria Deck indica que 93,5% dos profissionais da cultura e da economia criativa acreditam que a inteligência artificial (IA) vai alterar a forma como trabalham nos próximos cinco anos. A pesquisa “Percepção da IA na Cultura e Economia Criativa” ouviu 1.555 profissionais de 16 áreas diferentes do setor, entre junho e setembro de 2025, e foi divulgada em primeira mão pelo portal Propmark, especializado em publicidade e marketing.

Para trabalhadores das classes C e D, que atuam como freelancers, autônomos ou microempreendedores em atividades criativas, essas mudanças têm impacto direto na renda mensal, na estabilidade do trabalho e na necessidade de qualificação profissional.

A economia criativa reúne atividades como audiovisual, música, publicidade, design, artes visuais, produção cultural e comunicação, setores que, em muitos casos, dependem de projetos temporários e pagamentos variáveis.

Leia também: Afastamentos do trabalho batem recorde no Brasil em 2025

Profissionais criativos acompanham de perto as mudanças trazidas pela inteligência artificial | Foto: Reprodução/Canva
Profissionais criativos acompanham de perto as mudanças trazidas pela inteligência artificial | Foto: Reprodução/Canva

Percepção de risco e possibilidade de substituição

Além da expectativa de mudança, o estudo aponta que 35,5% dos entrevistados consideram provável que seus empregos sejam substituídos por sistemas de inteligência artificial nos próximos cinco anos. Esse receio é mais forte entre profissionais de Cinema, Rádio e TV, onde 44,9% avaliam risco de substituição, e no setor de Música, com 44,3%.

Esses dados ajudam a entender por que o debate sobre inteligência artificial vai além da inovação tecnológica e alcança o campo das finanças pessoais. Em setores nos quais o rendimento médio mensal pode variar de um salário mínimo, atualmente em R$ 1.412, até valores mais elevados dependendo da demanda e do projeto, a possibilidade de automação gera incertezas sobre a manutenção da renda no médio prazo.

Segundo especialistas em mercado de trabalho, a substituição total de profissionais tende a ocorrer apenas em tarefas mais repetitivas, enquanto atividades que exigem criatividade, sensibilidade cultural e tomada de decisão humana continuam dependentes de pessoas. Ainda assim, o estudo da Deck mostra que o receio é real e presente no cotidiano dos trabalhadores criativos.

Uso da tecnologia ainda é pouco compreendido

Apesar da forte expectativa de impacto, a pesquisa revela um descompasso entre o uso da inteligência artificial e a compreensão sobre ela. De acordo com o levantamento, 62% dos profissionais afirmam não saber identificar quais produtos ou serviços utilizam inteligência artificial no dia a dia. Essa dificuldade é ainda maior entre pessoas com mais de 45 anos, faixa etária que, em muitos casos, concentra profissionais experientes e com carreira consolidada no setor criativo.

Ferramentas de edição de imagem, vídeo, texto, análise de dados e até plataformas de distribuição de conteúdo já utilizam inteligência artificial em algum nível. No entanto, a falta de clareza sobre esse uso dificulta o planejamento financeiro e profissional, já que muitos trabalhadores não conseguem avaliar se estão competindo ou colaborando com sistemas automatizados.

Otimismo moderado e expectativa de melhoria do mercado

Mesmo diante dos riscos apontados, o sentimento predominante entre os profissionais entrevistados é de otimismo. Segundo a pesquisa, 66,2% acreditam que a inteligência artificial tem potencial para melhorar o mercado de trabalho criativo no médio prazo. Esse percentual é semelhante ao observado em levantamentos com a população em geral, o que indica uma percepção positiva sobre os ganhos de produtividade e novas oportunidades.

Para quem vive da economia criativa, a melhoria do mercado pode significar redução de custos operacionais, aumento da capacidade de produção e acesso a novos públicos. Um exemplo é o uso de ferramentas de automação para edição de vídeos ou organização de projetos culturais, que pode reduzir horas de trabalho e, consequentemente, despesas indiretas, como energia elétrica e contratação de serviços terceirizados.

Capacitação vira ponto central para manter renda

Um dos principais alertas do estudo da Deck é a crescente demanda por capacitação. Os entrevistados apontam necessidade de formação em automação de processos, gestão de projetos culturais com uso de inteligência artificial e aplicação prática da tecnologia em áreas criativas específicas.

Para trabalhadores das classes C e D, investir em capacitação representa um desafio financeiro. Cursos de curta duração na área de tecnologia aplicada à criação podem custar de algumas centenas a alguns milhares de reais, valores que exigem planejamento do orçamento doméstico. Ainda assim, especialistas afirmam que a qualificação tende a ser um fator decisivo para manter ou ampliar a renda no futuro.

Beth Ponte, autora da pesquisa e consultora da Deck, afirma que os impactos da inteligência artificial não devem ser tratados de forma uniforme. Segundo ela, a incorporação da tecnologia ocorre em ritmos diferentes entre os setores criativos, o que exige estratégias específicas para cada área. A declaração foi publicada pelo Propmark junto à divulgação do estudo.

Reflexos na economia e no mercado de trabalho

A economia criativa tem peso relevante na geração de renda e empregos no Brasil, especialmente em grandes centros urbanos. Mudanças na forma de trabalhar impactam não apenas os profissionais, mas também a circulação de dinheiro nesses setores. Quando um trabalhador perde renda ou precisa se reinventar, o consumo local também é afetado, influenciando comércio, serviços e arrecadação de impostos.

Ao mesmo tempo, a adoção de inteligência artificial pode aumentar a competitividade de profissionais e pequenas empresas criativas, permitindo que produzam mais com menos recursos. Isso pode gerar novas fontes de receita, desde que haja acesso à tecnologia e capacitação adequada.

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