Em Manguinhos, na Zona Norte do Rio, um terreno que já foi uma cracolândia hoje é horta. São quase três hectares, o equivalente a quatro campos de futebol, e a área é considerada a maior horta urbana da América Latina.
A unidade faz parte do Hortas Cariocas, programa da Prefeitura por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima (SMAC), pensado com uma ambição clara: chegar ao ponto em que os hortelãos ganhem mais vendendo a produção do que recebendo a bolsa municipal. Em outras palavras, a meta é que a horta passe a se sustentar sozinha.
Em São Paulo, a mesma lógica aparece em outro formato. Na Zona Leste, a ONG Cidades Sem Fome, criada por Hans Dieter Temp, transforma áreas ociosas em lavoura. Segundo reportagem recente, a horta produz, em média, 6 toneladas de alimentos por mês, com mais de 30 culturas em 10 hectares. A distribuidora de energia virou parceira no projeto Hortas em Rede. A Enel informou, em 2023, que eram cerca de cinquenta hortas nesse modelo, com mais de R$ 1,5 milhão em renda gerada aos agricultores.
Da terra ociosa à geração de renda
Os dois exemplos mostram o melhor da agricultura urbana: terra parada vira comida, e quem estava fora do mercado volta a ter ofício. Mostram também outra coisa: projetos sociais que dependem de um único financiador, seja ele público ou privado, ficam expostos a mudanças de orçamento, de gestão e de prioridade; e é cada vez mais o setor privado que tem ocupado esse espaço. É nesse movimento que se encaixa uma história que acompanhei no Parque Villa-Lobos, na Zona Oeste de São Paulo.

Ali, uma área de 1.200 m² foi recuperada para abrigar uma horta-escola de cultivo orgânico, uma estufa hidropônica e uma máquina automatizada de produção de mudas. Quem toca o espaço é a ARCAH (Associação de Resgate à Cidadania por Amor à Humanidade), ONG que há 14 anos atua com pessoas em situação de rua e soma mais de 3.500 atendidos que deixaram as ruas pelo trabalho. A chegada ao parque veio depois de uma mudança difícil: a unidade do Jabaquara foi desativada, tudo passou meses em um depósito, e a equipe só se instalou de vez quando o novo espaço ficou pronto.
A Jornada da Autonomia: do cultivo à independência financeira
O método da ONG se chama Jornada da Autonomia. Turmas de cerca de 15 pessoas passam três meses em um plano de carreira com três etapas: primeiro, a terra dos canteiros; depois, a estufa (solução nutritiva, pH, manejo diário); e, por fim, a operação da máquina de mudas. Os participantes recebem salário, regularizam documentos, têm apoio psicológico e reeducação financeira. Ao final, são ajudados a alugar e mobiliar a própria casa. A meta é formar 60 pessoas por ano.
O sustento financeiro vem da Grid, gestora independente que assumiu o custeio da operação, dos insumos e da remuneração da equipe. O mecanismo é a parte que mais interessa ao leitor do Super Finanças. A gestora doa 100% da taxa de gestão do fundo Arcah Soberano Renda Fixa, disponível na plataforma do banco de investimentos BTG. Quem investe no fundo apoia o projeto sem abrir mão do próprio rendimento.
“Enxergamos o investimento de impacto social sob a mesma ótica que guia nossa atuação no mercado de capitais”, diz Gustavo Biava, representante da Grid.
Segundo ele, a escolha da ARCAH passou por uma due diligence parecida com a usada na estruturação de fundos: histórico da instituição, governança, auditoria das contas e capacidade de escalar. Biava define a unidade do Villa-Lobos como uma prova de conceito.
O acompanhamento também segue a lógica de fundo: orçamento previsto contra realizado, indicadores sociais, como conclusão do ciclo, empregabilidade e renda média, indicadores ambientais, como volume produzido e uso de água, além de um comitê periódico com a liderança da ONG.
Da colheita à expansão: um modelo em busca de novos aportes
O projeto ainda tem uma frente comercial, a feira Colheita à Mesa. Hortaliças colhidas no dia são vendidas a frequentadores do parque, restaurantes e mercados da região, e a receita volta para a operação. Pessoas capacitadas, produção vendida e novas vagas abertas levam ao mesmo caminho de emancipação que Manguinhos persegue.
A ideia agora é levar o modelo a grupos econômicos, investidores institucionais e family offices, com cotas de patrocínio ligadas a metas de ESG, e replicá-lo em outros parques, terrenos e telhados corporativos. Com a estrutura pronta, a ARCAH só espera novos aportes para abrir as próximas turmas.
A tendência é que histórias assim se multipliquem. Onde políticas públicas essenciais perderem fôlego, haverá espaço para soluções privadas estruturadas, mensuráveis e de longo prazo. Quem já sabe medir impacto e atrair pessoas sai na frente, e, no Villa-Lobos, esse futuro tem endereço: o portão 5, por onde, a cada três meses, deve sair uma nova turma com ofício, renda e a chave do próprio aluguel.











