Existe um jeito antigo de imaginar o Brasil lá fora: a mala cheia de goiabada, o queijo embrulhado em jornal, a farinha escondida entre as roupas. A brasilidade como lembrancinha, que se carrega pronta e se entrega intacta. Nos últimos dias, em Afyonkarahisar, no interior da Turquia, um pão de queijo mostrou que dá para ir muito além disso.
Edson Puiati, diretor de Hospitalidade e Gastronomia do Senac em Minas, e Elke Rezende, diretora-geral da Gamela Criativa, levaram Belo Horizonte ao GastroAfyon, festival que reúne cidades da Rede de Cidades Criativas da Gastronomia da Unesco, Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura.
No cardápio, dois símbolos mineiros: o pão de queijo e o mexido. Só que o queijo era de Afyon, e a massa ganhou semente de papoula, ingrediente marcante da região. O mexido manteve o arroz e o feijão como base, mas foi preparado sem carne de porco, em respeito à cultura anfitriã. Resultado: mais de 300 pessoas assistindo, provando e aplaudindo de pé.

“A gastronomia é uma linguagem que não precisa de tradução”, diz Elke. E ali, numa cozinha-show do outro lado do mundo, a frase ganhou corpo.
O que aconteceu em Afyon tem nome: não foi exportação, foi replicação de brasilidade, e replicar não é copiar. É levar o método, a memória, o modo de fazer e convidar o outro território para dentro da receita.
Puiati define com precisão: “Autenticidade não significa reproduzir literalmente um prato, mas preservar sua identidade e permitir que ela dialogue com o território que o recebe.”
O mexido sem porco continua mexido. O pão de queijo com papoula continua pão de queijo. A identidade não mora no ingrediente exato, mora no gesto. E esse gesto viaja sem passaporte.
A gastronomia como porta de entrada para o Brasil
O momento não poderia ser melhor. Em 2025, o Brasil recebeu um recorde de 9,3 milhões de turistas estrangeiros, bem acima da meta de 6,9 milhões prevista no Plano Nacional de Turismo. E a comida está no centro dessa história: numa pesquisa da Embratur com Visa e Ipsos, que ouviu mais de 8 mil viajantes, a gastronomia aparece, ao lado da hospitalidade e da hospedagem, entre os principais motivos da boa avaliação do país. Em Belo Horizonte, segundo a Belotur, 63% dos turistas dizem que a gastronomia pesa muito na decisão de visitar a cidade, e 95% afirmam que ela atendeu ou superou as expectativas.
A viagem foi construída com garra. Não se tratava de uma delegação oficial: convites, protocolo e compra de insumos foram organizados pelos próprios participantes, com a anuência de Eduardo Cruvinel, presidente da Belotur. As regras sanitárias limitaram o que podia cruzar o Atlântico, e a resposta foi criativa. “No final, a limitação logística virou parte da criação: levamos Minas pela técnica e pela memória e deixamos a Anatólia participar da receita”, conta Puiati.
Melhor ainda, já que a história não termina no aplauso: a Gamela já prepara o Menu Gamela, que estreia justamente com esse pão de queijo turco-mineiro e o mexido com sucuk. E as novidades não param, pois será lançado o Gamela Cast, um podcast com os relatos dessa troca, uma central de notícias sobre as cidades criativas da gastronomia e formação de cozinheiros pelo Mão na Gamela. No Senac, a experiência vira conteúdo de sala de aula. “É uma forma concreta de mostrar aos alunos que preservação e inovação podem caminhar juntas”, resume Puiati.
Para frente, fica uma provocação boa de se ter. Se um pão de queijo consegue aprender turco sem esquecer o mineirês, o que mais a cozinha brasileira pode ensinar e aprender pelo mundo? Como disse Elke, “o mais importante é que o intercâmbio continue interligando e preservando as culturas envolvidas”. Que a próxima receita já venha com sotaque do mundo inteiro.


