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Soberania digital: o Brasil mora de aluguel na internet

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Você construiria uma casa num terreno alugado? E se for um castelo? E se for um casebre? Pois a gente faz isso todo dia no digital. O Brasil não tem soberania digital, e quase ninguém parece incomodado.

O tamanho da coisa assusta. O Censo dos Criadores de Conteúdo, da Wake Creators contou 14 milhões de criadores no país em 2025. Segundo a Kantar Ibope e o IAB Brasil, as marcas puseram mais de R$ 20 bilhões em social media em 2024, o equivalente a 53% da verba digital. O DataReportal fala em 144 milhões de brasileiros nas redes. E o Relatório Digital 2025, da We Are Social com a Meltwater, diz que a gente passa 3h32 por dia nelas. Ninguém no ranking passa mais tempo.

Agora, a pergunta é: onde roda isso tudo? Google, Meta e, do lado chinês, ByteDance. Fora o Globoplay, quase nada do nosso digital é nosso.

Que plano de negócio aguenta uma briga política entre governos? Ou a censura de uma ditadura? E se um bilionário de uma Big Tech um dia acordar com ódio de um político nosso? Ou, ainda, a ameaça mais silenciosa: a do algoritmo que muda numa terça-feira e corta seu alcance? Basta uma canetada da Suprema Corte, um ataque cibernético ou uma sanção econômica recíproca. A gente acorda sem acesso. O criador perde o público, a marca perde a vitrine e a padaria perde o caixa.

Já aconteceu. Em 30 de agosto de 2024, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, suspendeu o X no Brasil por 39 dias. Só voltou em 8 de outubro, depois de pagar R$ 28,6 milhões em multas, segundo o STF. Quem tinha público ali passou mais de um mês falando sozinho.

O WhatsApp caiu três vezes por ordem judicial, conta o g1. Em dezembro de 2015, um juiz de São Bernardo derrubou o app por cerca de 14 horas. Em maio de 2016, um juiz de Lagarto, em Sergipe, fez o mesmo por cerca de 24 horas. Em julho daquele ano, houve outra ordem, de um juiz de Duque de Caxias, até que o STF a derrubou.

A infraestrutura que mantém a internet em funcionamento está concentrada, em grande parte, nas mãos de empresas globais de tecnologia que controlam a soberania digital | Foto: Reprodução/Canva
A infraestrutura que mantém a internet em funcionamento está concentrada, em grande parte, nas mãos de empresas globais de tecnologia | Foto: Reprodução/Canva

Soberania digital também é uma questão econômica

Isso me preocupa não só pelo lado cultural e do entretenimento, mas também pelo econômico. Há empresas inteiras que funcionam pelo WhatsApp. Pedidos, cobranças, atendimento: tudo ali. Se o app cai, a empresa cai junto. Quase sempre, a renda da parcela mais pobre da população está conectada a esses serviços.

A gente já sabe fazer diferente. O Banco Central criou o Pix em novembro de 2020. Em 2025, segundo o Relatório de Gestão do Pix, do BC, foram quase 80 bilhões de transações, movimentando mais de R$ 35 trilhões. Quem manda nele é o BC, não uma empresa da Califórnia.

E isso incomoda. Em julho de 2025, o governo americano, por meio do USTR, abriu contra o Brasil uma investigação comercial com base na Seção 301, que inclui pagamentos eletrônicos, com o Pix na mira. Se fosse irrelevante, ninguém em Washington perderia tempo com ele. E basta ver o que a Ucrânia fez com os data centers na Rússia para entender que essa questão será cada vez mais levada a sério na política mundial como uma questão de Estado.

Eu penso em camadas. Em cima, as mensagens. No meio, a mídia e os servidores. Embaixo, a base que ninguém vê: data centers e chips. Não se resolve isso numa legislatura. Mas dá para começar.

Começaria pelo meio. A verba pública de publicidade, de prefeitura a ministério, poderia exigir que todo conteúdo patrocinado tivesse uma cópia hospedada em servidor no Brasil, com a base de contatos guardada fora das plataformas. Isso cria clientes para empresas daqui e um backup para todo mundo.

Precisamos criar nossos próprios terrenos, e não só nossos castelos. Data centers, chips e alta tecnologia. Pois, de cultura, a gente entende; falta agora o resto. Porque, se não, é bom a gente começar a procurar já o sambista que vai escrever nossa versão tecnológica dessa nossa Saudosa Maloca: “dindindonde nós passemo, dias feliz de nossas vida”.

Sobre o autor M.M. Izidoro

M.M. Izidoro é apresentador, roteirista, diretor e estrategista criativo. Um contador de histórias obcecado por representar os muitos Brasis, foi eleito uma das 20 pessoas mais criativas do mundo pela AdWeek. Criou projetos que unem cultura pop, impacto social e inovação narrativa para plataformas como Meta, HBO, Globoplay, RedBull e Globo.

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