Quando uma família troca de geladeira, a antiga costuma seguir outros caminhos antes de chegar à reciclagem. É comum que seja vendida, doada a um parente ou vizinho, ou que fique guardada sem destino definido. O comportamento é conhecido de quem trabalha com logística reversa e ajuda a explicar por que levar esses aparelhos ao tratamento adequado ainda é um desafio no país.
“Esse produto tem um valor agregado muito importante”, afirma Douglas Reis, diretor Jurídico, de Assuntos Regulatórios e ESG da detentora das marcas Brastemp, Consul e KitchenAid no Brasil.
Por suas características, a geladeira exige cuidados específicos no fim da vida útil. “Ela tem gás, ela tem óleos, ela tem um compressor que funciona ali o tempo todo com esses produtos. E se ele é descartado de uma maneira inadequada, pode comprometer o meio ambiente e a saúde das pessoas”, explica Reis.
O desafio do descarte correto de eletrodomésticos
O volume em jogo é grande. O Brasil descarta mais de 2,4 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos por ano, o quinto maior volume do mundo, segundo o relatório Global E-waste Monitor 2024, da ONU. A Whirlpool, detentora das marcas Brastemp, Consul e KitchenAid no Brasil, estruturou em 2023 seu próprio sistema individual de logística reversa.
Desde então, recolheu e destinou de forma ambientalmente adequada mais de 145 mil toneladas de eletroeletrônicos. O sistema reúne mais de 17 mil pontos de entrega voluntária para itens de até 30 quilos e oferece coleta domiciliar gratuita de grandes eletrodomésticos em 100% dos municípios do país.

O programa foi desenhado a partir da experiência do consumidor. Para Renata de Mello, gerente de ESG da Whirlpool, o descarte de um aparelho grande, como uma geladeira ou uma máquina de lavar, costuma levantar dúvidas práticas: onde levar, como transportar e quanto isso custa. Quando é preciso contratar o transporte até um ponto de coleta, o processo se torna mais trabalhoso para as famílias.
Diante disso, a empresa inverteu a lógica. Em vez de o consumidor ir até o ponto de coleta, a coleta vai até ele, sem custo.
“A gente oferece a coleta domiciliar gratuita, para que esse consumidor faça o agendamento, a gente programe no momento que ele puder, e a gente faz o recolhimento e depois a destinação adequada”, explica Renata.
Com isso, o descarte correto passa a exigir apenas um agendamento. A empresa também trata a informação como peça central da estratégia. “O maior investimento não é necessariamente só na coleta ou só na infraestrutura de tratamento desse resíduo, mas é na educação. É fazer a informação chegar para as pessoas”, comenta Douglas.
Educação e informação para ampliar a reciclagem
As dimensões do país exigem uma operação distribuída. Historicamente, boa parte da capacidade de reciclagem de eletroeletrônicos ficou concentrada no Sudeste, o que aumenta as distâncias de transporte a partir de outras regiões. Para encurtar esse longo caminho, a Whirlpool mais que dobrou sua rede de recicladores e operadores homologados, que passou de 16 para 35 empresas, com expansão no Nordeste e no Sul. A descentralização reduziu custos operacionais e até a pegada de carbono do transporte.
Se estruturar uma base é um desafio de todo o setor de reciclagem, há que se fazer parcerias. Para Marcella Bueno, diretora de economia circular da eureciclo, empresa que certifica a logística reversa de embalagens, o país ainda precisa dar um salto de organização. “O principal desafio é transformar uma cadeia ainda muito fragmentada em uma infraestrutura capaz de operar em escala, com qualidade, previsibilidade e viabilidade econômica”, afirma.
Segundo ela, a remuneração estruturada do serviço ambiental muda o papel de quem está na ponta: “Os catadores e as cooperativas deixam de ser vistos apenas como parte informal da cadeia de resíduos e passam a ser reconhecidos como agentes essenciais da economia circular.” Só no ano de 2025, a integração viabilizou o direcionamento de um volume equivalente a mais de 280 mil produtos, o que gerou renda para esses trabalhadores.
A frente educacional ganhou reforço com uma nova parceria entre a Whirlpool, a Dow e o Instituto Akatu para conscientizar os consumidores sobre o descarte correto de geladeiras.
Para os próximos dez anos, Renata vê dois caminhos complementares. Da parte da empresa, o compromisso é com eficiência energética e durabilidade. “A gente faz produtos para que eles possam ser duráveis”, afirma. Do lado do consumidor, a expectativa é que o descarte correto se torne hábito. “Eu espero que em 10 anos todo mundo saiba que, no final da vida útil, possa utilizar o nosso sistema.”


