Imagine trabalhar em frente ao mar do Rio de Janeiro, com uma conexão estável de internet e a possibilidade de almoçar em um quiosque na praia. Ou então programar um sistema de um café em Londres, curtindo a atmosfera cosmopolita entre uma reunião e outra. Esse estilo de vida já é realidade para milhares de nômades digitais, profissionais que usam a tecnologia para trabalhar de qualquer lugar do mundo e que estão transformando a economia de cidades turísticas.
Com o avanço do trabalho remoto, especialmente após a pandemia de covid-19, o número de pessoas que adotaram esse modelo de vida aumentou de forma significativa. Segundo dados do Nomad List, plataforma que reúne estatísticas sobre o estilo de vida nômade, existem hoje mais de 35 milhões de nômades digitais no mundo. Estima-se que esse grupo tenha movimentado cerca de US$ 787 bilhões em 2023, o equivalente a R$ 4,2 trilhões.

Nômades são considerados uma nova força econômica
Os nômades digitais não são turistas comuns. Eles permanecem por semanas ou meses em cada destino, alugam imóveis por temporada, consomem em mercados locais, trabalham de coworkings e, muitas vezes, se envolvem com a comunidade. Por isso, passam a ser atores relevantes na economia local, estimulando o mercado imobiliário, a gastronomia, o transporte e o setor de tecnologia.
No Rio de Janeiro, por exemplo, a presença de nômades digitais é visível em bairros como Ipanema, Lapa, Botafogo e Santa Teresa. De acordo com a Rio Convention & Visitors Bureau, a cidade recebeu cerca de 12 mil nômades digitais em 2023, um aumento de 40% em relação ao ano anterior. Esses visitantes gastam, em média, R$ 11 mil por mês, mais que o dobro do valor deixado por turistas convencionais, que giram em torno de R$ 4.500.
A prefeitura carioca, inclusive, lançou o projeto “Rio Digital Nomads”, com benefícios fiscais, facilitação de visto e parcerias com espaços de coworking. A cidade tem apostado na imagem de metrópole tropical com estrutura de serviços, natureza exuberante e boa conexão à internet, fatores essenciais para atrair esse público.
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Londres e as grandes cidades tecnológicas
Enquanto isso, Londres continua sendo uma das principais referências globais para nômades digitais, mesmo com o custo de vida elevado. A cidade britânica oferece infraestrutura tecnológica de ponta, transporte eficiente e diversidade cultural, o que atrai profissionais de áreas como tecnologia, design e marketing. Segundo o governo britânico, em 2023, mais de 90 mil trabalhadores remotos passaram temporadas curtas ou médias no Reino Unido. O gasto médio foi de US$ 6.800 mensais, ou cerca de R$ 36.500.
Outros destinos populares incluem Lisboa, Bali, Cidade do Cabo, Tóquio, Barcelona e Medellín. Em comum, todos oferecem boa conectividade, vida cultural ativa, custo de vida acessível (na maioria dos casos), segurança relativa e políticas de incentivo à permanência temporária.
Visto para nômades e incentivo fiscal
Para se adaptar à nova realidade, diversos países criaram vistos específicos para nômades digitais, com duração de 6 meses a 2 anos e que permitem trabalhar remotamente sem vínculo formal com empresas locais. Mais de 40 países já oferecem esse tipo de permissão, incluindo México, Portugal, Alemanha, Estônia, Dubai e Costa Rica.
O Brasil também entrou na onda. Desde 2022, o governo federal passou a oferecer o visto temporário para nômades digitais, válido por um ano e renovável por mais um. A medida visa atrair estrangeiros com renda mínima mensal de US$ 1.500, equivalente à cerca de R$ 8.000, ou com saldo bancário de US$ 18.000 (R$ 96 mil). O objetivo é incentivar o consumo interno e aquecer setores de turismo, gastronomia e moradia.
Impactos e desafios para as cidades
Apesar dos benefícios econômicos, a presença crescente de nômades digitais também traz desafios urbanísticos e sociais. O aumento da procura por imóveis de curta duração, por exemplo, pode pressionar o mercado imobiliário e elevar o custo do aluguel para os moradores locais. Cidades como Lisboa e Barcelona enfrentam tensões sociais causadas pela gentrificação e pela “turistificação” de bairros residenciais.
Outro ponto importante é o equilíbrio entre acolher o nômade e manter o pertencimento da população. É fundamental investir em infraestrutura urbana, políticas públicas de moradia e integração entre visitantes e comunidades locais para evitar desigualdades.
O futuro do trabalho e das cidades
O fenômeno dos nômades digitais sinaliza uma mudança mais ampla no modo como as pessoas trabalham e vivem. A separação entre vida profissional e pessoal está se dissolvendo, e as cidades que desejam atrair esses trabalhadores precisarão se adaptar — com conectividade, sustentabilidade, segurança e acolhimento multicultural.
Para os profissionais, trata-se de uma oportunidade de unir produtividade com qualidade de vida. Para as cidades, um novo modelo de desenvolvimento econômico — baseado na circulação de talentos e na economia do conhecimento.
O nomadismo digital não é mais uma tendência passageira. Ele está se tornando parte estruturante de um mundo cada vez mais descentralizado e móvel. E, se bem planejado, pode gerar prosperidade tanto para quem chega quanto para quem já está.


