A decisão recente do Comitê de Política Monetária (Copom) de elevar a taxa Selic ao maior patamar dos últimos 19 anos reacende uma preocupação crônica da economia brasileira: o custo do crédito e seus reflexos diretos sobre o consumo, o investimento e a geração de empregos.

Ao ser majorada, desencadeia um efeito dominó, tornando o crédito mais caro e, portanto, menos acessível. O resultado imediato? Redução do consumo das famílias, retração do investimento produtivo e desaquecimento generalizado da atividade econômica.
Setores altamente sensíveis à variação do custo do crédito, como o mercado imobiliário e o de veículos, sentem o impacto de forma quase instantânea. No primeiro, observa-se aumento nas renegociações de contratos, maior taxa de inadimplência e retração nos lançamentos. No segundo, fabricantes recorrem a campanhas de “taxa zero” para evitar queda brusca nas vendas de novos, enquanto o mercado de seminovos e usados se torna uma verdadeira loteria de precificação e liquidez.
Como fica o crédito pessoal?
O maior prejuízo, porém, recai sobre os consumidores de menor renda, que são justamente os que mais dependem do crédito para manter sua atividade econômica ou o consumo cotidiano. O encarecimento do crédito pessoal — inclusive dos consignados — compromete o poder de compra e agrava o custo de vida, já pressionado por inflação persistente em itens essenciais.
Enquanto isso, as linhas de fomento de longo prazo, como FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos), BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e outras instituições similares mantêm taxas subsidiadas para inovação e infraestrutura.
Contudo, o acesso a essas linhas ainda é um privilégio de grandes corporações, devido à alta complexidade dos processos, exigência de garantias e estrutura técnica. Os pequenos empreendedores, que movimentam a base da economia real, permanecem à margem — sem crédito inteligente, sem fomento, sem escala.
O paradoxo é evidente: ao tentar combater uma inflação de custos (muitas vezes exógena e relacionada a choques internacionais), o Banco Central (BC) lança mão de um instrumento que penaliza o lado da demanda. E pior: em um momento de fragilidade social, aumento do endividamento e desaceleração global, a política monetária contracionista pode sufocar ainda mais a retomada do crescimento.
E, nesse cenário, ecoa a pergunta provocativa de uma velha canção que volta a ser contemporânea:
“Brasil, qual é o teu negócio? O nome do teu sócio? Confia em mim!”
Versos de décadas atrás que ainda soam como denúncia — e agora também como retrato: um país onde o acesso ao crédito é privilégio, e não direito — e onde políticas públicas muitas vezes não conversam com o povo que as sustenta.
Em suma, a elevação da Selic tem sido um tiro no pé da economia produtiva. Se é verdade que estabilidade de preços é um pilar fundamental, também é certo que a construção do desenvolvimento exige equilíbrio entre metas fiscais, controle inflacionário e estímulo ao crédito produtivo.
O Brasil precisa descomplicar o crédito e democratizar o acesso a recursos que impulsionem seu tecido econômico. Caso contrário, continuaremos reféns de um modelo que pune quem precisa — e privilegia quem já tem.


