O universo das criptomoedas, muitas vezes envolto em termos técnicos e uma aura de complexidade, foi o tema central de um debate esclarecedor no último episódio do podcast “Bilhões, o lado B da moeda“.
Apresentado por AD Júnior e o sociólogo Danilo Ribeiro, o episódio contou com a participação de Vanessa Oliveira, especialista em criptoativos, investimentos e finanças, que guiou os ouvintes por uma jornada de descoberta sobre essa revolução financeira digital. A conversa explicou desde os conceitos mais básicos, como o blockchain, até as nuances do mercado brasileiro e as cautelas necessárias para quem deseja investir.

Vanessa Oliveira, com apenas 30 anos e uma trajetória que inclui passagens significativas pelo setor de cibersegurança, compartilhou como seu interesse pelas criptomoedas surgiu da percepção das vulnerabilidades dos sistemas de segurança tradicionais.
“Eu trabalhei muitos anos com cibersegurança (…) percebi uma discrepância muito grande entre o que é de fato utilizado como segurança (…) e o que realmente é seguro. Foi nesse momento que eu conheci o que que era blockchain”, revelou Vanessa.
Essa tecnologia, segundo ela, tem uma relação “super importante” com a segurança da informação, algo que a cativou e a levou a se aprofundar no Bitcoin e na Web3.
Desvendando o Blockchain
Para muitos, o termo “blockchain” soa intimidador. No entanto, Vanessa Oliveira o traduziu de forma lúdica: “Dá pra gente utilizar um jogo bem antigo, que se chama jogo da cobrinha. Pensa como se cada bloquinho dessa cobrinha fosse uma transação, uma compra e venda, você não pode alterar ela. E a blockchain funciona dessa forma, por isso que ela tem uma segurança muito maior, porque ela é imutável”. Cada transação é um bloco que se junta a uma corrente, tornando o histórico transparente e virtualmente à prova de fraudes.
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O Bitcoin, a criptomoeda pioneira, surgiu em 2008 pelas mãos da misteriosa figura (ou grupo) conhecida como Satoshi Nakamoto. Vanessa lembrou que, embora tenham existido outras tentativas anteriores, “o bitcoin de fato foi o que chamou a atenção do público”. Quinze a dezesseis anos depois, sua adoção e utilização cresceram exponencialmente, deixando para trás a fama inicial de “moedinha da deep web”.
O “lastro” das moedas: uma discussão necessária
Uma dúvida comum entre iniciantes é sobre o “lastro” das criptomoedas – o que garante seu valor. Vanessa provocou uma reflexão ao comparar com as moedas fiduciárias tradicionais: “Se a gente for pensar nas moedas fiduciárias hoje, como, por exemplo, o real, o dólar, elas não possuem lastro. O dólar ele tinha lastro no ouro, perdeu o lastro no ouro devido à inflação. E o real, ele tinha lastro no dólar, que tinha lastro no ouro”.
Hoje, essas moedas não têm um lastro físico real em commodities. Nesse contexto, Vanessa argumenta que o Bitcoin pode ser visto como uma evolução, utilizando a blockchain como sua garantia de segurança e transparência, possuindo um valor intrínseco.
Nem toda moeda digital é criptomoeda
O mercado de ativos digitais vai além do Bitcoin. Existem inúmeros tokens e as chamadas “memecoins”, que ganharam popularidade, mas exigem cautela. Vanessa foi enfática: “Existe uma diferença muito grande entre criptomoeda e token. Pra você ter uma criptomoeda é necessário ter uma blockchain por trás. Se não tiver blockchain, é um token. Então as memecoins são tokens”.
Ela alerta que muitas memecoins “não têm nenhum propósito, não é seguro”, sendo criadas apenas para diversão ou causas momentâneas, tornando-as altamente especulativas e arriscadas. Um exemplo foi uma memecoin atrelada à eleição de Trump, que valorizou bilhões e despencou no dia seguinte.
Em contraste, criptomoedas com propósito, como a Vechain, que utilizou blockchain para registrar vacinados contra a covid-19 nos EUA, demonstram o potencial da tecnologia para resolver problemas reais.
O Brasil no mapa cripto: potencial e desafios
Questionada sobre a posição do Brasil, Vanessa destacou o país como uma potência em meios de pagamento, citando o Pix como referência global. “O novo Drex aí tá surgindo, inclusive utiliza a tecnologia blockchain no Drex”, afirmou.
O Drex, a versão digital do Real (CBDC – Moeda Digital de Banco Central), representa a entrada oficial do Brasil na era das moedas digitais soberanas. “O Drex, ele é de fato a representação do real na blockchain utilizando contratos inteligentes”, explicou.
Apesar do avanço tecnológico e da pesquisa de ponta, Vanessa aponta para uma lacuna de conhecimento: “Nós somos realmente assim, pioneiros em muitas coisas, só que pioneiros para 10% da população. Tem muitas pessoas no Brasil que não têm acesso a esse tipo de conhecimento”. Sua própria jornada, vinda da periferia e tendo contato com o tema em conversas de corredor no trabalho, ilustra essa disparidade.
Sobre o Drex, Vanessa trouxe uma perspectiva “polêmica”: a principal diferença para o Bitcoin é o controle estatal. “Bitcoin não é controlado pelo estado. Drex é. Bitcoin, se você colocar ele na carteira, ninguém, absolutamente ninguém consegue mudar o seu saldo. Drex sim, se o governo entender que é interessante modificar o seu saldo por n motivos, ele pode”. O lastro do Drex, segundo ela, reside na “confiança nos políticos”.
O gigante mercado cripto e a importância da educação financeira
O mercado global de criptomoedas, excluindo representações como ETFs, movimenta cerca de US$ 2 trilhões (aproximadamente R$ 10 trilhões, considerando uma cotação de R$ 5,00 por dólar). O Bitcoin, sozinho, já ultrapassou gigantes como o Facebook em valor de mercado, tornando-se o sétimo ativo mais valioso do mundo. Satoshi Nakamoto, seu criador, teria uma fortuna estimada em US$ 100 bilhões (cerca de R$ 500 bilhões) com a valorização recente.
Diante da volatilidade e do fascínio, Danilo Ribeiro ressaltou a importância da parcimônia. Vanessa, que se descreveu como neurodivergente (autista nível um de suporte com altas habilidades/superdotação), explicou que seu “hiperfoco” a levou a estudar profundamente o assunto antes de investir. E
la aconselha: “É muito importante quando qualquer pessoa investir ter essa questão do gerenciamento de risco junto com seu perfil de investidor. Se você tem pouco dinheiro, a ideia nunca é investir somente em um ativo só”. Começar com ativos mais seguros e, gradualmente, explorar os de maior risco, entendendo que a volatilidade pode significar oscilações bruscas, é fundamental. O Bitcoin, por exemplo, acumulou cerca de 1500% de valorização nos últimos cinco anos e recentemente atingiu picos como US$ 90.000 (aproximadamente R$ 450.000).
E para quem deseja investir e aprender mais, durante o episódio, Vanessa recomenda manter-se aberto às novidades, ler aos poucos e buscar fontes confiáveis. Ela mesma oferece conteúdo educativo gratuito em sua plataforma “01 Cripto” (www.01cripto.com.br), além de cursos e mentorias. “Não precisa ser difícil aprender sobre isso, vai um pouquinho de cada vez”, aconselha.
Danilo Ribeiro complementou com a sugestão do livro “Arriscando a Própria Pele” (Skin in the Game) de Nassim Taleb, enfatizando a importância de gerenciar riscos e não “colocar todos os ovos na mesma cesta”.
A mensagem final é de que as criptomoedas já são uma realidade e entender seu funcionamento é crucial. Com educação, cautela e uma estratégia bem definida, é possível navegar por este mercado inovador e, quem sabe, colher seus frutos.


