Confesso que estou confusa — essas tais canetas deram um nó na minha cabeça e desenharam um emaranhado de questionamentos. São viáveis ou não?
Há quem diga que sim, que elas são resolutivas. Outros defendem que não fazem tanto bem assim e precisam de restrições. Mas quem sou eu na fila do posto de saúde para dar pitacos? Sou apenas uma curiosa que gosta de pesquisar e estudar tudo o que diz respeito à saúde.

Então, vamos ouvir quem entende do riscado, certo? Apelei mais uma vez ao Dr. Sergio Pontes, cardiologista da Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora (MG). O médico já começou dizendo:
“A ampla aceitação dessa classe farmacológica vem do revolucionário efeito emagrecedor associado à redução de risco cardiovascular. Isso traz o encontro de interesses da saúde e da estética.”
Segundo o cardiologista, foram realizados grandes e robustos estudos com a classe dos análogos do peptídeo semelhante ao glucagon-1 (GLP-1) e do polipeptídeo inibitório gástrico (GIP). Juntos, eles são responsáveis pelo chamado “efeito incretina”: uma resposta secretora de insulina duas ou três vezes maior à administração oral de glicose em comparação à intravenosa — ou seja, eficazes no combate ao diabetes tipo 2.
“Quem vê cara, não vê coração”
Essas medicações parecem ter tentáculos e avançam substancialmente na direção de outras doenças.
“Sim. Dentre os grandes avanços dessa tecnologia farmacológica, desenvolvida primariamente para o tratamento do diabetes, estão as comprovações evidentes de redução de desfechos cardiovasculares (infarto, AVC e mortes cardiovasculares), além de comprovações de emagrecimento substancial, proteção renal, benefício na insuficiência cardíaca e hipóteses plausíveis para uso futuro na esteatose hepática (a famosa gordura no fígado) e prevenção de demências”, enumera o especialista.
Tudo isso, segundo o cardiologista, trouxe uma nova visão integrada do tratamento médico das doenças metabólicas, envolvendo endocrinologia, cardiologia, nefrologia, gastroenterologia, neurologia e psiquiatria.
E os efeitos colaterais não existem?
“Pelos estudos atuais, os análogos de GLP-1 são comprovadamente seguros, quando bem indicados. Reações graves como pancreatite e hipoglicemia são raras. As contraindicações, pouco comuns, estão relacionadas ao histórico de câncer medular da tireoide e a neoplasias neuroendócrinas (tumores encontrados no trato gastrointestinal, como intestino delgado, reto, estômago, cólon, esôfago e apêndice)”, relata o Dr. Pontes.
Apesar disso, os efeitos colaterais, embora comuns, raramente são graves, garante o especialista:
“Essas medicações podem causar náuseas, vômitos, perda de massa muscular, fadiga, alterações do apetite, cefaleia, entre outros efeitos que refletem a lógica do poder emagrecedor. Em geral, são passageiros, quando respeitada a prescrição com titulação correta das doses e minimizados com adaptação alimentar e prática de exercícios físicos”, pontua.
Todo cuidado é pouco!
Hoje, para onde quer que se olhe, percebe-se uma busca desenfreada pelo corpo perfeito — leia-se: magro. A estética está, em muitos casos, se sobrepondo à saúde. E é aí que mora o perigo. Ter acesso a medicações que facilitam esses desejos, às vezes, pode significar correr riscos desnecessários.
A Anvisa autoriza o uso dos análogos de GLP-1 e suas evoluções por pacientes com risco cardiovascular, no controle do diabetes e da obesidade, sempre com a prescrição e o acompanhamento de um profissional de saúde.
Canetas enriquecedoras da Dinamarca e emagrecedoras dos pobres mortais
Dito isso com base na ciência, voltemos ao título do texto. Um estudo publicado na revista Nature Medicine constatou que o uso dessas canetinhas pode reduzir o risco de 42 problemas de saúde. Talvez por isso o mundo esteja tão entusiasmado.
Mas quem está feliz mesmo é a farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk, fabricante do Ozempic e do WeGovy, com patrimônio avaliado em cerca de US$ 700 bilhões — valor superior a todo o Produto Interno Bruto (PIB) da Dinamarca, que no ano passado foi de aproximadamente US$ 410 bilhões.
A empresa se tornou a mais valiosa da Europa, superando o conglomerado de luxo LVMH (Moët Hennessy Louis Vuitton), uma das marcas mais poderosas do mundo. Esse desempenho, inclusive, ajudou a Dinamarca a sair da recessão.
Meu Deus… a economia de um país girando em torno de uma fábrica de medicamentos? Isso é, no mínimo, perigoso. Se a Novo Nordisk quebrar, a terra dos vikings pode ver suas finanças congelarem.
Parceria com o Brasil
Por aqui, os negócios também estão aquecidos. Em abril, a farmacêutica anunciou um investimento de R$ 6,4 bilhões na expansão da fábrica em Montes Claros (MG), um reforço e tanto para a balança comercial brasileira.
A ampliação da planta industrial dobrará o tamanho da unidade, que passará a ter 74 mil m² e deve começar a operar em 2028. Atualmente com 2 mil funcionários, a fábrica pretende gerar 600 novos postos de trabalho.
Hoje, a unidade já é responsável pela exportação de 25% de todos os medicamentos produzidos no Brasil. Tomara que o tarifaço do presidente Donald Trump não atrapalhe os negócios.
Onde há fumaça, há fogo
O sucesso, às vezes, atrai o chamado “olho gordo” — ou “olho grande” — que pode trazer má sorte ou prejuízos. Foi o que aconteceu em Belo Horizonte (MG), em julho: a Polícia Civil desarticulou uma quadrilha que comandava um laboratório clandestino de fabricação e venda de medicamentos para emagrecer.
Por isso, o conselho final é simples: siga sempre a orientação do seu médico e só adquira medicamentos com o selo da Anvisa.
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