Hoje o “S” de saúde, assunto ao qual estou focada, vai se juntar ao “S” de solidariedade. E ela tem nome: Ladidi Kuluwa Bako-Aiyegbusi. A escrita é difícil — e a missão que ela escolheu também: combater a fome no país de origem.
Estou falando da diretora do Departamento de Nutrição do Ministério Federal da Saúde e Bem-Estar Social da Nigéria, que está provocando uma revolução na nação mais populosa do continente africano, com quase 230 milhões de habitantes.
Ladidi colocou num caldeirão ferro (que combate a anemia ferropriva, o tipo mais comum), zinco (fortalece a imunidade e o crescimento), ácido fólico (importante para o desenvolvimento das células) e vitamina B12 (essencial para o sistema nervoso e a formação sanguínea). Assim nasceram cubos de caldo — que já fazem parte da culinária nigeriana — fortificados com micronutrientes capazes de combater a desnutrição, a anemia e a mortalidade infantil.

A mulher é uma máquina de boas ideias. Ela também lidera projetos de fortificação de farinha de trigo, de milho e de sal com iodo, com o objetivo de criar uma rede de proteção nutricional, lançando mão de alimentos básicos consumidos pela população mais pobre.
Com destreza, tem conseguido unir governos, indústrias de alimentos, agências reguladoras e universidades em torno de um bem maior: o desenvolvimento de políticas públicas de combate à insegurança alimentar, com foco em crianças, mulheres e comunidades vulneráveis. Como diria minha mãe: “Uma andorinha só não faz verão.” E ela entendeu.
A face de um país rico e, ao mesmo tempo, pobre
Acredite: a Nigéria é o 11º maior produtor mundial de petróleo. Faz parte da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). A matéria-prima lidera as exportações do país, junto com o gás natural, que representa 10% do Produto Interno Bruto (PIB). E não para por aí: da terra também são extraídos minério de ferro, estanho, carvão, zinco, nióbio, calcário e chumbo.
De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), as redes seguras de saneamento chegam a menos de um terço da população urbana (29,5%) e a apenas 23,9% das pessoas que vivem na zona rural. O acesso à água potável também é muito baixo.
Os números são assustadores. Cerca de 4,4 milhões de pessoas sofrem de insegurança alimentar no nordeste da Nigéria. Além disso, 37% dos habitantes vivem abaixo da linha da pobreza — aproximadamente 84 milhões de nigerianos — segundo levantamento do World Food Programme, organismo internacional que leva ajuda humanitária a áreas em conflito ou em recuperação de desastres e impactos das mudanças climáticas. Precisamos entender o motivo desse alto grau de miserabilidade.
Durma com barulho e diga que passou a noite bem
Segundo a ONU, a inflação recorde, os choques climáticos e os conflitos em curso (herança da colonização) devem elevar o número de pessoas em situação de insegurança alimentar para 33 milhões agora, no segundo semestre de 2025. Oito milhões a mais que no ano passado. Uma catástrofe anunciada, que deve atingir principalmente o noroeste do país, região que vive rebeliões há pelo menos 15 anos. E o mundo de braços cruzados!
No filme Diamante de Sangue, escutamos a seguinte frase: “Eu me pergunto se Deus alguma vez nos perdoará pelo que fizemos uns aos outros. Mas depois eu olho à minha volta e vejo que Ele já nos abandonou há muito tempo.” Só se for Deus — porque, pelo que me parece, todos querem tirar uma lasquinha daquele continente.
O Brasil, por exemplo, tem buscado estender seus tentáculos no mercado nigeriano, principalmente no agronegócio. Em 2024, exportou US$ 978,5 milhões para o país, com destaque para açúcares e melaços. Já as importações brasileiras da Nigéria somaram US$ 1,1 bilhão no mesmo período — sendo quase metade (48%) composta por adubos e fertilizantes químicos. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Mesmo mergulhado no caos, o país acena com um mercado em crescimento significativo para as exportações brasileiras, devido à sua imensa população, urbanização acelerada e crescente demanda por alimentos processados e commodities agrícolas. Produtos como milho, soja, carnes e derivados lácteos podem encontrar oportunidades futuras — caso as barreiras comerciais sejam flexibilizadas.
Embora o presidente Lula seja um implacável defensor do combate à fome no mundo, me parece que os acordos bilaterais têm prioridade. Suprir as necessidades industriais e alimentares de um mercado faminto é mais lucrativo para a produção brasileira.
O Programa Mundial de Alimentos (WFP) está priorizando suas operações para alcançar 1,1 milhão de pessoas vulneráveis todos os meses no norte da Nigéria. Tomara que o sopão milagroso consiga matar a fome dessa gente!


