Bonecos sendo tratados como seres humanos. Parei, pensei e disse: é o fim do mundo. Mas, quando a gente menos espera, surge um sopro, uma luz no final do túnel. Sempre resta uma esperança. Foi assim que me senti quando fui apresentada à Laíse Brito, a psicóloga que arregaçou as mangas e criou a Baobá Saúde.
Vamos começar pelo nome simbólico da clínica, na definição da fundadora: “Baobá é uma árvore sagrada ancestral africana, muito conhecida por alimentar, matar a sede e abrigar sua comunidade, e a isso nos propomos com muita verdade, vontade de resgatar esse senso de coletividade”.

Iniciamos bem. A ideia de dar à ciência a oportunidade de quitar uma dívida histórica com o povo negro, com as populações indígenas e com a comunidade LGBTQIAPN+ é excelente. O atendimento da Baobá Saúde é voltado para essas pessoas.
O espaço, criado em 20 de janeiro deste ano, fica num bairro nobre da capital baiana e foi pensado com essa dimensão: abraçar quem, mesmo sendo maioria, ainda é tratado como minoria, garantindo um direito que está na nossa Carta Magna — o acesso à saúde.
A Baobá tem como carro-chefe a psicologia, mas, para os que ainda desconfiam de que essa realidade é palpável, são realizadas oficinas formativas gratuitas com o intuito de aproximar a comunidade dos profissionais.
A equipe “Brasis” não é só multidisciplinar
Na peça “O Topo da Montanha”, o ator Lázaro Ramos disse: “Ninguém chega lá no alto sozinho”. Como se tivesse sido teletransportada, Laíse captou a mensagem quando ainda tinha 12 anos e foi buscar, em cada canto desse país, um profissional que se encaixasse no perfil de não apenas cuidar da saúde física do paciente, mas que se solidarizasse com a dor do próximo. E encontrou.
A capitã do time se dedica ao atendimento clínico psicológico de adolescentes. Junto com ela estão as baianas Maiumi Souza e Uércia Santos, também psicólogas; a enfermeira esteta Sheila Gláucia; e a psicopedagoga Sandra Moreira. A escalação continua com a psicóloga carioca Nathalia Reis, a psiquiatra paulista Carolina Brito, a fisioterapeuta mineira Josane Miranda e o médico de família e neurologista paraense José Farias.
Todos profissionais negros, que destinam horários para o atendimento social, ou seja, cobram um valor simbólico (que pode chegar a R$ 80), conforme a disponibilidade do paciente. As vagas, é claro, já estão preenchidas.
As psicólogas cuidam do atendimento clínico com psicoterapia. A fisioterapeuta trabalha com microfisioterapia (técnica de terapia manual que investiga a causa primária da doença). A enfermeira esteta aplica técnicas de drenagem, massagens e limpeza de pele. A psicopedagoga faz a construção clínica e diagnóstico ligados a transtornos de aprendizagem e funcionamento neurodivergente (pessoas cujo cérebro funciona de forma diferente do padrão). E os médicos fazem consultas nas áreas de neurologia e psiquiatria.
A preocupação não é apenas a saúde física, mas principalmente a saúde mental de crianças, adolescentes e adultos que se veem à margem da sociedade.
Investimento solitário e solidário
Para promover esse encontro de “Brasis” que pensam o cuidado com perspectivas de território único, Laíse Brito sacou do próprio bolso R$ 300 mil para a compra do imóvel e dos equipamentos. Hoje, sem nenhum tipo de intermediário (recepcionista, assistente), a clínica, que preza o contato direto entre profissionais e pacientes, atende 120 pessoas por mês — sendo 80% delas negras — que se sentem à vontade para bater à porta e receber um “sim” como resposta.
E o Brasil, quanto investe na saúde mental do seu povo?
Em 2023, o Ministério da Saúde informou ter ampliado o orçamento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) em R$ 200 milhões, um acréscimo de 27%, com a meta de aumentar a assistência na rede de saúde mental no SUS em todo o país. Isso representa um recurso total de R$ 414 milhões destinados aos estados e Distrito Federal. Não sei se é suficiente. O que sei é que cada vez mais pessoas precisam de acompanhamento terapêutico, seja por solidão ou por dificuldade de inserção social.
Acreditar, eu sim
Termino dizendo que, em vez de balançar o berço para robôs realistas, as pessoas deveriam abrir os olhos e o coração para experiências reais como a Baobá Saúde, em Salvador, e a Ayô Saúde, no Rio de Janeiro, que estão quebrando paradigmas e dando à sociedade a chance de cuidar dos seus.
Em vez de bebês reborn, deveríamos clonar Laíse Brito, a filha do pedreiro e da operária de fábrica, que enxergou na educação o portal para a transformação de um desejo em realidade.
Imagine ser atendido presencialmente por profissionais comprometidos com a causa e não ter de desembolsar R$ 350 (valor médio de uma consulta com terapeuta, psicólogo ou psiquiatra). Que venham mais iniciativas como a Baobá Saúde e uma atenção especial para quem anda levando ao médico bebês de plástico que custam mais que um salário mínimo!


