Desde o fim de março de 2025, a Taxa Selic está estabilizada em 15% ao ano — o maior patamar em 19 anos. Esse cenário tornou o acesso ao crédito para micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) significativamente mais caro, elevando juros e o volume de operações financeiras e, ao mesmo tempo, agravando o risco de inadimplência em todo o país.
Segundo dados do Banco Central, em maio as MPMEs contraíram R$ 1,179 bilhão em empréstimos, um aumento de 11,6% em relação ao mesmo período de 2024. A maioria desses recursos foi destinada ao capital de giro, o que evidencia a tentativa dessas empresas de manterem suas operações mesmo diante de um ambiente econômico adverso.

Contudo, esse crescimento na demanda por crédito não veio acompanhado de uma melhora no desempenho financeiro dessas empresas. Ao contrário, gerou um recorde de inadimplência: o índice passou de 4,5% em janeiro para 5,1% em maio, o maior nível da série histórica registrada. A maior pressão no caixa, causada pelos juros elevados, impacta diretamente na capacidade de pagamento dessas empresas.
Nesse contexto, chama atenção o dado de que 90% dos processos de recuperação judicial no país envolvem MPMEs. Esse cenário revela a escalada de uma crise estrutural no segmento, com riscos significativos para a economia nacional, dado o peso dessas empresas no mercado de trabalho e na geração de renda.
Consequências da alta de juros: queda nas vendas, endividamento e adiamento de planos
Com juros elevados, o custo dos empréstimos pressiona intensamente o caixa das empresas, que acabam recorrendo a financiamentos com prazos curtos e condições desfavoráveis para manter o ritmo das atividades. Essa dependência do crédito, somada à inflação persistente, tem agravado a perda do poder de compra da população, o que, por sua vez, reduz o consumo e impacta diretamente as vendas das MPMEs.
As consequências são amplas. Empresas que já enfrentavam dificuldades financeiras antes da elevação dos juros agora lidam com um cenário ainda mais desafiador. A combinação de inflação elevada, queda no consumo, restrição ao crédito e aumento dos custos operacionais forma um quadro de extrema vulnerabilidade para o setor. Isso explica o número recorde de empresas endividadas no Brasil: atualmente, cerca de 7,2 milhões de negócios estão inadimplentes, sendo 6,8 milhões deles micro e pequenas empresas, conforme a Serasa.
Esse cenário é ainda mais preocupante considerando o papel econômico desse segmento. As MPMEs respondem por aproximadamente 27% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil e representam grande parte dos empregos formais no país. Quando esses empreendimentos sofrem, os impactos se alastram por toda a cadeia produtiva, atingindo fornecedores, prestadores de serviços e consumidores finais.
Além disso, os efeitos colaterais do crédito caro também incluem o adiamento de investimentos planejados, a suspensão de projetos de expansão e, em muitos casos, a interrupção de operações. Muitos empresários vêm adotando uma postura defensiva, reduzindo custos, enxugando equipes e renegociando contratos para sobreviver ao atual ciclo econômico.
Medidas de apoio do Sebrae, BNDES e Fundo Garantidor
Diante da gravidade do quadro, instituições como o Sebrae e o BNDES intensificaram suas ações para tentar garantir acesso ao crédito e oferecer suporte às empresas mais afetadas. Entre 2023 e 2024, o Sebrae facilitou R$ 3,5 bilhões em empréstimos para mais de 50 mil empreendedores e espera alcançar R$ 12 bilhões em liberações até o final de 2025.
Paralelamente, em parceria com o BNDES, a instituição atua por meio do Fundo Garantidor BNDES‑Sebrae (FGBS), que funciona como um avalista das operações de crédito, diminuindo os riscos para os bancos e facilitando a liberação dos recursos. A expectativa é de que esse tipo de apoio contribua para mitigar os efeitos da crise de crédito e impeça a falência de um número ainda maior de pequenos negócios.
No ano passado, o BNDES aprovou R$ 92,4 bilhões em crédito para MPMEs — um crescimento de 47% em comparação com 2022 — e busca manter esse patamar de apoio em 2025. Esses recursos são considerados fundamentais para aliviar a pressão financeira enfrentada por milhares de empreendedores.
Mesmo com o crédito mais caro, ele ainda representa uma das poucas saídas viáveis para manter o funcionamento das empresas. A possibilidade de elevação do IOF, que encareceria ainda mais essas linhas, tem gerado preocupações no setor e foi levada ao Supremo Tribunal Federal, que determinou a necessidade de diálogo entre Executivo e Legislativo sobre o tema.
A combinação entre juros altos, inflação resistente, retração nas vendas e dificuldade no acesso ao crédito colocou as MPMEs brasileiras em uma posição de vulnerabilidade crítica. De um lado, cresce a procura por crédito como tentativa de sobrevivência. Do outro, aumentam os índices de inadimplência e os pedidos de recuperação judicial.
Nesse contexto, o suporte de instituições públicas e programas de garantia é cada vez mais essencial para evitar que uma crise setorial se transforme em uma crise sistêmica, com impactos duradouros na economia nacional. Para muitos pequenos empresários, esse apoio tem sido o único caminho para manter seus negócios ativos até que o ambiente econômico volte a apresentar sinais de melhora — o que, segundo projeções, pode ocorrer apenas a partir de 2026.


