IBOV 138.420 +0,82% USD/BRL 5,18 -0,34% EUR/BRL 5,62 +0,11% Bitcoin US$ 61.450 -0,38% Ethereum US$ 1.627 -0,67% Selic 9,75% estável IPCA 12m 3,84% -0,12pp Petróleo Brent US$ 82,40 +1,21%

Juros altos pressionam micro e pequenas empresas

Por

·

Desde o fim de março de 2025, a Taxa Selic está estabilizada em 15% ao ano — o maior patamar em 19 anos. Esse cenário tornou o acesso ao crédito para micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) significativamente mais caro, elevando juros e o volume de operações financeiras e, ao mesmo tempo, agravando o risco de inadimplência em todo o país.

Segundo dados do Banco Central, em maio as MPMEs contraíram R$ 1,179 bilhão em empréstimos, um aumento de 11,6% em relação ao mesmo período de 2024. A maioria desses recursos foi destinada ao capital de giro, o que evidencia a tentativa dessas empresas de manterem suas operações mesmo diante de um ambiente econômico adverso.

Juros aumentam e dificultam crédito para micro e pequenas empresas em 2025
Juros altos pressionam micro, pequenas e médias empresas, que buscam novas soluções e apoia de instituições financeiras | Foto: Reprodução / Canva

Contudo, esse crescimento na demanda por crédito não veio acompanhado de uma melhora no desempenho financeiro dessas empresas. Ao contrário, gerou um recorde de inadimplência: o índice passou de 4,5% em janeiro para 5,1% em maio, o maior nível da série histórica registrada. A maior pressão no caixa, causada pelos juros elevados, impacta diretamente na capacidade de pagamento dessas empresas.

Nesse contexto, chama atenção o dado de que 90% dos processos de recuperação judicial no país envolvem MPMEs. Esse cenário revela a escalada de uma crise estrutural no segmento, com riscos significativos para a economia nacional, dado o peso dessas empresas no mercado de trabalho e na geração de renda.

Consequências da alta de juros: queda nas vendas, endividamento e adiamento de planos

Com juros elevados, o custo dos empréstimos pressiona intensamente o caixa das empresas, que acabam recorrendo a financiamentos com prazos curtos e condições desfavoráveis para manter o ritmo das atividades. Essa dependência do crédito, somada à inflação persistente, tem agravado a perda do poder de compra da população, o que, por sua vez, reduz o consumo e impacta diretamente as vendas das MPMEs.

As consequências são amplas. Empresas que já enfrentavam dificuldades financeiras antes da elevação dos juros agora lidam com um cenário ainda mais desafiador. A combinação de inflação elevada, queda no consumo, restrição ao crédito e aumento dos custos operacionais forma um quadro de extrema vulnerabilidade para o setor. Isso explica o número recorde de empresas endividadas no Brasil: atualmente, cerca de 7,2 milhões de negócios estão inadimplentes, sendo 6,8 milhões deles micro e pequenas empresas, conforme a Serasa.

Esse cenário é ainda mais preocupante considerando o papel econômico desse segmento. As MPMEs respondem por aproximadamente 27% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil e representam grande parte dos empregos formais no país. Quando esses empreendimentos sofrem, os impactos se alastram por toda a cadeia produtiva, atingindo fornecedores, prestadores de serviços e consumidores finais.

Além disso, os efeitos colaterais do crédito caro também incluem o adiamento de investimentos planejados, a suspensão de projetos de expansão e, em muitos casos, a interrupção de operações. Muitos empresários vêm adotando uma postura defensiva, reduzindo custos, enxugando equipes e renegociando contratos para sobreviver ao atual ciclo econômico.

Medidas de apoio do Sebrae, BNDES e Fundo Garantidor

Diante da gravidade do quadro, instituições como o Sebrae e o BNDES intensificaram suas ações para tentar garantir acesso ao crédito e oferecer suporte às empresas mais afetadas. Entre 2023 e 2024, o Sebrae facilitou R$ 3,5 bilhões em empréstimos para mais de 50 mil empreendedores e espera alcançar R$ 12 bilhões em liberações até o final de 2025.

Paralelamente, em parceria com o BNDES, a instituição atua por meio do Fundo Garantidor BNDES‑Sebrae (FGBS), que funciona como um avalista das operações de crédito, diminuindo os riscos para os bancos e facilitando a liberação dos recursos. A expectativa é de que esse tipo de apoio contribua para mitigar os efeitos da crise de crédito e impeça a falência de um número ainda maior de pequenos negócios.

No ano passado, o BNDES aprovou R$ 92,4 bilhões em crédito para MPMEs — um crescimento de 47% em comparação com 2022 — e busca manter esse patamar de apoio em 2025. Esses recursos são considerados fundamentais para aliviar a pressão financeira enfrentada por milhares de empreendedores.

Mesmo com o crédito mais caro, ele ainda representa uma das poucas saídas viáveis para manter o funcionamento das empresas. A possibilidade de elevação do IOF, que encareceria ainda mais essas linhas, tem gerado preocupações no setor e foi levada ao Supremo Tribunal Federal, que determinou a necessidade de diálogo entre Executivo e Legislativo sobre o tema.

A combinação entre juros altos, inflação resistente, retração nas vendas e dificuldade no acesso ao crédito colocou as MPMEs brasileiras em uma posição de vulnerabilidade crítica. De um lado, cresce a procura por crédito como tentativa de sobrevivência. Do outro, aumentam os índices de inadimplência e os pedidos de recuperação judicial.

Nesse contexto, o suporte de instituições públicas e programas de garantia é cada vez mais essencial para evitar que uma crise setorial se transforme em uma crise sistêmica, com impactos duradouros na economia nacional. Para muitos pequenos empresários, esse apoio tem sido o único caminho para manter seus negócios ativos até que o ambiente econômico volte a apresentar sinais de melhora — o que, segundo projeções, pode ocorrer apenas a partir de 2026.

Sobre o autor Saara Paiva

Jornalista, exploradora de eventos culturais e entusiasta da prática de esportes. Escreve sobre finanças sem palavras difíceis e com temas relevantes para quem vive a realidade brasileira.

Newsletter

As principais notícias de finanças no seu e-mail

Análises de mercado, economia e negócios. Sem spam, cancele quando quiser.

Publicidade