A lavagem de dinheiro é um processo utilizado por organizações criminosas e indivíduos para disfarçar a origem ilícita de recursos financeiros, tornando-os aparentemente legais. No Brasil, o termo é definido pela Lei nº 9.613/1998, que considera crime ocultar ou dissimular a natureza, a origem, a localização, a disposição ou a movimentação de valores provenientes de atividades ilegais.
O delito está frequentemente associado a crimes como tráfico de drogas, corrupção, contrabando, fraudes fiscais e desvios de recursos públicos. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a lavagem de dinheiro é uma das engrenagens que possibilita a expansão de facções criminosas, pois garante a utilização do capital ilícito em atividades aparentemente legais.
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As etapas do processo de lavagem do dinheiro
A lavagem de dinheiro geralmente ocorre em três fases principais, descritas em relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), órgão responsável por monitorar operações suspeitas no país.
- Colocação: nesta primeira etapa, o dinheiro obtido de forma ilegal é inserido no sistema financeiro. Pode ser feito por meio de depósitos bancários fracionados, compra de ativos de alto valor ou investimentos em empresas de fachada.
- Ocultação: após a entrada no sistema, os recursos passam por diversas movimentações para dificultar o rastreamento. Nessa fase, é comum a transferência entre contas, uso de paraísos fiscais ou compra e venda de bens.
- Integração: por fim, os valores retornam à economia formal, já com aparência de legalidade. Isso ocorre por meio de investimentos em imóveis, abertura de negócios, participação em fundos ou aquisição de empresas.
O impacto econômico da lavagem de dinheiro
A prática afeta não apenas a arrecadação tributária, mas também a competitividade no mercado. Empresas que utilizam recursos ilícitos conseguem oferecer preços artificialmente baixos ou expandir de forma desproporcional, prejudicando concorrentes que atuam dentro da legalidade.
De acordo com o Relatório Global sobre Crimes Financeiros da ONU (UNODC, 2021), estima-se que entre 2% e 5% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial seja lavado anualmente. Esse percentual equivale a valores entre US$ 800 bilhões e US$ 2 trilhões por ano. Convertido para a moeda brasileira, considerando o câmbio de agosto de 2025, quando US$ 1 equivale a R$ 5,51, o montante chega a algo entre R$ 4,4 trilhões e R$ 11 trilhões.
No Brasil, não há estimativas oficiais consolidadas sobre o valor exato movimentado, mas dados do Banco Central indicam que, apenas em 2023, mais de R$ 200 bilhões em transações foram analisados por apresentarem indícios de irregularidade.
Casos recentes e setores mais vulneráveis
Nos últimos anos, operações policiais e da Receita Federal revelaram esquemas de lavagem de dinheiro que utilizavam setores como combustíveis, transporte e construção civil. Em agosto de 2025, uma megaoperação descobriu que o crime organizado movimentava bilhões de reais por meio de fintechs e fundos de investimento, alcançando patrimônios estimados em R$ 30 bilhões.
Relatórios também mostram que setores de alto volume de transações em espécie, como casas de câmbio, postos de combustíveis e comércio atacadista, são mais suscetíveis a serem utilizados como canais de entrada de capital ilícito.
O papel do COAF e das instituições financeiras
No Brasil, o monitoramento das atividades suspeitas cabe ao COAF, que recebe informações de instituições financeiras, corretoras, seguradoras, cartórios e até empresas de factoring.
Os bancos e fintechs, por exemplo, são obrigados a comunicar transações que apresentem características atípicas, como movimentações de valores muito altos em espécie, operações fracionadas ou transferências para países considerados de risco. Em 2022, o COAF recebeu 6,7 milhões de comunicações de operações suspeitas, de acordo com dados oficiais do órgão.
Além disso, a integração com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a Receita Federal e o Banco Central fortalece a capacidade de fiscalização e amplia a detecção de esquemas sofisticados.
Avanços e desafios
O Brasil figura entre os países que possuem legislação avançada no combate à lavagem de dinheiro, segundo o Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI). As medidas de compliance exigidas das empresas e a ampliação da cooperação internacional são apontadas como pontos positivos.
Entretanto, especialistas destacam que a complexidade das operações e o crescimento de novas tecnologias, como as criptomoedas, representam desafios adicionais. A ausência de regulamentação global unificada e a facilidade de transferências digitais dificultam o rastreamento dos fluxos financeiros ilegais.


