O crédito no Brasil continua crescendo, mas em agosto de 2025 o movimento perdeu força. Dados divulgados nesta segunda-feira, 29 de setembro, pelo Banco Central, mostram que o estoque de empréstimos chegou a R$ 6,8 trilhões, aumento de 0,5% em relação a julho. Apesar da expansão, o número confirma uma desaceleração no ritmo. Ao longo de 12 meses, a alta foi de 10,1%, abaixo dos 10,8% registrados no mês anterior.

Para as famílias, o volume de crédito cresceu 0,7% no mês, somando R$ 4,2 trilhões. Já no caso das empresas, houve aumento menor, de 0,2%, com saldo de R$ 2,5 trilhões.
Mais dívidas, mais atraso nos pagamentos
O aumento no crédito veio acompanhado de um avanço na inadimplência. O indicador, que mede dívidas com atraso superior a 90 dias, subiu para 3,9% do total. Entre as famílias, o índice ficou em 6,8%, alta de 0,3 ponto percentual no mês. Já nas empresas, a inadimplência permaneceu estável em 3,3%.
Quando se olha apenas para os empréstimos contratados livremente entre bancos e clientes, sem subsídios do governo, a situação é mais delicada. Nesse grupo, a taxa de inadimplência chegou a 5,4%, com aumento de 0,2 ponto percentual em agosto. O crescimento foi puxado principalmente pelas famílias, que enfrentam mais dificuldade em pagar empréstimos pessoais e faturas de cartão de crédito.
Crédito ampliado: R$ 19,7 trilhões na economia
Além do crédito concedido pelos bancos, o Banco Central também avalia o chamado “crédito ampliado”, que inclui não só empréstimos, mas também dívidas emitidas pelo governo e por empresas. Esse indicador chegou a R$ 19,7 trilhões em agosto, valor que corresponde a 159% de toda a riqueza produzida no país em um ano (PIB).
O aumento mensal foi de 1,1%, puxado principalmente pelo crescimento de 2,8% nos títulos de dívida pública. Em 12 meses, o crédito ampliado cresceu 11,7%, com destaque para os títulos emitidos por empresas (alta de 17,2%) e os papéis do governo (17%).
Nas empresas, o crédito ampliado somou R$ 6,7 trilhões em agosto, equivalente a 54% do PIB. Houve queda de 0,5% no mês, causada pela redução nos empréstimos externos, influenciada pela valorização do real de 3,14% no período. Já no caso das famílias, o crédito ampliado ficou em R$ 4,5 trilhões, o que representa 36,6% do PIB. O crescimento foi de 0,8% no mês e de 11,4% em 12 meses, sustentado pelos financiamentos feitos no sistema bancário.
Diferença entre crédito livre e direcionado
O estoque de crédito do sistema financeiro é dividido em duas partes. A primeira é o crédito livre, em que os bancos definem as condições. Esse segmento somou R$ 3,9 trilhões em agosto, alta de 0,3% no mês e de 8,8% em 12 meses.
Dentro desse grupo, os empréstimos às empresas recuaram 0,1% em agosto, somando R$ 1,6 trilhão. A queda foi puxada pelo capital de giro, que caiu 1,2%, embora operações com duplicatas tenham crescido 0,9%. Para as famílias, o crédito livre avançou 0,6%, alcançando R$ 2,3 trilhões, com destaque para o consignado privado, que subiu 8,6% no mês.
A segunda parte é o crédito direcionado, formado por linhas reguladas pelo governo, como financiamentos habitacionais e do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento). Esse grupo somou R$ 2,9 trilhões em agosto, alta de 0,8% no mês e de 12,1% em 12 meses.
Juros continuam em alta
Os números também mostram que os juros cobrados pelos bancos seguem altos. Em agosto, a taxa média das novas contratações ficou em 31,8% ao ano, 0,2 ponto percentual acima de julho. No acumulado de 12 meses, o aumento foi de 4,2 pontos.
Nas empresas, a taxa média chegou a 21,7% ao ano. Para as famílias, foi bem maior: 36,4% ao ano. Dentro desse grupo, o crédito livre, que inclui cartão de crédito e cheque especial, teve juros médios de 58,4% ao ano, avanço de 6,6 pontos em 12 meses.
O cartão de crédito rotativo, usado quando o cliente não paga o valor total da fatura, continua sendo a modalidade mais cara. Em agosto, a taxa subiu mais 5,3 pontos percentuais e se manteve acima de 300% ao ano em alguns casos.
Já o cheque especial ficou em 7,49% ao mês, ou cerca de 135% ao ano. O consignado para trabalhadores do setor privado teve taxa média de 3,79% ao mês, quase o dobro do cobrado de aposentados e servidores públicos, que pagam 1,8% ao mês.
O spread bancário, diferença entre o que o banco paga para captar dinheiro e o que cobra do cliente, ficou em 20,7 pontos percentuais em agosto. Esse número mostra o quanto as instituições financeiras ampliam a margem de lucro sobre os empréstimos.
Endividamento das famílias
Apesar da expansão do crédito, as famílias continuam com orçamento apertado. Em julho, último dado disponível, o endividamento médio chegou a 48,6% da renda anual, queda de 0,2 ponto percentual em relação a junho, mas ainda 0,7 ponto acima do nível de um ano atrás.
O comprometimento da renda com parcelas de dívidas, que mostra quanto do salário mensal vai para o pagamento de empréstimos, ficou em 27,9%, também acima do registrado em 2024.


