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Mercado ignora alertas e empurra ações americanas a níveis alarmantes

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Em um cenário de ganhos constantes, o mercado acionário americano voltou a registrar recordes com forte impulso mesmo com grandes alertas. A cada quatro dias, uma nova máxima histórica é alcançada, refletindo o otimismo dominante entre investidores. Apesar das advertências quanto à alta já considerada excessiva, sinais de risco parecem ser ignorados.

O indicador de sentimento compilado pelo Barclays, banco britânico multinacional, permanece em patamar que indica euforia, enquanto a métrica da Bloomberg Intelligence, serviço que fornece análise e dados independentes sobre empresas, setores e mercados globais, retornou à zona “maníaca”. Historicamente, essas fases precederam retornos moderados.

Indicadores mostram que a bolsa dos EUA entrou em zona “maníaca”, com recordes frequentes e investidores ignorando riscos como shutdown e valuations esticados | Foto: Reprodução/Canva alertas
Indicadores mostram que a bolsa dos EUA entrou em zona “maníaca”, com recordes frequentes e investidores ignorando riscos como shutdown e valuations esticados | Foto: Reprodução/Canva

Indicadores de mercado em alerta

O Bloomberg Intelligence Market Pulse Index mede variáveis como amplitude de mercado, correlação entre ações e comportamento de papéis de alta volatilidade. Ele ultrapassou a marca de 0,6 por dois meses consecutivos, entrando na zona denominada “maníaca”. Na prática, o índice sinaliza que parte do mercado pode estar operando sob otimismo exagerado.

Em momentos similares no passado, o índice Russell 3000 — que reúne as maiores 3.000 empresas listadas nos EUA — registrou ganho médio de 2,9% nos três meses seguintes. Quando o indicador atinge o território “pânico”, o ganho pode subir para média de 9% em 90 dias.

O mercado parece dar pouco peso aos riscos: o shutdown governamental nos EUA (paralisação do governo que ocorre caso o orçamento para o ano fiscal seguinte não seja aprovado até 30 de setembro), desaceleração do mercado de trabalho e valuations elevados (empresas ou ativos que foram avaliados em valores considerados altos pelo mercado) permanecem no radar, mas sem provocar reversão imediata.

Leia também: Como shutdown nos EUA pode afetar o Brasil?

Valorização forte e apetite por risco

A euforia atual é alimentada sobretudo por apostas em inteligência artificial e pela convicção de que o Federal Reserve (Fed) irá cortar juros no horizonte próximo. Mesmo com fatores externos adversos, investidores parecem dispostos a sustentar a corrente de valorização.

O índice S&P 500 já estabeleceu 27 recordes desde junho. Esse ritmo expressivo mostra que os participantes se mantêm otimistas mesmo frente a riscos políticos e econômicos.

No mercado de opções, o volume de contratos de calls disparou. Nas últimas 20 sessões, foram negociados em média 40 milhões de calls diariamente, segundo dados internos do Goldman Sachs — um patamar inédito desde 2010.

Em entrevista ao InfoMoney, o gestor Joe Gilbert revela que o sentimento está elevado, mas pode permanecer assim por um tempo, referindo-se ao poder de sustentação do entusiasmo frente a alertas técnicos e macro.

Desafios à sustentação da alta

Apesar dos recordes, as bases da valorização mostram fragilidades:

  1. Shutdown e dados econômicos faltantes
    A paralisação parcial do governo dos EUA suspende a divulgação de dados econômicos importantes, como a folha de pagamento (payroll). Isso dificulta a leitura de sinais macro para o Fed e amplia a dependência dos mercados a impressões e expectativas.
  2. Valuations esticados
    Segundo o FT, as ações do S&P 500 estão sendo precificadas em mais de 3,3 vezes suas receitas, indicador que já havia levantado alertas de bolha antes.
  3. Risco político e eleitoral
    A incerteza política nos EUA, combinada com o possível uso de medidas de estímulo próximas ao ano eleitoral, alimenta temor de medidas populistas que impactem o orçamento público — fator que pode alterar a confiança dos investidores.
  4. Sobrecarga no apetite por risco
    O fato de o mercado ignorar riscos iminentes eleva a vulnerabilidade. Pequenos choques podem desencadear correções mais fortes do que em mercados mais “sensíveis”.
  5. Relação com setores de alta volatilidade
    A alta dependência de papéis ligados à tecnologia e inovação intensifica o risco caso haja reversão de expectativa sobre crescimento ou juros.

Cenários possíveis

No cenário de manutenção da euforia, a alta pode persistir por mais tempo, com rompimento de novos recordes. No entanto, se aparecerem gatilhos negativos — revisão abrupta nas expectativas de cortes de juros, elevação inesperada de inflação ou agravamento do shutdown —, uma correção técnica ou até mesmo uma reversão mais profunda pode ser desencadeada.

Os sinais emergentes nos indicadores técnicos e de sentimento atuam como advertências antecipadas de que o mercado já está em terreno sensível.

Sobre o autor Rafaella Ranulfo

Jornalista especializada em assessoria e gestão da comunicação. Pós-graduanda em psicologia positiva, felicidade e bem-estar. Além de suas contribuções online, é autora de dois livros e criadora de conteúdo

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