Na virada para 1º de outubro de 2025, entrou em vigor um shutdown, também conhecido como uma paralisação, nos Estados Unidos. A paralisação ocorreu porque o Congresso não aprovou o orçamento para o ano fiscal de 2026, o que impede que várias agências federais mantenham funcionamento normal.
Em casos típicos de shutdown, serviços considerados não essenciais são suspensos temporariamente e parte dos servidores públicos pode ser dispensada ou trabalhar sem pagamento até que um acordo orçamentário seja alcançado.
Durante o primeiro mandato de Donald Trump, houve um shutdown que durou 35 dias, gerando prejuízos estimados de US$ 3 bilhões para a economia americana, segundo o Escritório de Orçamento do Congresso (CBO).
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Impactos do shutdown nos Estados Unidos com reflexos globais
Interrupção de dados econômicos
Um dos efeitos esperados é a paralisação de agências responsáveis por dados essenciais, como o Bureau of Labor Statistics, que publica o relatório mensal de empregos (payroll). Sem essas informações, os mercados e o Federal Reserve (Fed) podem operar “às cegas” sobre indicadores-chaves de emprego e inflação.
A Deloitte estima que um shutdown de uma semana pode causar redução de US$ 7 bilhões no crescimento do PIB real no trimestre correspondente, o equivalente a aproximadamente 0,1% em base anualizada.
Confiança e mercados financeiros
A incerteza política tende a aumentar a aversão ao risco. Ativos considerados seguros, como o dólar, podem ser buscados por investidores. Segundo Cristiane Quartaroli, economista-chefe do Ouribank, “o real tende a sofrer num primeiro momento, acompanhando a aversão ao risco global”.
Por outro lado, Beto Saadia, da Nomos, avalia que o dólar pode perder força se o mercado interpretar que o shutdown é um sintoma de “disfunção política” nos EUA, levando investidores a buscar alternativas fora dos ativos americanos.
Efeito direto no Brasil
Câmbio e custo de importações
Uma valorização do dólar frente ao real implica que importados ficam mais caros para empresas brasileiras. Em julho de 2025, o real já sofreu desvalorização de 2% após anúncio de tarifas de 50% por parte dos EUA sobre produtos brasileiros, passando a valer cerca de R$ 5,60 por US$ 1.
Se o dólar subir de R$ 5,60 para, por exemplo, R$ 5,80, um insumo importado com custo de US$ 10 passaria de R$ 56,00 para R$ 58,00, elevando pressão sobre margens ou repasses de preço.
Crédito mais caro e risco de aperto financeiro
Com o dólar mais valorizado e a incerteza externa, juros globais podem subir ou permanecer elevados. Isso eleva o custo de captação para empresas brasileiras que dependem de financiamento internacional ou de instrumentos atrelados a risco global. Richard Ionescu, CEO do Grupo IOX, alerta que esse cenário reduz margens de manobra e exige maior seletividade dos investidores.
Exportações e commodities
Se os preços das commodities se mantiverem firmes ou subirem, o Brasil pode colher fluxo favorável. A economista Quartaroli menciona que o impacto pode ser moderado se houver de fato fluxo positivo vindo das exportações via preço de commodities.
No entanto, tarifas prévias impostas pelos EUA já afetam alguns setores brasileiros exportadores. Em julho de 2025, os EUA impuseram tarifa de 50% a produtos brasileiros, o que causa pressão adicional sobre competitividade.
Duração importa
Analistas enfatizam que o impacto de um shutdown depende fortemente de sua duração e escala. Para o presidente do Fed de Chicago, Austan Goolsbee, efeitos econômicos crescem à medida que a paralisação se prolonga.
Historicamente, muitos shutdowns foram curtos e tiveram efeitos limitados. Mas se durar semanas, a interrupção nos dados econômicos, no funcionamento de agências regulatórias e na confiança pode gerar efeitos mais amplos nos mercados globais.
O que o Brasil precisa monitorar
- Taxa de câmbio: flutuações no real frente ao dólar vão determinar pressão de custo para empresas importadoras.
- Juros internacionais: níveis elevados de prêmio de risco externo podem elevar custos para dívida externa ou captação internacional brasileira.
- Commodities e exportações: se demanda global por produtos naturais continuar forte, Brasil pode ter vantagem em fluxos de exportação.
- Decisões de política monetária local: o Banco Central brasileiro precisa ajustar sua postura diante de pressões externas sem sufocar o crescimento interno.
*Entrevistas concedidas a CNN.


