As mulheres que atuam no setor privado no Brasil recebem, em média, 21,2% menos que os homens, segundo o novo Relatório de Transparência Salarial e Critérios Remuneratórios, divulgado nesta segunda-feira, 3 de novembro, pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Os dados são do Relatório Anual de Informações Sociais (RAIS) e englobam cerca de 54 mil empresas com mais de 100 funcionários, considerando o período entre o segundo semestre de 2024 e o primeiro semestre de 2025.
A diferença salarial tem aumentado nos últimos relatórios. Em março de 2024, a distância entre os rendimentos era de 19,4%; em setembro, subiu para 20,7%; e em abril deste ano, chegou a 20,9%. Agora, o levantamento mostra o maior patamar da série histórica, com 21,2%.
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Segundo o MTE, foram analisados 19,4 milhões de vínculos empregatícios, dos quais 41,1% são de mulheres e 58,9% de homens. A remuneração média das mulheres é de R$ 3.908,76, enquanto a dos homens é de R$ 4.958,43.
Apesar do crescimento no número de mulheres empregadas — que passou de 7,2 milhões em 2023 para 8 milhões em 2025 —, a massa salarial feminina representa apenas 35% do total. O relatório estima que, se as mulheres recebessem o mesmo que os homens, R$ 92,7 bilhões poderiam ser injetados na economia brasileira.
Mulheres negras enfrentam maior desigualdade
A desigualdade de renda é ainda mais acentuada entre mulheres negras e homens não negros. A diferença nos salários medianos de admissão chega a 33,5%, com R$ 1.836,00 para mulheres negras e R$ 2.764,30 para homens não negros.
Nos rendimentos médios, o abismo é maior: mulheres negras recebem R$ 2.986,50, enquanto homens não negros ganham R$ 6.391,94 — uma diferença de 53,3%, ou seja, os homens chegam a ganhar mais que o dobro.
De acordo com a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, o cenário exige medidas urgentes. “É inaceitável que mulheres negras recebam metade do rendimento de homens não negros. Temos o compromisso de ampliar políticas de apoio, como licença-paternidade e auxílio-creche, que podem reduzir as desigualdades”, afirmou.
Mesmo com avanços pontuais, como o aumento de 21,1% no número de empresas com pelo menos 10% de mulheres negras desde 2023, o MTE alerta que o progresso é lento. Atualmente, 35 mil companhias contam com esse percentual mínimo de representatividade.
Estados com maiores e menores desigualdades
O relatório mostra que a desigualdade salarial varia entre os estados brasileiros. As maiores diferenças estão no Paraná (28,5%), Rio de Janeiro (28,5%), Santa Catarina (27,9%), Mato Grosso (27,9%) e Espírito Santo (26,9%).
Já os menores índices aparecem no Piauí (7,2%), Amapá (8,9%), Acre (9,1%), Distrito Federal (9,3%), Ceará (9,9%) e Pernambuco (10,4%).
Esses dados revelam que, embora haja estados com avanço em políticas de equidade, a desigualdade de gênero e raça ainda é uma realidade generalizada.
Motivos citados pelas empresas
As justificativas apresentadas pelas empresas para as diferenças salariais incluem fatores como tempo de experiência na empresa (78,7%), cumprimento de metas de produção (64,9%) e existência de planos de cargos e salários (56,4%).
Apenas 38,9% das empresas afirmam ter políticas de promoção específicas para mulheres, e 21,9% oferecem auxílio-creche. Além disso, 20,9% possuem licença parental estendida, e 44% permitem flexibilidade na jornada de trabalho.
O relatório ainda aponta o percentual de companhias com políticas ativas de inclusão:
- 29,6% incentivam a contratação de mulheres;
- 23,1% contratam mulheres negras com prioridade;
- 19,7% contratam mulheres com deficiência;
- 18,9% apoiam mulheres chefes de família;
- 7,3% contratam mulheres vítimas de violência;
- 7,8% contratam mulheres indígenas.
Para o MTE, ações como essas são fundamentais para equilibrar oportunidades e reduzir desigualdades estruturais.
Impacto econômico e social
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) aponta que o Brasil poderia aumentar o PIB em R$ 382 bilhões se adotasse políticas de igualdade de gênero no mercado de trabalho. O Banco Mundial reforça que a economia global poderia crescer mais de 20% caso as mulheres tivessem as mesmas oportunidades que os homens.
Além da diferença salarial, o levantamento evidencia um impacto social duradouro. De acordo com o MTE, metade das mulheres idosas vive abaixo da linha da pobreza. Mesmo com maior escolaridade, elas acumulam salários menores, menor tempo de contribuição previdenciária e acesso limitado a cargos de liderança.
Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do IBGE, entre 2016 e 2025 o número de mulheres ocupadas passou de 37,9 milhões para 44,6 milhões — um aumento de 6,7 milhões. Apesar disso, o avanço na ocupação não se traduziu em equidade salarial.
Fiscalização e próximos passos
Em 2025, a equipe de fiscalização do Ministério do Trabalho realizou 787 ações, alcançando cerca de 1 milhão de empregados. Dessas, 319 já foram concluídas e 468 ainda estão em andamento, resultando em 154 autos de infração.
Do total de 54.041 empresas analisadas, 38.233 (71%) já baixaram o relatório de igualdade salarial, e cerca de 31 mil informaram o site onde o documento pode ser consultado.
De acordo com Paula Montagner, subsecretária de Estatísticas e Estudos do Trabalho, o avanço depende de comprometimento do setor privado. “As empresas precisam construir planos de ação para promover a igualdade salarial. É uma etapa essencial para garantir um mercado de trabalho mais justo”, afirmou.


