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Economia criativa: como pequenos negócios movimentam a economia dos bairros?

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O dinheiro recebido por um serviço ou pela venda de um produto não fica necessariamente todo com quem empreendeu. Parte da renda pode ser usada para comprar materiais, contratar profissionais, pagar fornecedores e melhorar o espaço de trabalho. Quando essas compras e contratações são feitas na própria região, o dinheiro também ajuda a movimentar outros negócios e a criar oportunidades na comunidade.

Esse movimento está ligado à chamada economia criativa, que reúne atividades que transformam criatividade, cultura, conhecimento e habilidades em produtos e serviços. O conceito inclui áreas como beleza, fotografia, música, artesanato, moda, gastronomia e produção de conteúdo, além de pequenos negócios que dependem do trabalho criativo para atender seus clientes.

Um exemplo é o da empreendedora Natália Costamanha, responsável pelo estúdio de estética Nataliacbeauty, em Osasco, na Grande São Paulo. Para organizar os custos dos procedimentos que oferece, ela calcula quanto cada produto rende e qual é o valor gasto em cada atendimento. Na limpeza de pele, por exemplo, entram itens como sabonete, hidratante, protetor solar e algodão.

“Eu faço o cálculo de quantas porções aquele produto rende, então sei exatamente quanto gasto para uma limpeza de pele. O saco de algodão, por exemplo, dá para 30 clientes. Aí faço essa divisão para saber o custo”, explica.

Segundo Natália, esse levantamento ajuda a entender não apenas o preço dos produtos, mas também os outros gastos envolvidos no atendimento. Ela conta que, atualmente, calcula cerca de R$50 em produtos para realizar uma limpeza de pele. O restante do valor cobrado precisa considerar despesas com a estrutura e o conforto oferecido ao cliente.

Economia criativa: como pequenos negócios movimentam a economia dos bairros?
A estrutura do estúdio também exige investimentos. Desde que começou a atender no espaço atual, Natália fez melhorias no ambiente e trocou móveis utilizados nos procedimentos | Foto: Nathália C Beauty

“Desde que eu vim para cá, mudei a maca, mudei a cadeira”, conta. Entre os planos estão a compra de um ar-condicionado e de um frigobar. Natália também mantém parcerias com uma fotógrafa e uma maquiadora, além de planejar novas atividades para o estúdio.

Esses investimentos não representam apenas melhorias na estrutura do negócio. Ao comprar equipamentos, contratar serviços de instalação e manter parcerias com outros profissionais, a empreendedora movimenta a renda de outras pessoas. É assim que pequenos negócios podem contribuir para a economia local: o dinheiro recebido pelos atendimentos retorna à comunidade na forma de compras, contratações e novas oportunidades de trabalho.

Como o dinheiro circula na economia criativa

A movimentação não acontece apenas no setor de beleza. Uma pessoa que produz roupas pode contratar costureiras e comprar tecidos; um artesão precisa adquirir matéria-prima e ferramentas; já quem organiza eventos pode contratar músicos, técnicos de som, fotógrafos e outros prestadores de serviço.

Cada compra ou contratação representa uma oportunidade de renda para outro trabalhador. Se esses fornecedores e profissionais também atuam na mesma comunidade, parte do dinheiro recebido pelo negócio pode continuar circulando naquela região. Isso não significa que todo o valor fique no bairro, mas mostra como pequenos empreendimentos podem contribuir para a atividade econômica local.

A circulação de dinheiro entre pequenos negócios e profissionais da comunidade também depende de empreendimentos financeiramente organizados e sustentáveis. Para muitos empreendedores, porém, manter as contas em dia, conseguir crédito e investir no crescimento da atividade ainda são desafios.

Os dados do programa Cria Mais, iniciativa gratuita voltada ao fortalecimento de empreendedores de comunidades periféricas, ajudam a dimensionar esse cenário. O projeto já reúne mais de 5 mil estudantes inscritos, dos quais cerca de 4.200 se identificam como empreendedores ativos. As inscrições vieram de 755 municípios, distribuídos por 26 estados e pelas cinco regiões do país.

Entre os participantes, quase 75% são mulheres e aproximadamente 70% se declaram pretos ou pardos. A idade média é de 41 anos. São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro concentram o maior número de inscrições entre os estados, assim como suas respectivas capitais aparecem entre as cidades com maior participação.

O levantamento também mostra dificuldades comuns a quem administra um pequeno negócio. Cerca de 45% dos participantes dizem ter dificuldade para separar o dinheiro pessoal das contas da empresa. Mais de um terço aponta o acesso ao crédito para investir como o principal obstáculo. O uso de novas tecnologias ainda é desigual: 23% afirmam utilizar inteligência artificial sempre nas atividades do negócio, enquanto 10% dizem recorrer a essas ferramentas algumas vezes.

Programa oferece formação gratuita para empreendedores

Para apoiar quem trabalha por conta própria ou pretende desenvolver uma atividade criativa, o Cria Mais oferece 20 horas de conteúdo on-line e gratuito sobre gestão de negócios, educação financeira, marketing e inovação. As inscrições na plataforma e o acesso às aulas ficam disponíveis até 31 de dezembro de 2026.

Além da formação, 60 projetos serão escolhidos por uma comissão para receber mentorias individuais e em grupo. Os negócios selecionados também poderão receber R$8 mil de capital semente, recurso destinado a apoiar o desenvolvimento das iniciativas. Entre os critérios de avaliação estão o impacto na comunidade e a viabilidade econômica do projeto.

O Cria Mais é patrocinado pela Mastercard, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, realizado pela Gael Comunicação e conta com apoio técnico e pedagógico da SoulCode. O SuperFinanças é parceiro da iniciativa.

A proposta é contribuir para que empreendedores consigam organizar melhor suas atividades, planejar investimentos e ampliar as oportunidades de seus negócios. Ao comprar materiais, contratar serviços e melhorar a estrutura de trabalho, esses profissionais também podem gerar demanda para outras pessoas. Quando parte dessas relações acontece dentro da própria comunidade, o resultado pode ultrapassar o negócio individual e alcançar outros trabalhadores e estabelecimentos da região.

Sobre o autor Saara Paiva

Jornalista, exploradora de eventos culturais e entusiasta da prática de esportes. Escreve sobre finanças sem palavras difíceis e com temas relevantes para quem vive a realidade brasileira.

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