Há quem organize a vida natalina com a precisão de um relógio suíço. Planilhas detalhadas, listas intermináveis e escolhas meticulosas fazem parte do ritual.
Meses antes, já sabem exatamente o que cada nome da família e dos amigos receberá. Enquanto isso, outros navegam em um mar de incertezas até a última hora, vasculhando o histórico de compras online em busca de pistas sobre presentes passados.

A diferença entre esses dois perfis vai além da simples organização: os primeiros parecem ter um radar especial para descobrir os desejos alheios, enquanto os segundos tentam se virar com a intuição e a sorte.
Os psicólogos afirmam que existe uma razão pela qual aquele tio, ou tia, sempre sabe exatamente o que você quer ganhar.
Manter controle
Peggy Liu, professora de administração comercial na Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, que pesquisou os aspectos psicológicos de presentear, explica que pessoas habilidosas e dedicadas nessa prática costumam registrar o que deram no ano anterior, anotando também as reações de quem recebeu.
Essas pessoas geralmente seguem uma fórmula específica para escolher algo para outras em seu círculo, como professores dos filhos, colegas de trabalho e vizinhos.
No caso de Liu, ela normalmente sabe o que precisa oferecer, como uma pequena lembrança, por exemplo, chocolates ou uma caneca de café, e costuma planejar com antecedência.
Ela reconhece que poderia optar por algo universalmente útil, como dinheiro, mas compara o caráter impessoal dessa escolha com a emoção de oferecer algo como um belo cartão artesanal.
Quem se destaca na arte de presentear muitas vezes faz compras ao longo do ano, montando um estoque de opções adequadas que podem ser usadas no momento certo. Segundo Liu, essas pessoas mantêm esse hábito durante toda a vida.
Embora não existam estudos formais que definam quais traços de personalidade contribuem para essa habilidade, Liu observa que indivíduos com aptidão para dar lembranças frequentemente sentem satisfação ao encontrar e oferecer algo ideal. Esse sentimento pode até ser integrado à identidade dessas pessoas.
Quando amigos ou conhecidos elogiam suas escolhas, dizendo algo como “você é ótimo em escolher lembranças”, isso reforça sua autoestima e motiva esses indivíduos a continuarem dedicando tempo e atenção à tarefa. Liu destaca que esse tipo de reconhecimento pode intensificar o prazer associado ao ato de presentear.
Liu sugere que, para algumas pessoas, esses elogios acabam criando uma percepção de si mesmas como especialistas nesse campo, o que alimenta um ciclo positivo de esforço e realização. Por outro lado, o processo pode funcionar de forma oposta para aqueles que se veem como inaptos para essa atividade.
Pessoas que acreditam serem ruins nesse aspecto podem se sentir pressionadas, entrando em um ciclo de estresse e autossabotagem. Segundo Liu, isso pode desencadear um efeito dominó, onde a insegurança as leva a escolhas cada vez menos satisfatórias, reforçando sua percepção negativa sobre suas habilidades nessa área.
Construtores de conexões sociais
O ato de presentear transcende a mera troca material, revelando-se como uma linguagem universal que expressa emoções profundas e intenções genuínas.
Ao oferecer um presente, não estamos apenas entregando um objeto, mas sim investindo em um relacionamento, fortalecendo os laços que nos unem a outras pessoas.
Essa ação, além de proporcionar uma sensação de satisfação e bem-estar para quem presenteia, gera momentos de alegria e surpresa para quem o recebe, cultivando memórias afetivas que perduram ao longo do tempo.
Daniel Farrelly, renomado psicólogo da Universidade de Worcester, aprofunda essa compreensão, destacando que a troca de presentes é um comportamento inerente à nossa natureza social.
Ao oferecer um presente, comunicamos de forma clara e inequívoca que valorizamos a outra pessoa e que desejamos construir uma conexão mais profunda e significativa.
Essa prática, frequentemente associada a datas comemorativas como o Natal, facilita a aproximação entre as pessoas, mesmo entre aquelas que, à primeira vista, podem parecer mais reservadas.
Farrelly vai além, comparando o ato de presentear a uma espécie de “licença social” que nos permite expressar nossos sentimentos de forma mais direta e eficaz.
A expectativa de receber um presente cria um ambiente propício à interação social, favorecendo a comunicação e o fortalecimento dos vínculos interpessoais.
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