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Para onde caminha a dermatologia no Brasil?

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Fiquei muito entusiasmada, e ao mesmo tempo preocupada, com tudo que vi e ouvi no 35º Congresso Brasileiro de Cirurgia Dermatológica que aconteceu entre os dias 24 e 27 de abril.

O tema que guiou as palestras, cursos e simpósios para quase 2.700 profissionais de dermatologia do Brasil e de várias partes do mundo foi: pele étnica e cirurgia dermatológica. O palco escolhido para as discussões foi a cidade do Salvador, na Bahia, terra habitada por uma população em que 80% se assume negra.

35º Congresso Brasileiro de Cirurgia  e dermatologia
Pele étnica e cirurgia dermatológica, tema do 35º Congresso Brasileiro de Cirurgia Dermatológica | Foto: Reprodução/Pexels

Os avanços apresentados foram direcionados a utilização do laser nas cirurgias até então um território pouco explorado por causa de problemas na cicatrização da pele negra. Será que a acessibilidade está garantida a esse público? Os especialistas dizem que sim.

Não tenho tanta certeza assim, porque alguns procedimentos têm custos que variam entre R$ 1.000,00 e R$ 30.000,00, e a rede pública não tem tantas opções assim. Vou ficar de olho e acompanhar o desenrolar das promessas.

A palavra “dérma” pode até ter vindo do grego, mas o Congresso não foi para “inglês ver”, muito pelo contrário, – a programação científica se debruçou sobre os mais variados temas -, de novos curativos à Inteligência Artificial.

Porém, o que chamou a atenção do olhar desta colunista que vos escreve e que esteve presente no evento não foi só a evolução dos tratamentos a laser, mas a abertura de espaço para discutir os procedimentos voltados à população LGBTQIA+=, falou-se sobre o uso de hormônio na afirmação de gênero, cuidados dermatológicos, a importância do acolhimento e responsabilidade com a imagem pessoal do paciente, e por aí foi. Uma tarde inteira dedicada ao assunto. O verde da saúde deu lugar ao arco-íris da diversidade. Adorei!

Cuidado, este gato pode ser lebre

Por outro lado, senti que quem estava à frente da organização do evento mostrou um certo incômodo com outras temáticas. Na abertura oficial do Congresso, o discurso do presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia trouxe à tona alguns questionamentos sobre os caminhos que estão sendo trilhados por profissionais de uma das áreas mais endinheiradas da Medicina.

O Dr. Francisco Le Voci foi direto e objetivo quando falou sobre a busca desenfreada pela beleza e pela longevidade, que segundo o especialista está ultrapassando as barreiras da sensatez, e com as bênçãos das redes digitais está colocando em risco os avanços científicos e ameaçando a imagem das instituições que buscam difundir as boas práticas e estabelecer limites para o possível e o impossível a arriscar.

Trocando em miúdos, muitas clínicas estão se transformando em balcões de negócios sem levar em consideração as reais necessidades da paciente. Profissionais estão barganhando, e abandonando o Juramento de Hipócrates, um dos documentos mais longevos da humanidade, com origem na Grécia Antiga e exprime a promessa que o médico assume ao se formar em respeitar a vida, a dignidade do paciente, o segredo profissional, e busca da cura com ética e responsabilidade.

Outra voz também se levantou para acenar sobre o perigo que ronda a dermatologia no país, Dr. Paulo Barbosa, presidente do 35º Congresso Brasileiro de Dermatologia. Em entrevista, o médico fez questão de ressaltar suas preocupações, e aconselhou a mulherada a ter discernimento e frear a agonia e a expectativa em torno das falsas fórmulas da longevidade, “afinal seu corpo, seu rosto, sua pele são seu patrimônio”, me confessou.

Só me resta dizer, quem avisa amigo é, não confunda dermatologia com consumismo, esse gato pode ser lebre.

Sobre o autor Livia Calmon

Jornalista com passagens pelas redações da TV Globo — São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Minas Gerais e Bahia —, da TV Record SP, Band SP e revista IstoÉ Gente. Produtora de Conteúdo de Campanhas Políticas e estudiosa da área da saúde

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