Em 2024, a indústria musical brasileira demonstrou uma robustez impressionante. Artistas nacionais geraram mais de R$ 1,6 bilhão no Spotify, um crescimento de 31% em relação ao ano anterior, e o dobro do valor alcançado em 2021. Esse desempenho supera significativamente a média de crescimento do mercado de música gravada no país e consolida o Brasil como um dos mercados mais importantes para o streaming global.
Com o crescimento exponencial do streaming, um desafio urgente que se impõe é o combate ao streaming artificial e às chamadas “fazendas de cliques” (locais ou sistemas que simulam visualizações ou execuções em massa). Para compreender as dinâmicas e tendências que moldam esse cenário, conversamos com Carolina Alzuguir, a diretora de música do Spotify no Brasil.

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O Brasil se consolidou como um dos mercados mais importantes para o streaming de música global. Como head de música da plataforma, conseguiria listar quais são os instrumentos que impulsionam esse crescimento e as particularidades do consumo musical do brasileiro que nos tornam únicos?
O Brasil vive um momento único na indústria da música. Em 2024, artistas brasileiros geraram mais de R$ 1,6 bilhão no Spotify — um crescimento de 31% em relação ao ano anterior, o dobro do que foi gerado em 2021 e bem acima da média de crescimento do mercado de música gravada no país.
Esse crescimento é impulsionado por três pilares: um cenário musical extremamente rico e diverso; a curadoria editorial local, feita por um time que acompanha de perto a cena musical brasileira; e a atuação consistente da plataforma no fomento (incentivo) a novos talentos e lançamentos, como as ferramentas que permitem acompanhar dados, lançar músicas com planejamento e alcançar novos públicos.
Nunca corremos tanto com o avanço das tecnologias e a crescente digitalização. Para quem troca e recebe produções diariamente, já existe alguma aposta para o futuro da música brasileira nos próximos anos?
A gente tem visto um crescimento contínuo da música brasileira dentro e fora do país — e isso não é só sobre hits, mas sobre consistência. Gêneros como o pagode, o arrocha, o phonk e o brega funk estão ganhando força entre públicos diversos, dentro e fora do Brasil.
Também vemos um espaço crescente para artistas independentes, que conseguem alcançar o público com mais autonomia. O papel do Spotify é justamente fortalecer essa jornada, oferecendo visibilidade, dados e ferramentas para que esses artistas se profissionalizem e cresçam de forma sustentável.
Um desafio que se impõe é o streaming artificial e as chamadas “fazendas de cliques”, que são uma preocupação crescente na indústria. Como o Spotify tem combatido essa prática no Brasil para garantir um ambiente justo e transparente para gravadoras e artistas?
O Spotify tem um compromisso claro com a integridade do ecossistema musical e com a remuneração justa de artistas que trabalham de forma honesta. Por isso, temos uma equipe especializada em detectar e agir sobre qualquer tentativa de manipulação de streams. A gente combina tecnologia avançada com revisão humana para identificar comportamentos não autênticos — e, quando encontramos esse tipo de atividade, tomamos medidas como a exclusão dos streams artificiais da contagem pública, retenção de royalties e penalidades aos responsáveis.
No Brasil, também temos colaborado com autoridades quando necessário. Já apoiamos investigações formais e seguimos trabalhando junto a parceiros da indústria para manter o ambiente saudável para quem cria. Sabemos que a imensa maioria dos artistas está fazendo seu trabalho de forma legítima. Nosso compromisso é garantir que esses artistas estejam protegidos — e que tenham acesso a um espaço justo, transparente e sustentável para crescer.
Quais as principais iniciativas e ferramentas que o Spotify tem desenvolvido e implementado para apoiar e promover artistas emergentes e independentes no mercado brasileiro?
O Spotify tem democratizado o acesso à audiência. Ferramentas como o Spotify para Artists ajudam artistas a entenderem onde e como sua música está chegando, com dados em tempo real. Além disso, iniciativas como RADAR Brasil, Amplifika e EQUAL ampliam a visibilidade de novos talentos e artistas de grupos historicamente menos representados.
Só em 2024, artistas brasileiros foram descobertos por novos ouvintes quase 11,8 bilhões de vezes. E 84% das músicas no Top 50 diário do Spotify Brasil foram de artistas nacionais. Isso mostra que a construção de audiência local está funcionando — e que estamos conseguindo transformar atenção em impacto real.
A personalização e as playlists editoriais são pilares importantes da experiência do usuário no Spotify. Como a equipe brasileira de curadoria tem trabalhado para refletir a diversidade cultural e musical do país nessas seleções?
Nosso time editorial é local e acompanha de perto o que está acontecendo nas cenas musicais de todas as regiões. Isso se reflete nas nossas playlists, que vão do pagode ao rap nordestino, do gospel ao funk consciente. Mas é importante lembrar: hoje, a maior parte do consumo no Spotify vem das recomendações personalizadas — não só das playlists editoriais.
Isso quer dizer que o público tem descoberto novos artistas a partir do seu próprio comportamento de escuta, o que aumenta muito as chances de crescimento de quem está fora dos grandes centros ou selos. A curadoria editorial e o algoritmo trabalham juntos para garantir que a diversidade da música brasileira esteja refletida em toda a experiência da plataforma.
Olhando para o futuro, qual o próximo grande desafio para o Spotify no Brasil? E como enxergam o papel da plataforma em continuar impulsionando a inovação e o crescimento da música brasileira?
Nosso maior desafio é seguir promovendo crescimento sustentável para a indústria — com transparência, dados acessíveis e apoio direto a quem está criando música. O Spotify já pagou mais de US$ 60 bilhões à indústria da música no mundo. Em 2024, só no Brasil, foram mais de R$ 1,6 bilhão destinados a artistas locais.
Esses números mostram que a plataforma tem um papel central na profissionalização e monetização da música no país. Vamos continuar investindo para que mais artistas possam viver de música — seja com grandes hits ou construindo uma base fiel ao longo do tempo. Porque o sucesso, hoje, é cada vez menos sobre viralizar — e cada vez mais sobre conexão duradoura com o público.


