Um levantamento da SalaryFits, empresa ligada ao Serasa Experian, mostrou que a maioria dos contratantes do Crédito do Trabalhador tem baixa renda. De acordo com o estudo, 65% dos brasileiros que usaram esse tipo de empréstimo recebem até R$ 2.000 por mês.

A pesquisa também revelou que o benefício ainda é pouco conhecido. Entre os entrevistados, 57% disseram acreditar que a medida foi positiva, enquanto 27% afirmaram discordar e 16% admitiram que nem conheciam o recurso. Ou seja, mesmo após meses de funcionamento, o programa ainda não chegou ao conhecimento de todos os trabalhadores.
Perfil dos contratantes
Outro ponto levantado foi a análise do chamado score de crédito, uma pontuação usada pela Serasa para medir a chance de uma pessoa pagar suas contas em dia. Quanto mais alta a nota, maior a confiança do mercado em liberar empréstimos. Porém, 66% dos que contrataram o Crédito do Trabalhador têm “baixo score”, de cerca de 400 pontos. Isso mostra que grande parte dos beneficiados são pessoas vistas como de maior risco de inadimplência.
Esse perfil reforça a ideia do governo de que o programa pode abrir portas para quem tem mais dificuldade de conseguir crédito no mercado tradicional.
Como funciona o Crédito do Trabalhador
O Crédito do Trabalhador é uma linha de empréstimo consignado, ou seja, com parcelas descontadas direto do salário. A diferença é que ele permite o uso de parte do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) como garantia. O trabalhador pode usar até 10% do saldo do FGTS e também a multa de 40% do fundo em caso de demissão sem justa causa. Essa possibilidade reduz os riscos para os bancos e, em tese, deveria ajudar a diminuir os juros cobrados.
Outra mudança importante é que as empresas não participam da intermediação. O desconto das parcelas acontece direto na folha de pagamento, mas as instituições financeiras recebem os valores de forma automática, sem depender do empregador. Segundo o governo, isso serve para tornar o crédito mais acessível, principalmente para quem ganha menos e tem mais dificuldade de conseguir financiamento.
Taxas de juros
Apesar da promessa de taxas menores, os números mostram um aumento. Dados do Banco Central apontam que a média mensal passou de 2,90% em fevereiro para 3,75% em julho de 2025.
A Serasa informou que, para 96% dos trabalhadores que buscaram o crédito, os juros ficaram acima do modelo antigo, conhecido como consignado privado. Em alguns casos, as taxas chegaram a 6,6% ao mês em agosto, dependendo do perfil de quem contrata.
Ou seja, mesmo com a garantia do FGTS, a promessa de crédito mais barato não se confirmou para grande parte da população.
Metodologia do estudo
A pesquisa usou dados coletados entre maio e julho de 2025. Na primeira parte, foram analisados 6.655 contratos de crédito consignado privado, registrados no sistema da SalaryFits e da Serasa Experian. Esses contratos eram de empresas de vários setores espalhados por todo o Brasil. Além disso, a empresa também realizou a Pesquisa de Saúde Financeira e Bem-Estar do Trabalhador Brasileiro 2025. Nesse caso, foram feitas 1.029 entrevistas com funcionários de empresas públicas e privadas, tanto de regime CLT quanto de profissionais PJ, entre maio e junho.
O que diz o governo
Questionado pelo jornal Poder360, o Ministério do Trabalho e Emprego afirmou que não vai se posicionar sobre a pesquisa. O órgão declarou que desconhece os critérios, os dados de contratos e a amostragem usados pela SalaryFits e pela Serasa Experian.
Em nota divulgada em setembro, o Ministério informou que, segundo seus dados, a taxa média de juros do Crédito do Trabalhador estava entre 2,62% e 3,48% ao mês. Esses números são menores do que os divulgados no levantamento privado.