O trabalho informal, muitas vezes visto apenas como alternativa à falta de emprego formal, é um dos motores silenciosos da economia brasileira. Nas grandes cidades, os faróis se tornaram verdadeiros pontos de comércio, onde vendedores ambulantes, artistas e prestadores de serviço transformam segundos de sinal fechado em oportunidade de renda.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem cerca de 39 milhões de pessoas na informalidade, o que representa 36,8% da população ocupada. Esse contingente movimenta mais de R$ 1,2 trilhão por ano, de acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
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Quanto rende um farol fechado?
Em média, um vendedor de doces, balas ou água mineral pode faturar entre R$ 60 e R$ 200 por dia, dependendo da localização, horário e fluxo de veículos, conforme levantamento realizado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) em 2024 sobre atividades autônomas urbanas.
Cada farol fechado representa uma janela de cerca de 90 segundos para a abordagem. Vendedores relatam que, em pontos de alto movimento — como avenidas centrais ou próximas a shoppings — é possível vender de 8 a 12 unidades por ciclo, com produtos variando entre R$ 1 e R$ 5.
Na prática, um vendedor que trabalha em média 6 horas por dia pode vender cerca de 150 unidades de produto, o que, ao fim do mês, pode representar uma renda entre R$ 1.500 e R$ 3.000, valor próximo ao salário médio de diversas ocupações formais de entrada.
Empreendedorismo de rua e economia criativa
Apesar de o trabalho em semáforos não estar formalizado, ele revela traços claros de empreendedorismo urbano. Muitos desses trabalhadores encaram o espaço da rua como vitrine, investem em identidade visual, buscam fidelizar clientes e adaptam o produto conforme a demanda.
O fenômeno é parte da chamada “economia da sobrevivência”, mas também se insere na lógica da economia criativa, com pessoas que usam criatividade e estratégia para gerar renda com o que têm disponível. Elas entendem o comportamento do consumidor no trânsito, otimizam tempo e criam modelos de venda eficazes.
Esse tipo de atuação, movimenta o consumo de forma indireta, já que boa parte da renda obtida é reinvestida em suprimentos, alimentação e transporte local — o que gera um ciclo econômico urbano.
O impacto das redes e o novo olhar sobre o trabalho de rua
Na última semana, um vídeo de um vendedor de paçoca, Pedro Henrique, de 12 anos, viralizou nas redes sociais ao mostrar o garoto oferecendo seus produtos em um farol de uma grande avenida. O vídeo chamou atenção por retratar uma atitude honesta e empreendedora: o jovem vendia paçocas a R$ 1 e permitia que os clientes fizessem o pagamento via Pix, confiando em quem comprava.
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Após um erro no código de pagamento, um cliente divulgou a história na internet, e a repercussão foi imediata. O menino, que vendia para juntar dinheiro e realizar o sonho de comprar um videogame, ganhou milhares de seguidores em poucos dias e recebeu doações de todo o país. O caso gerou uma reflexão sobre como a tecnologia e as redes sociais podem transformar trajetórias individuais e oferecer visibilidade a formas alternativas de trabalho.
O episódio também ilustra um novo tipo de empreendedorismo de rua: aquele que se conecta com o público digital. Mesmo em condições informais, essas histórias mostram que há uma ponte crescente entre economia real e digital, em que redes sociais funcionam como amplificadoras de reputação e confiança.
Informalidade e desafios estruturais
Ainda que esse tipo de iniciativa revele criatividade e resiliência, especialistas alertam que a informalidade reflete uma limitação estrutural do mercado de trabalho brasileiro. Segundo o IBGE, mais de 17 milhões de pessoas no país atuam por conta própria sem registro ou proteção trabalhista.
A renda média mensal dessas pessoas é de R$ 1.878, valor 36% menor do que a média dos trabalhadores com carteira assinada, que é de R$ 2.949. A ausência de benefícios como previdência, férias e décimo terceiro mantém esse grupo vulnerável a oscilações econômicas e falta de segurança financeira.
O governo federal mantém programas de formalização simplificada, como o Microempreendedor Individual (MEI), que permite a trabalhadores informais legalizarem suas atividades com custo reduzido. Mesmo assim, a adesão ainda é limitada, especialmente entre os vendedores de rua, que muitas vezes enfrentam falta de acesso digital e insegurança quanto à burocracia.
Economia em movimento
Os faróis das grandes avenidas, ao mesmo tempo que revelam desigualdades, também demonstram a capacidade de adaptação e reinvenção do trabalhador brasileiro. O trânsito, antes sinônimo de tempo perdido, tornou-se palco de microempreendedores que enxergam no cotidiano urbano uma chance de gerar renda e conquistar autonomia financeira.


