Quando se fala em economia brasileira o debate costuma girar em torno de indústria, agronegócio, serviços e mercado financeiro. No entanto, existe um setor que movimenta centenas de bilhões de reais por ano, gera milhões de empregos e sustenta economias locais inteiras, e que ainda permanece à margem das análises econômicas tradicionais: o terceiro setor, formado pelas Organizações da Sociedade Civil (OSCs).
Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), por meio do Mapa das OSCs, mostram que o Brasil possui atualmente mais de 820 mil organizações da sociedade civil ativas. Espalhadas por praticamente todos os municípios, atuando principalmente em áreas como saúde, educação, assistência social, cultura, meio ambiente e direitos humanos.
Juntas, essas atividades respondem por cerca de 4% a 4,3% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, o que representa aproximadamente R$ 400 bilhões anuais em valor econômico gerado, um montante comparável ao de setores tradicionais da economia nacional.
Terceiro setor também é estrutura econômica
Esse impacto não se restringe à atuação social. Na prática, as OSCs funcionam como estruturas econômicas formais, com folha de pagamento, contratos, fornecedores, despesas operacionais e capacidade de induzir consumo. Estimativas baseadas em dados do Ipea e em estudos utilizados por entidades como o GIFE (Grupo de Institutos Fundações e Empresas) indicam que o terceiro setor é responsável por cerca de 6 milhões de postos de trabalho diretos e indiretos, o equivalente a quase 6% das ocupações formais no país.

A geração de renda ocorre por múltiplos canais. As OSCs contratam serviços, alugam imóveis, compram insumos, executam projetos financiados por recursos públicos e privados e ativam cadeias produtivas locais. Em setores como saúde e educação, que concentram mais de 60% do valor econômico do terceiro setor, hospitais filantrópicos, escolas comunitárias e centros especializados funcionam de forma contínua, com estruturas semelhantes às de empresas de médio porte.
Já na cultura e na economia criativa, projetos conduzidos por estas instituições impulsionam a contratação de artistas, produtores, técnicos, artesãos e prestadores de serviço, ampliando a circulação de recursos nos territórios.
O estudo “A importância do Terceiro Setor para o PIB no Brasil”, da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), aprofunda essa análise ao demonstrar que o setor atua como um agente econômico transversal. A pesquisa revela que os recursos aplicados em organizações sociais geram efeitos diretos, indiretos e induzidos sobre a economia.
Cada projeto executado movimenta não apenas a organização responsável, mas também o comércio local, o setor de serviços, a logística, a comunicação e outras áreas correlatas. Trata-se de um efeito multiplicador que amplia significativamente o impacto real do setor sobre o crescimento econômico e o desenvolvimento regional.
Outro fator que reforça essa engrenagem é o avanço do Investimento Social Privado (ISP). Segundo o Censo GIFE 2024–2025, empresas, institutos e fundações destinaram cerca de R$ 5,8 bilhões em um único ano para iniciativas sociais no Brasil. Esses recursos financiam projetos estruturantes, programas de qualificação profissional, inclusão produtiva e desenvolvimento local, gerando empregos, renda e retorno social mensurável.
Para a Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (ABONG), os dados confirmam que o terceiro setor deixou de ser periférico e passou a ocupar um papel estratégico na economia brasileira, inclusive como complemento às políticas públicas e ao mercado tradicional.
Ao trazer esses números para o centro do debate econômico, o Brasil amplia sua compreensão sobre desenvolvimento. O terceiro setor não apenas executa ações sociais: ele movimenta capital, gera empregos, ativa cadeias produtivas e sustenta economias locais, especialmente em regiões onde o mercado formal tem baixa presença. No Brasil invisível das estatísticas convencionais, essa economia da solidariedade segue operando com eficiência, impacto e relevância macroeconômica.
Mas de onde vêm os recursos que sustentam essa engrenagem bilionária?
Na próxima reportagem da série, o foco será justamente o financiamento desse setor: “Captação de Recursos — O motor da transformação social”. Vamos analisar como funcionam as leis de incentivo, os fundos públicos, a filantropia, o investimento social privado e por que a captação se tornou peça-chave para o crescimento e a sustentabilidade do terceiro setor no Brasil.
Entender o impacto é o primeiro passo. Compreender o financiamento é o que revela a estrutura por trás dessa economia.
Radar do Bem – Oportunidades em aberto
Como parte do compromisso desta coluna em conectar análise econômica com aplicação prática, passamos a destacar editais e oportunidades reais de financiamento para organizações e projetos sociais.
Se o terceiro setor é uma engrenagem econômica relevante, o acesso a recursos é o que mantém essa estrutura em movimento. Abaixo, alguns editais atualmente abertos que podem impulsionar iniciativas com impacto social.
· Prêmio Isabel Salgado 2° Edição:
Foco: Premiar pessoas jurídicas administradas por atletas, ex-atletas, empreendedores sociais e pessoas físicas cujos projetos sociais usem o esporte nas modalidades vôlei, atletismo, futebol feminino, judô, skate ou surf para promover transformação social.
Inscrições: até 23 de fevereiro de 2026.
Mais informação: https://prosas.com.br/editais/16763#!#tab_vermais_descricao
· Edital Brasil com S – Embratur
Foco: Selecionar e remunerar cinco (05) projetos de curta-metragem inéditas, realizadas por produtoras brasileiras independentes, como tema “Territórios Criativos: O Brasil como Imaginário” que contribuam para a promoção dos destinos turísticos do Brasil.
Inscrições: até 09 de março de 2026.
Mais informações: https://prosas.com.br/editais/17010


