A morte de Netinho, aos 60 anos, na terça-feira, 13 de outubro, encerra a trajetória de um dos nomes mais conhecidos do axé music. Dono do sucesso “Milla”, o cantor vendeu mais de 15 milhões de discos ao longo da carreira e conquistou espaço no cenário nacional com músicas que marcaram o Carnaval de Salvador e chegaram a públicos de outros países.

Essa atividade cultural se conecta ao turismo e a outros serviços que movimentam dinheiro durante o Carnaval.
Em 2026, a festa na Bahia recebeu mais de 3,8 milhões de turistas e movimentou R$ 8,1 bilhões na economia estadual, segundo balanço do governo baiano. Em 2025, foram 3,5 milhões de visitantes e R$ 7 bilhões em receita. Os valores abrangem diferentes atividades ligadas ao Carnaval e ao turismo, e não apenas o axé music.
Da Banda Beijo ao sucesso de “Milla”
Nascido em 12 de julho de 1966, em Santo Antônio de Jesus, no interior da Bahia, Ernesto de Souza Andrade Júnior perdeu o pai aos 9 anos. No ano seguinte, mudou-se com a família para Salvador, onde começou a se aproximar da música. Aos 14, ganhou o primeiro violão e aprendeu a tocar sozinho, enquanto também estudava Engenharia Civil.
A carreira ganhou força em 1987, quando Netinho fez um teste para assumir os vocais do Bloco Beijo, que deu origem à Banda Beijo. Sua estreia no circuito oficial do Carnaval de Salvador ocorreu no ano seguinte, quando “Beijo na Boca” se tornou um sucesso nacional.
Com o grupo, gravou músicas como “Salvador pra Você”, “Gosto de Mar” e “Vem me Dar um Beijo”. Em 1992, iniciou a carreira solo e lançou canções que ampliaram sua popularidade, entre elas “Capricho dos Deuses”, “Total” e “Menina”.
O grande destaque veio em 1996, com “Milla”, que alcançou grande repercussão e ganhou versões em diferentes idiomas. Na mesma fase, Netinho lançou o álbum “Netinho ao Vivo!” e ampliou sua presença no mercado musical. Ao longo dos anos, também se apresentou na Europa e nos Estados Unidos.
Como o axé movimenta a economia
A trajetória de Netinho acompanha a expansão de um gênero que ajudou a projetar a cultura baiana para além do estado. A axé music combina influências de samba, reggae e rock, além de elementos musicais de origem africana. Suas raízes também passam pelos blocos afro e pelos trios elétricos, que transformaram o Carnaval de Salvador ao longo das décadas.
A partir dos anos 1980, artistas como Luiz Caldas, Daniela Mercury e Carlinhos Brown ganharam destaque, assim como grupos como Olodum, Ara Ketu, Chiclete com Banana e Timbalada. O samba-reggae, desenvolvido pelo Olodum sob a regência de Neguinho do Samba, também contribuiu para ampliar a presença da música baiana no Brasil e no exterior.
O crescimento do gênero abriu espaço para a venda de discos, a realização de shows e a expansão de eventos musicais. Além dos artistas, esse mercado envolve técnicos de som, músicos, equipes de palco, produtores e outros profissionais que trabalham nos bastidores. Durante grandes festas, bares, hotéis, restaurantes, transportes e outros serviços também recebem visitantes e movimentam negócios.
Os números do Carnaval baiano dão uma dimensão desse mercado. Em 2026, turistas de mais de 80 países visitaram o estado durante o período da festa, segundo o governo estadual. O Aeroporto Internacional de Salvador registrou 365 mil assentos em rotas com destino à Bahia, alta de 19% em relação ao Carnaval anterior. Já a rodoviária de Águas Claras teve circulação de 170 mil passageiros.
Problemas de saúde marcaram os últimos anos
Em 2013, Netinho sofreu três acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e passou por cirurgias no cérebro. Na época, perdeu os movimentos do corpo, a voz e parte da memória recente, o que o afastou dos palcos por anos. Durante a recuperação, também enfrentou uma depressão profunda e relatou momentos difíceis.
Em março de 2025, o cantor revelou ter sido diagnosticado com linfoma não Hodgkin do tipo B agressivo, um câncer que afeta o sistema linfático, ligado à defesa do organismo. Ele iniciou sessões de quimioterapia e voltou a ser internado em 2026 após o retorno da doença.
Nos meses anteriores à morte, o artista compartilhou informações sobre o tratamento e chegou a anunciar que havia recebido alta, antes de precisar voltar ao hospital. Ele deixa a filha, Bruna Trindade, fruto do casamento com a jornalista Mariana Trindade.
Com sucessos que atravessaram gerações, Netinho construiu uma carreira ligada à história do axé e à expansão da música baiana. Sua trajetória deixa uma marca na cultura popular e em um mercado que reúne artistas, eventos e atividades econômicas em torno da música.


