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US$ 9 bilhões em jogo: Harvard afirma que não irá cumprir exigências do governo Trump

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A Universidade Harvard anunciou nesta segunda-feira, 14 de abril, que não aceitará um acordo com o governo Trump, duas semanas após o governo dos Estados Unidos ameaçar interromper cerca de 9 bilhões de dólares (cerca de 52,74 bilhões de reais) em financiamentos. A instituição declarou que não “abrirá mão de sua independência nem de seus direitos constitucionais”.

A relação entre o governo Trump e as principais universidades norte-americanas se tornou mais tensa quando Harvard se recusou a cumprir as exigências do governo federal. O conflito começou após o governo ameaçar revisar ou suspender contratos e repasses públicos, alegando que a universidade não estaria combatendo o antissemitismo de forma adequada. Em resposta, o governo exigiu que Harvard fizesse mudanças significativas em suas políticas internas.

Universidade Harvard enfrenta governo Trump para manter autonomia
Em março, o governo Trump tirou 400 milhões de dólares (2,34 bilhões de reais) de financiamento da Universidade Columbia |Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

Entre as exigências estavam o fim dos programas de diversidade, equidade e inclusão (DEI), mudanças nos critérios de admissão e contratação, com foco apenas no mérito, e alterações na administração da universidade. Harvard respondeu de forma firme, reafirmando seu compromisso com a autonomia da instituição e com os direitos garantidos pela Constituição.

Em uma carta enviada ao Departamento de Educação e a outras agências federais, os advogados da universidade argumentaram que aceitar tais interferências permitiria o controle do governo sobre decisões acadêmicas e administrativas. “Nem Harvard, nem qualquer outra universidade privada, pode aceitar ser controlada pelo governo federal”, afirmaram. O presidente da instituição, Alan Garber, reforçou essa posição, classificando as exigências como ilegais e incompatíveis com os princípios da autonomia universitária.

Ameaça à liberdade nas universidades e mudanças nas regras

O governo diz que precisa pressionar Harvard e outras universidades para lutar contra o antissemitismo dentro das escolas. De acordo com o governo Trump, algumas universidades estariam deixando que falas de ódio se escondam em protestos políticos, principalmente depois das manifestações a favor da Palestina em 2023, quando houve o conflito entre Israel e o Hamas.

Por outro lado, muitos professores, alunos e pessoas que defendem a liberdade de expressão pensam que a reação do governo é muito forte e passa dos limites da lei. Para eles, o governo está tentando controlar o que acontece nas universidades, confundindo críticas ao governo de Israel com antissemitismo. Além disso, eles estão preocupados com o uso político de leis como o Título VI da Lei dos Direitos Civis, que proíbe discriminação em escolas que recebem dinheiro do governo.

Alguns grupos de professores de Harvard entraram na justiça contra o governo, dizendo que ele quer obrigar as universidades a mudar suas regras para atender a interesses políticos. Eles afirmam que mudar o que é ensinado, como os professores são contratados e como os alunos são escolhidos prejudica a liberdade de ensinar e de pesquisar. Eles também dizem que isso pode criar um exemplo perigoso para o governo controlar as universidades.

Na prática, os resultados dessas ações do governo já começaram a aparecer. Em março, o governo Trump tirou 400 milhões de dólares (2,34 bilhões de reais) de financiamento da Universidade Columbia. Outras universidades, como Princeton, Cornell e Northwestern, também tiveram projetos de pesquisa parados.

A Universidade da Pensilvânia perdeu 175 milhões de dólares (1,02 bilhão de reais) depois de ter permitido, anos atrás, que uma atleta trans participasse da equipe feminina de natação. Essas medidas prejudicam a capacidade das universidades de continuar projetos de pesquisa, dar bolsas de estudo e trabalhar junto com outras instituições.

Harvard busca encontrar um equilíbrio entre sua liberdade e suas responsabilidades

Mesmo sendo firme em suas decisões, Harvard entende que lutar contra o antissemitismo é muito importante. O presidente temporário da universidade, Alan Garber, disse que viu casos dessa discriminação durante seu trabalho e garantiu que vai proteger todos os estudantes. Desde então, a universidade tem tomado atitudes para responder às críticas e evitar que ideias de ódio se espalhem no campus.

Um exemplo disso é o grupo de estudantes chamado Comitê de Solidariedade Palestina, que começou a ser observado de perto. Professores ligados ao Centro de Estudos do Oriente Médio foram afastados, e uma parceria com a Universidade Birzeit, que fica na Cisjordânia, foi interrompida. Harvard também criou grupos de trabalho para discutir tanto o antissemitismo quanto a islamofobia, mostrando que está tentando lidar com esses problemas de uma forma completa e justa.

Por outro lado, a universidade deixa claro que não vai aceitar que pessoas de fora interfiram em troca de dinheiro. Em um comunicado oficial, afirmou que não vai abrir mão dos seus direitos garantidos pela Constituição, e que qualquer ajuda do governo será aceita somente dentro da lei, respeitando o trabalho principal da universidade.

Essa postura, no entanto, tem causado problemas. As doações de grandes apoiadores diminuíram 15%, totalizando menos de 1,2 bilhão de dólares (cerca de 7 bilhões de reais) no último ano. Algumas pessoas importantes, como o bilionário Len Blavatnik, mostraram que não estão satisfeitas com a forma como Harvard está lidando com a situação. Por causa dessa incerteza financeira, a universidade decidiu não contratar novos professores e funcionários por enquanto.

A instituição também está passando por mudanças internas. A ex-presidente Claudine Gay deixou o cargo em 2024, depois de ser acusada de copiar trabalhos de outras pessoas e de ser criticada por não condenar, em uma reunião no Congresso, falas que pediam a morte de judeus. Alan Garber, que é médico e economista, assumiu a presidência com a missão de acalmar a universidade e diminuir os problemas com o público.

Garber anunciou que Harvard não vai mais fazer declarações públicas sobre assuntos que não estejam diretamente ligados ao seu trabalho de educação. O objetivo é evitar novas polêmicas e proteger a instituição de discussões políticas que não fazem parte do seu papel principal.

O caso de Harvard mostra um conflito maior entre a liberdade das universidades e a tentativa do governo de controlá-las. Também revela como é difícil equilibrar a liberdade de expressão, a inclusão, a segurança dos alunos e a responsabilidade da universidade em um mundo cada vez mais dividido. Mesmo sendo urgente lutar contra o antissemitismo, as ações precisam seguir as leis da Constituição e não podem ser usadas como desculpa para controlar a vida dentro da universidade.

Para muitos especialistas, o maior perigo não é só perder dinheiro, mas enfraquecer os valores que sempre fizeram das universidades americanas lugares de novas ideias, pensamento crítico e liberdade intelectual.

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Sobre o autor Thaline Silva

Natural de Belém do Pará, formada em Geografia pela UFPA, graduanda em Jornalismo pela Estácio e roteirista com pós-graduação em Cinema

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