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Mudanças no mercado editorial desafiam editoras e livrarias

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Em quase duas décadas, o mercado editorial brasileiro encolheu 44% nas vendas ao mercado, em termos reais. Quando consideradas também as compras governamentais, a queda é de 30%. Os dados são na Pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, organizada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), com apuração da Nielsen BookData.

Mercado editorial sofre queda há anos, desafiando editoras e livrarias
O setor já acumula cinco anos consecutivos de retração.O cenário geral é de perda de participação dos livros impressos, redução no número de exemplares vendidos e fechamento de livrarias | Foto: Reprodução / Canva

Em 2024, um ligeiro crescimento de 0,2% foi registrado, sustentado exclusivamente pelo avanço do conteúdo digital.

O faturamento das livrarias físicas caiu 9% em 2022, totalizando R$ 1,082 bilhão. A Amazon, por outro lado, é estimada em R$ 1,4 bilhão em vendas de livros no país, superando sozinha todas as livrarias brasileiras. A mudança no perfil de consumo favoreceu os canais exclusivamente digitais, enquanto grandes redes físicas, como Saraiva e Livraria Cultura, enfrentaram processos de falência e fechamento de unidades.

Mesmo com a retração, redes de médio porte e livrarias independentes seguem buscando alternativas. A mineira Leitura, por exemplo, adotou uma estratégia de fechamento seletivo de lojas com baixo desempenho e abertura em locais de maior adesão, apostando em atendimento personalizado e curadoria.

Didáticos e técnicos concentram as maiores perdas

O subsetor de livros didáticos registrou queda de 51% nas vendas ao mercado desde 2006. O número de exemplares vendidos ficou abaixo dos 30 milhões pela primeira vez em 19 anos. Nos últimos cinco anos, o recuo no faturamento real foi de 25%. A participação do segmento no total de vendas caiu para menos de 40% do faturamento das editoras do setor, invertendo a lógica que vigorava por décadas.

O setor de livros científicos, técnicos e profissionais (CTP) também foi fortemente afetado. Desde 2006, a queda acumulada foi de 61%, mesmo com uma retração menor em 2024, de apenas 2%. Já os livros religiosos se mostraram mais resilientes: a queda no período foi de apenas 10%, o melhor desempenho entre os subsetores.

Obras gerais (ficção, biografias, infantojuvenis) viram queda no número de exemplares vendidos, mas mantiveram parte do faturamento por meio de reajustes de preço. Mesmo assim, o preço médio real está 27% abaixo dos níveis de 2006.

Digital cresce, mas representa fatia limitada

A Pesquisa Conteúdo Digital do Setor Editorial Brasileiro apontou crescimento de 200% no faturamento digital entre 2019 e 2024. A venda à la carte de livros eletrônicos e audiolivros teve alta de 18% em 2024, mas ainda representa apenas 2,9% do mercado.

Outras modalidades apresentaram resultados mais expressivos:

  • Bibliotecas virtuais cresceram 378% desde 2019;
  • Assinaturas digitais aumentaram 250% no mesmo período;
  • Plataformas educacionais registraram crescimento de 41% em apenas um ano.

Essas categorias impulsionaram o único resultado positivo do setor em 2024. Mesmo assim, o conteúdo digital ainda não sustenta a estrutura das editoras em larga escala, sendo um complemento, e não substituto, às receitas tradicionais.

Eventos movimentam o mercado editorial, mas são exceção

A Bienal do Livro Rio 2025, encerrada em junho, atraiu 740 mil visitantes e contabilizou 6,8 milhões de livros vendidos, um crescimento de 23% em relação a 2023. Editoras relataram recordes de vendas, com algumas dobrando o faturamento. A média diária de faturamento foi 83% maior do que a edição de 2022.

Entre os títulos mais procurados estavam obras nacionais e internacionais. Pela Companhia das Letras, destacaram-se Uma família feliz e Jantar secreto, de Raphael Montes; Os sete maridos de Evelyn Hugo, de Taylor Jenkins Reid; Heartstopper vol.5, de Alice Oseman; e Pessoas normais, de Sally Rooney.

Na Record, os sucessos incluíram “Tudo é rio”, de Carla Madeira; “O amor não é óbvio”, de Elayne Baeta; e best-sellers de Colleen Hoover como “É assim que acaba” e “Verity”. A Rocco levou obras como “Powerless”, de Lauren Roberts, e “Mulheres que correm com os lobos”, de Clarissa Pinkola Estés. Na Intrínseca, venderam bem títulos como “Manual de assassinato para boas garotas”, de Holly Jackson, e “Mil vezes amor”, de Lynn Painter. A Globo Livros também teve destaque com “Este é um corpo que cai mas continua dançando”, de Igor Pires, e “A mecânica do amor”, de Alexene Follmuth.

Apesar do êxito do evento, o restante do mercado segue em declínio, pressionado por mudanças estruturais, competição digital e queda no poder de compra da população. O interesse por livros ainda existe, mas o setor enfrenta dificuldades crescentes para convertê-lo em um mercado sustentável.

Sobre o autor Saara Paiva

Jornalista, exploradora de eventos culturais e entusiasta da prática de esportes. Escreve sobre finanças sem palavras difíceis e com temas relevantes para quem vive a realidade brasileira.

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