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Estudo comprova que a violência tem impacto direto na aprendizagem da língua portuguesa e matemática; entenda

Um estudo inédito publicado pela revista Dados, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), mostra que a violência armada no Rio de Janeiro está diretamente associada a perdas significativas na aprendizagem de alunos da rede pública.

A pesquisa, intitulada O Impacto da Guerra às Drogas na Educação das Crianças das Periferias do Rio de Janeiro, analisou dados de 2019 e relacionou episódios de violência no entorno escolar ao desempenho em língua portuguesa e matemática.

Estudo mostra que violência armada no Rio de Janeiro compromete a aprendizagem em língua portuguesa e matemática de alunos do ensino fundamental, com perdas significativas na escala do Saeb | Foto: Reprodução/Canva
Estudo mostra que violência armada no Rio de Janeiro compromete a aprendizagem em língua portuguesa e matemática de alunos do ensino fundamental, com perdas significativas na escala do Saeb | Foto: Reprodução/Canva

Redução no desempenho em avaliações nacionais

De acordo com o levantamento, estudantes de escolas localizadas em áreas com seis ou mais episódios de violência no ano tiveram perdas médias de 7,2 pontos em língua portuguesa e de 9,2 pontos em matemática na escala do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica).

Para efeito de comparação, um ano letivo equivale, em média, a 11,2 pontos em português e 8,5 pontos em matemática. Isso significa que, nessas escolas, os alunos deixaram de aprender o equivalente a grande parte de um ano escolar em português e mais de um ano em matemática.

O impacto é ainda mais grave no 5º ano do ensino fundamental. Em matemática, o efeito corresponde praticamente à perda de um ano inteiro de aprendizado, o que evidencia a dificuldade de recuperação ao longo da trajetória escolar.

Como a violência afeta o ambiente escolar

Um dos autores do estudo, o professor Tiago Bartholo, do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explicou que o fechamento de escolas durante operações policiais e a ausência de professores e alunos em dias de violência são fatores determinantes para a queda no desempenho. Além disso, o estresse contínuo e o impacto psicológico comprometem a capacidade de concentração e aprendizado das crianças.

“Essas escolas ficam fechadas com mais frequência e, mesmo quando abertas, funcionam em um ambiente marcado pelo medo. Isso reduz o tempo efetivo de aprendizagem e gera efeitos cumulativos”, afirmou Bartholo à Agência Brasil.

Dados utilizados no estudo

Para chegar às conclusões, os pesquisadores cruzaram informações de diferentes fontes. Entre elas estão os registros do aplicativo Fogo Cruzado, que reúne relatos colaborativos sobre tiroteios e disparos de armas de fogo, além das informações da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro. Esse aplicativo, que não está mais disponível, permitia que diretores registrassem episódios de violência que impactaram diretamente a rotina escolar.

Esses dados foram comparados aos resultados da Prova Brasil, avaliação do Ministério da Educação que integra o Saeb. Para isolar os efeitos da violência, as escolas impactadas foram comparadas a unidades semelhantes em infraestrutura e perfil socioeconômico, mas localizadas em áreas sem episódios recorrentes de violência armada.

Leia também: Sul e Sudeste devolvem mais impostos em serviços, aponta estudo

Alunos acumulam perdas ao longo dos anos

Segundo os autores, o impacto identificado no 5º ano não se restringe a um único período escolar. Os dados apontam que essas perdas são acumuladas ao longo de toda a trajetória educacional, criando defasagens persistentes. A professora Mariane Koslinski, da UFRJ, que também assina o estudo, destacou que a violência no entorno escolar compromete não apenas a frequência às aulas, mas também a qualidade da aprendizagem e o desenvolvimento de competências básicas.

Dimensão do problema na região metropolitana

A pesquisa da Uerj se soma a outros levantamentos recentes. Em maio de 2025, o relatório Educação Sob Cerco: as escolas do Grande Rio impactadas pela violência armada mostrou que cerca de 800 mil crianças e adolescentes, de 1,8 mil escolas públicas da capital e de 19 municípios da região metropolitana, sofrem impactos diretos da violência. Isso representa aproximadamente metade dos estudantes do ensino fundamental e médio da rede pública fluminense.

Segundo o levantamento, mais da metade das escolas do município do Rio estão em áreas dominadas por grupos armados: 28,4% estão em territórios controlados por milícias e 30% em áreas de tráfico. Em 2022, foram registrados mais de 4,4 mil tiroteios em regiões próximas a escolas.

Impactos pedagógicos e sociais

Os resultados reforçam a importância de considerar a violência armada como um fator estrutural que influencia o desempenho escolar. Ao se refletirem em perdas de aprendizagem, esses episódios podem comprometer trajetórias educacionais inteiras. Para os pesquisadores, os dados evidenciam que políticas públicas de segurança e educação precisam ser integradas para reduzir os impactos nas escolas.

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