Apesar dos avanços registrados na educação brasileira nas últimas décadas, um novo levantamento revela que milhões de pessoas ainda carregam uma dívida histórica com a escolarização. Hoje, 63,9 milhões de brasileiros com 15 anos ou mais abandonaram os estudos antes de concluir a educação básica.

Os dados fazem parte do estudo “População de 15+ fora da escola, demanda potencial por EJA e transições para o trabalho“, divulgado durante o lançamento da Rede EJA e Inclusão Produtiva, iniciativa que reúne 16 organizações da sociedade civil para fortalecer políticas voltadas à Educação de Jovens e Adultos (EJA) e ampliar oportunidades de inclusão produtiva.
O diagnóstico chama atenção para um dado preocupante: embora o número de pessoas sem a educação básica tenha diminuído nos últimos anos, essa redução ocorreu principalmente porque parte dessa população envelheceu e morreu, e não porque voltou à escola.
Queda não significa avanço da escolarização
Desde 2012, o contingente de brasileiros sem educação básica completa caiu cerca de 16%. À primeira vista, o resultado poderia indicar um avanço nas políticas educacionais. No entanto, a pesquisa mostra uma realidade diferente.
Segundo o levantamento, 51% da redução ocorreu em razão da mortalidade dessa população, enquanto apenas 8% pode ser atribuída ao retorno aos estudos por meio da Educação de Jovens e Adultos. Ou seja, para cada pessoa que concluiu a educação básica pela EJA nesse período, mais de seis morreram sem finalizar essa etapa da formação escolar.
Os pesquisadores alertam que existe uma janela de oportunidade cada vez menor para alcançar adultos nascidos entre as décadas de 1960 e 1980, que concentram grande parte da demanda por escolarização.
Educação de Jovens e Adultos alcança uma pequena parcela
A pesquisa aponta que a principal política pública voltada para quem deseja retomar os estudos ainda tem alcance bastante limitado. Atualmente, a EJA atende apenas 1,5% da demanda potencial existente no país.
O atendimento varia conforme a etapa de ensino:
- 1,4% nos anos iniciais do ensino fundamental;
- 1,1% nos anos finais do ensino fundamental;
- 2,3% no ensino médio.
Além da baixa cobertura, a oferta diminuiu ao longo dos últimos anos. Entre 2008 e 2024, o número de municípios brasileiros sem nenhuma turma de EJA passou de 493 para 1.092, mais que dobrando no período.
Hoje, somente 24,6% das escolas de educação básica oferecem essa modalidade de ensino. Em outras palavras, três em cada quatro unidades escolares não disponibilizam turmas para jovens e adultos que desejam voltar a estudar.
Quem são os brasileiros que deixaram a escola?
O estudo mostra que esse público é bastante diverso. Dos quase 64 milhões de brasileiros sem educação básica concluída:
- 44,7 milhões não terminaram o ensino fundamental;
- 19,3 milhões interromperam os estudos antes do fim do ensino médio;
- 63,9% são pessoas pretas ou pardas;
- 49,2% são mulheres.
A distribuição também varia conforme a idade.
Os que não concluíram os primeiros anos do ensino fundamental são, em sua maioria, idosos que cresceram em uma época em que o acesso à escola era muito mais restrito.
Já quem abandonou o ensino fundamental concentra-se principalmente entre 30 e 59 anos. Os que interromperam os estudos no ensino médio, por sua vez, costumam ter entre 18 e 39 anos.
As maiores concentrações aparecem nas regiões Norte e Nordeste, embora o problema também esteja presente em áreas do interior do Sudeste e do Centro-Oeste.
Escolaridade influencia diretamente a renda
Além dos impactos sociais, o levantamento mostra que a baixa escolaridade também afeta o rendimento das famílias. Quem não concluiu a educação básica possui renda domiciliar per capita média de R$ 1.427, pouco mais da metade dos R$ 2.777 registrados entre aqueles que finalizaram essa etapa de ensino.
Os dados revelam ainda que:
- 56,5% vivem em domicílios com renda de até um salário mínimo;
- 32,8% estão abaixo da linha de pobreza adotada para países de renda média-alta;
- a taxa de pobreza nesse grupo é 1,8 vez maior do que entre pessoas com educação básica completa.
Os pesquisadores estimam que, caso metade dessa população concluísse os estudos, haveria um ganho potencial equivalente a 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB), reduzindo uma perda anual estimada em R$ 66 bilhões em renda.
Trabalho e responsabilidades familiares dificultam o retorno
Os motivos que levaram ao abandono escolar variam entre homens e mulheres. Entre os homens, o trabalho aparece como principal causa tanto para interromper os estudos quanto para impedir o retorno às salas de aula. Mais da metade afirma que precisou deixar a escola para trabalhar.
No caso das mulheres, além da necessidade de trabalhar, gravidez, cuidados com os filhos e responsabilidades domésticas são os fatores mais citados.

Para aumentar a permanência dos estudantes, seriam necessárias medidas como horários mais flexíveis, oferta de creches e integração entre educação, trabalho e assistência social.
Nova rede quer fortalecer políticas para adultos
Durante o lançamento do estudo foi criada a Rede EJA e Inclusão Produtiva, formada por 16 organizações da sociedade civil, fundações e organismos internacionais.
A iniciativa pretende apoiar a implementação das metas do novo Plano Nacional de Educação (PNE), ampliar o acesso à Educação de Jovens e Adultos e incentivar políticas que facilitem o retorno de quem interrompeu os estudos.
Entre as propostas apresentadas estão o fortalecimento da busca ativa de estudantes, maior investimento nas regiões com maior déficit educacional, financiamento contínuo para a modalidade, atualização dos materiais didáticos e formação permanente de professores.
Na avaliação dos pesquisadores, o desafio deixou de ser apenas abrir novas vagas. Agora, a prioridade é criar condições para que milhões de brasileiros consigam conciliar estudo, trabalho e vida familiar antes que essa geração envelheça sem concluir a educação básica.


